(Ex) Citações de Cada Dia: Fóruns sobre Saúde & Trabalho (Letras U-Z)(1)

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Índice temático

1. Verdade e Terror: O Caso da Campanha Antitabágica em França

2. Vida Activa Saudável no Local de Trabalho (Projecto)

3. Vila Verde de Ficalho: a Aldeia Sem Tabaco (2000- 2002)

4. Vila Verde de Ficalho: a Aldeia Sem Tabaco ( 2003)

5. Violência no Local de Trabalho (Assédio Sexual, Assédio Moral, Mobbing, etc.)

6. Welfare, Workfare, Warfare

7. Zé Povinho (vd. Portugal, Portugueses)

 

Tema:   Verdade e Terror: O Caso da Campanha Antitabágica em França. Nº de ordem, Nome e Data. Mensagem (excertos) (*)
(1) Luís Graça, 26/6/2002: Fascismo sanitário ?

O procedimento das autoridades francesas ligadas à saúde e à segurança social terá sido eticamente correcto ? Será legítimo pôr uma população inteira em estado de choque por uma "boa causa" ? Os fins justificam os meios ? Referimo-nos à notícia, vindo no "Público" de hoje, sobre o anúncio que foi exibido anteontem nas sete principais cadeias da TV francesas. Eis alguns excertos:

"Numa altura em que é cada vez mais difícil distinguir a informação da publicidade, os telespectadores gauleses viram surgir, no intervalo dos noticiários ou entre programas do horário nobre, um fundo negro sobre o qual ia aparecendo escrito um aviso. Uma "voz-off" acompanhava o aparecimento das palavras: "Foram detectados vestígios de ácido cianídrico, mercúrio, acetona e amoníaco num produto de grande consumo".

"O anúncio remetia depois para um número de telefone gratuito, através dos qual os telespectadores poderiam obter mais informações sobre o assunto, nomeadamente sobre o produto em causa (...)".

Lançado de forma "alarmista e surpreendente", o anúncio (que não tem mais de cinco segundos) provocou uma onda de pânico: "as pessoas temiam que se tratasse de um alimento envenenado ou de um produto de higiene".

Ainda a notícia do "Público", houve o maior secretismo no lançamento da campanha de tal modo que os próprios órgãos de comunicação social foram apanhados desprevenidos. “Resultado: o tal número de telefone gratuito, preparado para atender 50 mil chamadas por hora, bloqueou e permaneceu inacessível durante a noite de domingo. Mesmo depois de uma segunda parte do anúncio ter sido exibida, explicando que o produto "contaminado" eram os cigarros, muitas pessoas continuavam agarradas ao telefone".

A campanha publicitária que vai custar 4, 5 milhões de euros e vai prolongar-se até 7 de Julho próximo, foi patrocinada pelo Instituto Nacional de Prevenção e Educação para a Saúde (INPES), em parceria com a Segurança Social francesa (a quem compete pagar os encargos com os cuidados de saúde, despesas médicas, hospitalização, etc.).

A agência publicitária Euro RSCG BETC foi quem criou o anúncio. Foi explicado que era preciso dramatizar a situação:. "Os especialistas estão desesperados porque ninguém os escuta”… Um responsável do INPES disse à imprensa que era “preferível assustar a lidar anualmente com 60 mil mortes causadas pelo tabaco”. As reacções não se fizeram esperar e foram as mais diversas: houve quem felicitasse o "genial golpe mediático" enquanto outros se mostravam revoltados contra "contra a hipocrisia do Estado que paga estes anúncios ao mesmo tempo que beneficia das elevadas taxas impostas ao tabaco".

"Um fórum criado na Internet para debater a campanha reuniu ainda outros argumentos. "Ok, fumar está errado", admitia um cibernauta. "Mas beber está errado, conduzir como um tarado está errado, drogar-se está errado, manter relações diplomáticas com ditadores está errado. Em vez de gastarem o meu dinheiro em campanhas inúteis mais valia aplicá-lo na investigação científica. Isso sim, seria verdadeiramente útil". Alguns participantes temem pela eficácia de futuras advertências: "À força de gritarem que vem lá o lobo, as pessoas não irão acreditar quando este tipo de anúncios se referir a um produto nocivo, consumido involuntariamente".

Há uma página na Internet ligada à esta campanha antitabágica: http://www.jeveuxlaverite.com . Diz o "Público" que recebeu mais de dez mil entradas na noite de domingo.

Caros cibernautas: Morrem em Portugal cerca de 11 mil pessoas todos os anos, na sequência do consumo de tabaco (sete vezes mais do que os acidentes de automóvel). Uma campanha deste tipo poderia ser eficaz ? Iria contribuir efectivamente para a redução da hecatombe das mortes provocadas pelo tabaco ? Seria também susceptível de pôr os portugueses em estado de choque ? E sobretudo, no país dos brandos costumes, iria provocar polémica ? Em resumo, quem é contra e quem é a favor ?

Se querem a minha opinião a quente, tenho desde já muitas reservas em relação este estilo de campanhas. A causa (a prevenção da doença e a promoção da saúde) é boa, mas os meios são perversos. Não duvido da sua eficácia, mas temo o precedente. Isto não é educação/informação para a saúde, isto não é "serviço público": é o puro terror, é o condenar a vítima, é o desresponsabilizar o sistema (O Estado, o Governo, a indústria, a ciência, a sociedade de consumo, a publicidade ...). Isto é um exemplo de "fascismo sanitário" ou pode descambar no "fascismo sanitário"... Não me dizem toda a verdade, mas depois acusam-me “Agora tu sabes” (“Maintenant vous savez”…). Como quem diz: Só a ti compete escolher: O tabaco ou a vida. 

Post scriptum - Eu não fumo

(2) Kalep, 27 /7/2002: Terror

Tenho as maiores dúvidas sobre o uso de métodos "terroristas" neste tipo de campanha. Porque o "pânico" é momentâneo e depois as pessoas acabam
por baixar as defesas e ter a sensação que afinal o tabaco  "não mata" tão rapidamente como se propangandeia. Foi isto que aconteceu com a campanha "Droga, Loucura, Morte" , uns anos antes do advento da massificação da toxicomania. Talvez esteja alguma nova droga na rampa de lançamento, sem fumo, e a precisar de ser difundida ao público em geral.
Pode ser que esteja enganado, e só daqui a algum tempo se verá. (O tabaco é de facto terrível para a saúde). Aceito que vale a pena experimentar várias estratégias, e comparar resultados.

(3) Luís Graça, 27/6/2002

 

Citação: Publicado originalmente por Kaleph:
"Tenho as maiores dúvidas sobre o uso de métodos "terroristas" neste tipo de campanha. Porque o "pânico" é momentâneo e depois as pessoas acabampor baixar as defesas e ter a sensação que afinal o tabaco "não mata" tão rapidamente como se propangueia".


Consegui entrar no sítio do "je veux la vérité" (em português: "eu quero a verdade"). Não traz nada de novo, para mim ou para aqueles como eu que trabalham na área da saúde. Mas eu recomendo aos "leigos", a começar pelos fumadores e pelos potenciais fumadores, uma visita a este "site" (em francês).

A ideia é simples: o cigarro é um produto de grande consumo, de venda livre, acessível a todos, nomeadamente com a proliferação das caixas de venda automática. Tem uma particularidade: é a primeira droga legal (e letal) de venda livre. A primeira e talvez a única. Socialmente tolerada. Hipocritamente, o Estado obrigou os fabricantes a dizer, nos maços de cigarros, que o tabaco mata, que o tabaco provoca graves doenças, etc. Em contrapartida o Estado arrecada pipas de massa com o "imposto sobre o vício": no nosso caso, mais de 200 milhões de contos, 20 contos por cada português... (É muito ? É pouco ? É qualquer coisa como um 1/5 do orçamento do serviço nacional de saúde).

Em relação a outros produtos de grande consumo, o Estado tem mostrado grandes preocupações com a defesa da saúde pública, para não falar já dos direitos dos consumidores. E toma (ou é obrigado a tomar) medidas drásticas: veja-se o caso das vacas loucas, só para dar um exemplo recente...

Um dos clássicos direitos dos consumidores é o da informação sobre o que se consome, além da protecção da sua saúde e segurança... Entretanto, de que é feito um maço de cigarros ? De coisas aparentemente tão banais e inócuas como tabaco, papel de cigarro, nicotina, alcatrões, agentes de sabor de textura. Só que há uma pequena diferença em relação a outros produtos de grande consumo: a vocação do tabaco é a de ser... fumado, diz o "site"… "Or, dès qu'on l'allume, une cigarette se transforme immédiatement en une véritable usine chimique. Et au bout de la chaîne, vous n'avez qu'une très vague idée de ce que vous avalez. La fumée du tabac contient plus de 4000 substances dont au moins 40 cancérigènes:

- De la nicotine, à l'origine de la dépendance au tabac
- Des particules, dont les goudrons, premiers responsables des cancers
- Des gaz toxiques : ammoniac, acétone, formol..."


É isso, e não pode ser escamoteado, meus amigos: um cigarro é uma "verdadeira fábrica química" (sic) desde o momento que eu o acendo e puxo umas fumaças. O fumo do cigarro contem mais de 4000 (!) substâncias das quais se sabe que pelo menos umas 40 (!) são cancerígenas": a nicotina (responsável pela dependência); substâncias como os alcatrões que são os principais responsáveis pelos diferentes tipos de cancros; gazes tóxicos, etc. Juntem o Barreiro, Sines, Estarreja & Companhia e têm lá isso tudo, em miniatura, num simples cigarro... E andamos nós a discutir, à nossa maneira saloia e paroquial, a co-incineração e os seus perigos para a saúde ambiental e humana! (Ainda bem que o discutimos, mas que não seja de cigarro na boca!).

Volto, entretanto, a insisto na minha pergunta original, ingénua sem deixar de ser provocatória: é terrorismo puro e duro difundir esta informação num "spot" publicitário ? É terrorismo puro e duro dizer que um em cada dois fumadores vai morrer por causa do tabaco ? É terrorismo puro e duro dizer que não há tabaco "light" que nos proteja ? É terrorismo puro e duro dizer que o tabagismo passivo também é grave ?...

Às duas da noite, a frio, e pensando bem, acho que a "dramatização" dos efeitos do tabagismo pode ter um efeito benéfico. Não sei se é "legítimo", "ético", "contraproducente", "politicamente correcto", etc. Do ponto de vista da saúde pública, esta dramatização tem pelo menos o mérito de nos obrigar a confrontarmo-nos com as nossas escolhas, individuais e colectivas. O tabaco é um produto de grande consumo, provoca doenças graves e mata... É bom que se saiba porquê: porque se consome tanto, porque provoca doenças graves, porque mata. A informação é o princípio da prevenção. Estou de acordo. Tenhamos é a coragem de falar, aberta e frontalmente, de tudo o mais que provoca doenças graves, que mata, e que pode ser prevenido. A começar pelo tabaco que mata, todos os anos,60 mil franceses 11 portugueses, 400 mil americanos, e por aí fora...

Se esta campanha "terrorista" contribuir para salvar uma vida, vocês acham que ela, mesmo assim, terá valido a pena ? Pessoalmente, continuo a ter as minhas dúvidas... Mesmo no final desta mensagem inacabada... E a dúvida é quase existencial: Será que o Estado, o Governo, aqui ou em França ou na América, tem uma genuína preocupação com a minha saúde, o meu bem-estar, a minha qualidade de vida, a minha felicidade ? Perguntar não ofende.
(4) Dr.Hipócrates, 27/6/2002: A verdade e o terror
 

Citação. Publicado originalmente por Luís Graça:
"Volto, entretanto, a insistir na minha pergunta original, ingénua sem deixar de ser provocatória: é terrorismo puro e duro difundir esta informação num "spot" publicitário ? É terrorismo puro e duro dizer que um em cada dois fumadores vai morrer por causa do tabaco ? É terrorismo puro e duro dizer que não há tabaco "light" que nos proteja ? É terrorismo puro e duro dizer que o tabagismo passivo também é grave ?"


Não disponho de muito tempo para me debruçar sobre esta questão. Aplaudo a iniciativa das autoridades francesas. Estamos perante uma verdadeira catástrofe. Da família ao Estado, todos temos a obrigação de mandar uma pedrada no charco. Não me venham com paninhos quentes. Isto já não não vai com conversa mole. É preciso usar a artilharia pesada do marketing social. Sou a favor da ideia-choque que está explícita nos tais anúncios contra o tabaco. E urgente criar na opinião pública europeia um forte movimento contra a tolerância e a permissividade em relação ao tabaco. Não é fácil, quando essa tolerância e permissividade já existem em relação às drogas ditas ilegais. Meu caro Luís Graça, se isto é fascismo sanitário, então temos que redescrever a história da saúde pública na Europa. Você, aliás, sabe isso melhor do que eu: foi pelo terror, pela polícia sanitária, pelas quarentenas, pelos lazaretos, pela exclusão e outros métodos repressivos e compulsivos que a saúde pública salvou a Europa. Desde a luta conta a peste negra à tuberculose. Não tenha dúvidas que o tabaco é hoje a nossa peste... azul. Mas eu não separo o tabaco das outras drogas. Ele vem à cabeça de todas: é a grande arma química que nos está a matar! Dizer isto na televisão não pode ser interpretado como "terrorismo puro e duro"! Terrrorismo (e de Estado) é cobrar o "imposto do vicio" e depois enterrar o dinheiro nos institutos de oncologia e nos nossos hospitais para tentar deseperadamente tratar e salvar as vítimas da peste azul.
(5) Isabel Coutinho, 27/6/2002: Atitudes fascitóides


Eu, sub-humana, pestífera, raça inferior, feia, porca, suja e má, vou, enquanto não me meterem num campo de concentração, e enquanto o Dr. Hipócrates não tomar o poder, dizer qual foi a minha reacção à tal notícia que também li no Público:

(1) Encolhi os ombros, e ri-me. Acho que foi a reacção de todos os fumadores. Já estamos habituados. E, de imediato, acendi um cigarro.

(2) Iindignei-me: não há o direito de espalhar o pânico. A notícia era propositadamente alarmista. Seria o mesmo que interromper os programas de televisão e anunciar "oficialmente" que um meteorito ia chocar com a Terra dentro de meia hora !

Agora a minha reacção ao texto do Dr. Hipócrates (ou Hipócrita ? ).

O Sr. assume-se como defensor da intolerância, de políticas de terror, polícias sanitárias e outros métodos “repressivos e compulsivos” que, no seu entender, “salvaram a Europa” de todos os males: da peste negra à tuberculose.

Aplausos ! O Dr. Hitler não teria dito melhor ! O Dr. Fidel, até mete os sidosos em campos de concentração. Para a salvação do povo da sua ilha!

Em épocas recuadas, a ignorância e barbárie humanas, aliadas ao terror irracional do desconhecido, discriminaram pessoas doentes, afastando-as do contacto com outros humanos, emparedando vivas famílias inteiras,  matando-as à fome e à sede, queimaram epilépticos em fogueiras, acusando-os de estarem possessos do demónio.

Sabe como se acabou com muitas dessas doenças, à medida que o homem se foi civilizando? Estudando a suas causas, descobrindo remédios, e tratando as pessoas. Algumas doenças – a última foi a poliomielite – conseguiram mesmo ser erradicadas, com o recurso à vacinação.

Infelizmente ainda há hoje em dia muito selvagem que considera um epiléptico louco e um fumador pestífero!

O Luís Graça utilizou – e muito bem – o termo “fascismo sanitário”. Aliás fui eu, parece-me, que introduzi aqui esse termo, que li numa revista francesa, neste fórum.

Está muito preocupado com as “vítimas” que o meu pobre cigarro pode causar ? Pois olhe: eu estou muito mais preocupada com a política de assassínio generalizado de crianças indefesas na barriga das suas próprias mães. Prática esta considerada hoje em dia “politicamente correcta”, e digna do maior aplauso, com direito a “Associações de Defesa” (dos assassinos, claro), e tudo. E com a protecção legal e concessão de privilégios a Homossexuais, Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgenders, que reivindicam o direito de comerem sardinhas à custa do dinheiro que não vai para os hospitais, e, melhor ainda, de terem filhos ou adoptarem crianças que mais tarde irão, com toda a probabilidade alimentar as redes de pedofilia.

Guarde os seus medos e os seus rancores. Se quiser ajudar os fumadores que desejam deixar o vício (e que são quase todos), a consegui-lo, olhe que por aí, não vai lá. Mas também não me parece que seja esse o seu objectivo:
O que o Sr. deseja, é isso mesmo: FASCISMO SANITÁRIO !

Bolas ! Que ele há gente para tudo ! 

(6) K, 28/6/2002: Fascismo sanitário ?
 

Citação. Publicado originalmente por Luís Graça
"Caros cibernautas: Morrem em Portugal cerca de 11 mil pessoas todos os anos, na sequência do consumo de tabaco (sete vezes mais do que os acidentes de automóvel). Uma campanha deste tipo poderia ser eficaz ? Iria contribuir efectivamente para a redução da hecatombe das mortes provocadas pelo tabaco ? Seria também susceptível de pôr os portugueses em estado de choque ? E sobretudo, no país dos brandos costumes, iria provocar polémica ? Em resumo, quem é contra e quem é a favor ?"

Sim a todas as perguntas.

Acho que houve por aí uma menção ao facto de se "condenar a vítima" (implicitamente o fumador), ora eu pergunto - e as outras vítimas que sofrem com o fumo alheio? Estão comprovados cientificamente os efeitos nocivos à saúde de quem é fumador passivo.

Considero ainda que este tipo de discussão é de facto da maior urgência sim (analisem-se os números, os dramas médicos), e tal não invalida que se tenham outras preocupações... Quem é contra , tem alternativas? Alguma coisa tem de ser feita - afinal estamos todos de acordo quanto a isto ser um problema de saúde pública, ou não?

Não peço desculpa por querer viver saudavelmente: sou a favor de todas as campanhas de prevenção/consciencialização contra o tabaco.

(7) Jota Lourenço, 28/6/2002: A verdade e o terror

Citação. Publicado originalmente por Dr. Hipócrates:
"Sou a favor da ideia-choque que está explícita nos tais anúncios contra o tabaco. E urgente criar na opinião pública europeia um forte movimento contra a tolerância e a permissividade em relação ao tabaco. Não é fácil, quando essa tolerância e permissividade já existem em relação às drogas ditas ilegais. Meu caro Luís Graça, se isto é fascismo sanitário, então temos que redescrever a história da saúde pública na Europa. (...) Eu não separo o tabaco das outras drogas. Ele vem à cabeça de todas: é a grande arma química que nos está a matar! Dizer isto na televisão não pode ser interpretado como "terrorismo puro e duro"! Terrrorismo (e de Estado) é cobrar o "imposto do vicio" e depois enterrar o dinheiro nos institutos de oncologia e nos nossos hospitais para tentar deseperadamente tratar e salvar as vítimas da peste azul".

Não é a primeira (nem será a última) vez que estou em total desacordo com o Dr. Hipócrates. Já nos conhecemos doutros fóruns e de discussões semelhantes. Francamente, diga-me lá: quer pôr todos os fumadores da União Europeia num gueto ? Quer apontar-lhes o dedo inquisitorial e acusador ? E quiçá o pelotão de fuzilamento ? Em nome de quê ? Dos superiores interesses do Estado ? Da Saúde Publica ? Da Felicidade ? Acha que já não basta o preço que eu pago pelos cigarros ? O medo que me metem quando leio: "Atenção, o tabaco mata" ? A rejeição social a que já sou votado nalguns sítios ? A dor que sinto quando algum velho amigo me morre de cancro ou tem um avêcê ? Já basta a droga de vida a que estamos condenados, nós os velhos fumadores ?! Felizmente fumo pouco, mas quero morrer como o meu avô ganhão: com a dignidade e o orgulho de um velho anarcossindicalista, de cigarro na boca... Nenhum Estado, e muito menos um futuro Estado totalitário paneuropeu, me irá tirar esse prazer A menos que o meu médico de família e meu amigo me corte a ração de vez.
(8) Luís Graça, 30/6/2002: O Vaticano e o tabaco

Citação. Publicado originalmente por Isabel Coutinho:
" (...) O Luís Graça utilizou – e muito bem – o termo “fascismo sanitário”. Aliás fui eu, parece-me, que introduzi aqui esse termo, que li numa revista francesa (...)."


O seu a seu dono, Isabel. Não há dúvida que foi você a usar, pela primeira vez nos fóruns do Publico.pt (não sei se no Cidadania, se no Ataque Terrorista) a expressão "fascismo sanitário". E teve na altura o meu aplauso. Já não posso agora é concordar consigo quando se autoproclama "sub-humana, pestífera, raça inferior, feia, porca, suja e má"... Sei que o fez com sentido de ironia ou de sarcasmo. Espero bem que o Dr. Hipócrates entenda, ao menos, o alcance das suas palavras.

Vejo como continua a ser difícil fazer pontes entre tabagistas e antitabagistas. O Dr. Hipócrates excedeu-se no sua cruzada antitabágica. Mas curiosamente arranjou agora um aliado de peso. De peso e inesperado. Imagine quem, Isabel ? O Estado do Vaticano !...

Segundo eu próprio ouvi ontem na TSF, no minúsculo Estado do Vaticano passa a ser proibido fumar em qualquer parte, mesmo nos recintos públicos. A polícia local está mandatada para multar os prevaricadores até um montante de 30 euros. Dizia o jornalista da TSF que esta medida não deverá ser do agrado do nosso cardeal patriarca de Lisboa, ao que parece um invetereado fumador (tal como o anterior, D. António).

O Vaticano será assim o primeiro Estado do mundo, ao que sei, a banir o tabaco do convívio dos homens. Esta medida tão radical será ditada apenas por razões de saúde pública ? Talvez o Dr. Hipócrates nos saiba responder. 

 

(9) Luís Graça, 30/6/2002: A verdade e o terror

Citação. Publicado originalmente por Jota Lourenço:
"Já basta a droga de vida a que estamos condenados, nós os velhos fumadores ?! Felizmente fumo pouco, mas quero morrer como o meu avô ganhão: com a dignidade e o orgulho de um velho anarcossindicalista, de cigarro na boca... Nenhum Estado, e muito menos um futuro Estado totalitário paneuropeu, me irá tirar esse prazer. A menos que o meu médico de família e meu amigo me corte a ração de vez".

... De que Deus nos livre, Jota Lourenço ! (Refiro-me ao Estado totalitário pan-europeu que você já profetiza e tudo!). Quanto ao seu médico de família, ele deve ser mesmo seu amigo: se ainda não lhe tirou a ração diária de nicotina é porque ele também acredita nos benefícios do tabaco. Quero eu dizer: nos eventuais benefícios do cigarro para quem fuma pouco como você. Invejo-o, porque eu quando deixei de fumar, fui mesmo radical. Nem mais um cigarro! Era mesmo a única maneira de cortar o mal pela raiz.

Quanto ao seu avô ganhão, anarcossindicalista, a pedir um cigarro antes de morrer, achei a imagem altamente sugestiva e forte, mas algo patética e pouco verosímel... A menos que ele tenha morrido heroicamente, de pé, frente a um pelotão de fusilamento (talvez na guerra civil de Espanha, não ?) Terá sido assim ? Estou a fantasiar e a lembrar-me de um "cartoon" do Vasco... Perecebi, em todo o caso, o que o Jota Lourenço nos queria dizer a todos: "Nenhum Estado, por mais totalitário que seja, me há-de tirar o cigarro da boca, me há-de roubar o prazer do último cigarro clandestino. Essa decisão (deixar de fumar) é uma decisão minha e só minha". Reconheço nessa tirada, tão ao seu jeito, a costela anarcossindicalista do seu avô ganhão, pessoa de quem você tanto se orgulha (e com razão!). 


Post scriptum - E a propósito, conhece aquela cantiga ?

Oh! patrão dá-me um cigarro
Acabou-se-me o tabaco
Semente que eu lanço à terra
Fumando dá mais um saco

Ou então aquela outra:

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra
Vou fumando o meu cigarro
Vou cumprindo o meu horário
Lá na encosta da serra.

Quem sabe se o seu avô ganhão não cantarolava estas e outras cantigas. Naquele tempo, só os pobres cantavam... Curiosamente são hoje letras cantadas pelo Coral Polifónico Os Ganhões de Castro Verde...

(10) Luís Graça, 2/7/2002: A verdade e o terror

Citação. Publicado originalmente por Dr. Hipócrates:
"
Não tenha dúvidas que o tabaco é hoje a nossa peste... azul. Mas eu não separo o tabaco das outras drogas. Ele vem à cabeça de todas: é a grande arma química que nos está a matar! Dizer isto na televisão não pode ser interpretado como "terrorismo puro e duro"! Terrrorismo (e de Estado!), isso sim, é cobrar o "imposto do vicio" e depois enterrar o dinheiro nos institutos de oncologia e nos nossos hospitais para tentar desesperadamente tratar e salvar as vítimas da peste azul"

O Dr. Hipócrates sabe, tão bem ou até melhor do que eu, que os homens e as mulheres da "saúde pública" têm toda a razão quando falam da "peste azul" e dos seus efeitos devastadores em termos de morbimortalidade. Acontece é que não podemos cair na tentação do imperialismo sanitário. Uma coisa é investigar, divulgar, informar, educar, promover a saúde, etc. Outra coisa é, em nome dos "superiores interesses da saúde públicia" (às vezes tão tortuosamente invocados, ontem como hoje), criar um clima de terror: pode ser o primeiro passo para a tentação totalitária. Pessoalmente, não vejo mal que se utilizem as modernas técnicas do marketing e comunicação para tentar mudar comportamentos de saúde. Não vejo mal que se choque a opinião pública. O nosso médico de família faz isso connosco. Não fazemos isso com os nossos filhos, quando os confrontamos com o problema da droga, etc. O problema é saber onde acaba a verdade e começa a manipulação, o que se diz e o que se omite, etc. Não é pelo medo (de morrer de cancro daqui a dez, quinze ou vinte anos) que os fumadores vão deixar de fumar. Pelo menos a maioria. Não é pelo medo de contrair o HIV/Sida que metade dos nossos jovens universitários vão passar a usar o preservativo. Pelo menos a maioria. Não é pelo medo de morrer, por esmagamento do crânio, que os operários da construção vão passar a usar o capacete e o resto dos elementos que fazem parte do EPI (Equipamento de Protecção Individual). Pelo menos a maioria.

O "spot" publicitário que está a passar em França estará esquecido dentro de um mês. Mas teve sucesso mediático. Fará parte do portfólio de uma agência publicitária, do curriculum vitae de um criativo (que dirá daqui a uns anos aos netos: fui eu quem pôs a França em estado de choque no já lonquínquo ano de 2002...). Com um "spot publicitário! Como se isto fosse um troféu de caça !... Ora a pergunta é: Quantos franceses vão deixar de fumar em resultado da campanha ? Qual é a taxa de sucesso ? Haverá programas de apoio (médico, psicológico, etc.) aos que deixaram (ou querem deixar ) de fumar ? Os benefícios serão superiores aos custos ? A credibilidade das autoridades de saúde foi posta em causa ? Houve ou vai um grande debate nacional sobre a saúde dos franceses ? O Governo francês vai ser coerente e consequente ? Se o tabaco é uma verdadeira fábrica química que mata todos os anos 60 mil franceses, porque não fechar de imediato a "fábrica" ? O discurso do "healthism" (neste caso do antitabagisnmo) levado até às suas últimas consequêcnias acabaria numa nova tomada da Bastilha...

Em resumo: meu caro Dr. Hipócrates, não reifique e isole o tabaco (que é, sem dúvida, a primeira causa de morte evitável entre nós...). O tabaco faz parte de um sistema patogénico mais vasto: o nosso modo de nascer, educar, respirar, fazer amor, viver, trabalhar, produzir, consumir, pensar e morrer. O drama é saber que as pessoas, mesmo sabendo que o tabaco faz mal à saúde (ao ponto de matar um em cada dois), continuam a fumar... Porquê ? Como ajudá-las ? Esse é o grande desafio que temos pela frente: criar um sistema salutogénico (de nascer, educar, respirar, fazer amor, viver, trabalhar, produzir, consumir, pensar e, inevitavelmente, morrer). O que só pode ser através das pessoas e com as pessoas (Não apenas para as pessoas e contra as pessoas). Isso é que é promoção da saúde. O resto é, no mínimo,"fireworks"! 

PS - Você vai-me dizer que, enquanto a gente anda às voltas com a busca do tal novo paradigma, há 60 mil franceses que morrem todos os anos por causa do tabaco, outros tantos espanhóis, 400 mil norte-americanos, 11 mil portugueses, não sei quantos milhões de chineses, etc. Não tenho resposta para essa brutal realidade. Contra factos não há argumentos. O que eu sei é que ninguém tem uma solução de tipo chave na mão para um dos grandes problemas de saúde pública do nosso tempo. Eu pelo menos não tenho. E desconfio sempre dessas soluções de tipo chave na mão.

(*) Fóruns do Publico.pt > Cidadania - A verdade e o terror: o caso da campanha antitabágica em França  

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Tema: Vida Activa Saudável no Local de Trabalho (Projecto). Nº de ordem, Nome e Data. Mensagem (excertos) (*)
(1) Dr. Hipócrates, 12/3/2001

Um colega meu (...) perguntou-me se eu conhecia o projecto Vida Activa Saudável no Local de Trabalho. Falei-lhe por alto de algumas grandes empresas que, ao que parece, terão aderido a este programa da Direcção-Geral de Saúde: caso da Portugal Telecom, CGD, Portugália, EPAL, EDP e mais umas tantas...Infelizmente não soube explicar-lhe, com grande detalhe,  o que é que se está a fazer nestas empresas em matéria de promoção da saúde. Talvez algum dos internautas conheça melhor do que eu o que se está a passar. Em tempos andei à procura, na Net, de informações sobre este programa  mas não encontrei qualquer referência no site  da Direcção-Geral de Saúde.. O que é pena.

(2) Luís Graça, 19/4/2001

Alguém perguntou há tempos por notícias do Projecto Vida Activa Saudável no Local de Trabalho... Para aqueles de vós (...) que se interessam pela promoção da saúde no trabalho (abreviadamente, PST), trago hoje a notícia da realização do X Seminário Intercalar no âmbito deste projecto, coordenado pela Direcção-Geral de Saúde (Divisão de Promoção e Educação para a Saúde). Esta iniciativa, em curso (hoje e amanhã), foi desta vez organizada por um das empresas envolvidas, a Brisa - Auto-Estradas de Portugal, SA, e tem como tema o Álcool e o Trabalho

[Eis] alguns dos objectivos do seminário: a) promover a actualização de conhecimentos sobre o álcool, bebidas alcoólicas e problemas ligados ao álcool (abreviadamente, PLA); b) Reforçar a motivação para uma abordagem preventiva e integradas dos PLA no local de trabalho; c) Apresentar, discutir e analisar experiências portuguesas concretas de prevenção e controlo dos PLA centradas no local de trabalho; d) Fomentar a cooperação e a articulação entre profissionais, empresas e institituições na abordagem dos PLA, e no âmbito da orientação estratégica constante do Plano de Acção Contra o Alcoolismo, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros nº 166/2000, de 29/11/2000.

Posso acrescentar que em breve estará disponível, no site oficial da Direcção-Geral de Saúde, uma página dedicada ao Projecto Vida Activa Saudável no Local de Trabalho, projecto esse que já vai com dois anos de vida (...) [vd. 

(*) Terravista > Fóruns > Saúde > Saúde & Segurança no Trabalho

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Tema:   Vila Verde de Ficalho:  A Aldeia Sem Tabaco (2000-2002). Nº de ordem, Nome e Data. Mensagem (excertos) (*)
(1) Luís Graça,   22/10/2000 (**) e 16/11/2001(*)

Deixem-me registar aqui a minha singela homenagem aos habitantes de Vila Verde de Ficalho, na margem esquerda do Guadiana, na raia de Espanha, pelo orgulho que têm em se proclamarem como sendo a "Aldeia sem Tabaco" e por acreditarem que rir faz bem à saúde... Essa homenagem é extensiva a grandes profissionais de saúde, como o Dr. Edmundo de Sá, que dirige a extensão do Centro de Saúde de Serpa, em Vila Verde de Ficalho, e a sua pequena equipa, bem como o Prof. Dr. Mário Bernardo, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Poderíamos ainda citar a Junta de Freguesia de V. V. Ficalho e outras pessoas e instituições locais e regionais que se associam a iniciativas como esta na área da promoção da saúde, aparentemente tão insólitas... Entre outras actividades, é de referir a realização, no ano passado, do III Festival de Anedotas, que juntou cerca de três centenas de pessoas que acreditam que se pode e deve saber viver com saúde e com sentido de humor, hoje, aqui, em Portugal.

Ainda nos finais desse ano a "Aldeia Sem Tabaco" teve honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado por Júlia Pinheiro. Convidados: O Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (que é de Serpa, sede de concelho, e um públicio e notório fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores. Não se podia dizer então que o balanço de quase dois anos fosse espectacular em termos de números: se bem percebi, uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; é verdade que não sei qual é percentagem de fumadores (talvez uns 25% a 30% numa população residente que não deve ultrapassar os 2 mil e poucos); mas o mais importante está a ser o seu impacto ao nível dos adolescentes em idade escolar. É nesta idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas... Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (citou-se o mau exemplo da América), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente é presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco" são um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária. Estudar, apoiar, acarinhar e divulgar iniciativas como esta é um dever de todos aqueles que, como nós, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalham ou nas paredes das casas onde vivem o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ?

(2) Dr. Hipócrates,   21/11/2000 (**)

Neste ano da graça de 2000, é de algum modo insólito que uma terra como Vila Verde de Ficalho que mal vem no mapa, seja um exemplo vivo do que deve ser a saúde comunitária. Não conheço esta iniciativa local de saúde (ILS),  nem me lembro de ter passado por essa povoação raiana a caminho de Espanha. Quero, no entanto, felicitar os seus promotores. Devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendido pela boa aceitação local e até regional  que esta ILS (o programa Aldeia sem Tabaco, o Festival de Anedotas, etc.) está a ter (Fio-me no que ouço e leio...).  E tanto mais quanto no ano passado, se a memória me não falha, uma das nossas estações de televisão fez uma miserável reportagem desta ILS, reduzindo-a ao estatuto das anedotas e dos faits-divers, e tentando explorar as reacções (negativas)  de alguns elementos da população local (sobretudo homens idosos)  que fumavam e não faziam tenção de deixar de fumar, apesar do apreço e respeito pelo João Semana lá terra que, ao que parece, era  (e é) um dos grandes entusiastas da ideia.

Isto vem a propósito de duas ou três coisas que vos queria dizer hoje: primeiro, é bom que se denuncie a medicalização da saúde e se desmonte o mito da medicina-espectáculo,  que os jornalistas, além dos seus patrões e dos seus clientes (leitores, telespectadores, internautas, etc.)  tanto adoram; segundo, é altura dos portugueses fazerem algo mais pela sua saúde do que simplesmente reivindicar mais médicos, mais hospitais, mais TACs, mais dinheiro para dar à indústria famacêutica, mais votos para os partidos do poder, etc.; terceiro,  desconfio que o lobby das tabaqueiras apostou forte na campanha contra  o álcool como manobra de diversão para esquecer  não só os malefícios do tabaco como sobretudo os desaires do sector nos EUA e na União Europeia; quarto, é importante que se diga que tabaco, saúde e fundamentalismo não casam bem e que o humor pode ser um excelente aliado da promoção da saúde; e, por fim, é justo que a periferia da periferia comece também  a ter tempo de antena: só é pena que a Aldeia sem Tabaco  e outras ILS ainda não tenham o seu sítio na Net...Nem sequer um cantinho no site do Ministério da Saúde ou da Direcção-Geral de Saúde!.. Como profissional de saúde aplaudiria a ideia.

(3) Jota Lourenço,  21/11/2000 (**)

Ficalho não é uma terra qualquer, não senhor Dr. Hipócrates!.. Dizem que a primeira Condessa de Ficalho, uma dama da corte, foi amante de Camões (....). Mas agora que a terra deixou de ser berço de condes e condessas, e, sobretudo, com o 25 de Abril e, mais tarde, com o encerramento da fronteira, deixou de ser  poiso de guardas fiscais, pides e contrabandistas de café e de tabaco (conheço mais ou menos o sítio, uns  parentes meus eram de um concelho vizinho, na margem esquerda do Guadiana!), os ficalheiros tinham que inventar essa da Aldeia sem Tabaco. Sempre foram mais vaidosos do que os vizinhos, sempre puxaram para o finaço!...Por mim, não me aquece nem arrefece. A ideia até é boa. Só acho é que é um bocado pretensioso terem posto na tabuleta, à entrada da terra, Vila Verde de Ficalho, Aldeia sem Tabaco. Faz-me lembrar a campanha dos autarcas comunistas, a seguir ao 25 de Abril de 1974, com parangonas do tipo: Baleizão, terra livre de armas nucleares! Viu-se: passados uns anos, só nos faltou apanhar com Chernobyl no toutiço.

(4) Luís Graça,   21/12/2000 (**)

Há dias a Aldeia Sem Tabaco  (aqui tão injustamente  maltratada há umas semanas atrás pelo Jota Lourenço, alentejano do Barreiro) teve honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado por Júlia Pinheiro. Convidados: O Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (que é de Serpa, sede de concelho, e um inveterado fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores. Não se pode dizer que o balanço de quase dois anos seja espectacular em termos de números: se bem ouvi,   uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; é verdade que não sei qual é percentagem de fumadores (talvez 25% a 30% numa população residente que não deve ultrapassar os 2 mil e poucos); mas o mais importante está a ser  o seu impacto ao nível dos adolescentes em idade escolar. É nesta  idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas... Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (citou-se o mau exemplo da América), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente é presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco são um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária. Estudar, apoiar, acarinhar e divulgar iniciativas como esta é um dever de todos aqueles que, como nós, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalham ou  nas paredes das casas onde vivem o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ? Ainda se  lembra, Jota Lourenço, do poema do António Gedeão, cantado pelo Manuel Freire no final dos anos 60 ? Começava assim: "Eles não  sabem nem sonham / Que o sonho comanda a vida / E sempre que um homem sonha / O mundo pula e avança / Como bola colorida / Entre as mãos de uma criança" (...).

(5) Eurocéptico,   22/12/2000 (**)

A saúde do povo é quem mais ordena!... É bonito demais para ser verdade. Como eu já não sou da geração da utopia, comporto-me como um jovem cínico e egoísta que, quando acabar o seu curso de gestão, quer ganhar muito dinheiro, jogar na bolsa e ser tão rico como os tios patinhas cá da terra (o Belmiro, o Balsemão...).

Quando digo que é bonito demais para ser verdade, não me refiro ao caso de Vila Verde de Ficalho (que não conheço mas que acho giro). Estou a pensar na saúde pública, em geral. Pelo que tenho visto, ouvido ou lido, quem mais ordena neste caso são as multinacionais, as farmácias, os laboratórios de análises, os fornecedores dos hospitais  e todos os demais grupos de interesses instalados. Os médicos também estão na lista, mas seguramente não no topo. Eles apanham as migalhas,  outros ficam com a parte de leão.

(6) Jota Lourenço,  28/12/2000 (**)

Acusam-me de ser injusto para com o projecto da Aldeia Sem Tabaco. Mais do que isso: acusam-me de maltratar Vila Verde de Ficalho e os seus habitantes. Ora, não é nada disso: não nego as minhas raízes alentejanas, tenho muito orgulho em ser alentejano do Barreiro. Daí alegrar-me sempre que os alentejanos conseguem alcançar um estatuto ligeiramente superior ao da anedota estúpida e estafada do chaparro. Confesso que não vi o programa da SIC (...). Nem tenho mais pormenores sobre esta iniciativa que foi lançada pela equipa de saúde local. Agora dizer-se que  em Vila Verde de Ficalho a saúde do povo é quem mais ordena...bom, isso é que é uma autêntica anedota! Como é que se pode falar de saúde do povo, na margem esquerda do Guadiana (e no Alentejo em geral), quando o povo, coitado, não tem acesso a coisas tão elementares como um trabalho decente, sendo obrigado  a ir sazonalmente para a apanha do tomate ou dos morangos no outro lado da fronteira ?!... Utopia, sim, mistificação, não! (...)

(7) Eurocéptico,   4/1/2001 (**)

Por que é que vocês não exportam esse programa da aldeia sem tabaco para Barrancos ? Ao que parece lá também se fuma (e não só os enchidos no fumeiro)... Isto a avaliar pelo herói do dia e da terra, o Zé Maria, que em matéria de tabagismo (...) deu, juntamente com os outros companheiros do Big Brother,  um extraordinário exemplo aos portugueses, grandes e pequenos... O patrão do Big Brother  devia tê-los proibido de fumar, tudo para aumentar a adrenalina e atiçar a agressividade que se esconde em qualquer primata. Senhores da TVI e da Endemol: Foi uma oportunidade (histórica) perdida na cruzada contra os malefícios do tabaco! Por isso, em matéria de nomeações, proponho que Vila Verde de Ficalho seja [proclamada] a Big  aldeia do ano 2000!

(8) amm, 16/2/2002   

(...) A minha sócia é dessa zona, conhecendo ela própria a vila, tal como muitas das pessoas suas amigas, além disso ainda tenho um amigo que também é de lá perto, passei por lá 2 vezes, e tenho a ideia geral que se fuma tanto lá como noutro sítio qualquer. “Felizmente”, porque não concordo com iniciativas desse género.

(9) Eljump, 16/2/2002  

sim...fuma-se tanto em ficalho como em Vila Nova de São Bento, A do Pinto, Pias, Serpa, Safara ou mesmo em Jerez.

(10)   Luís Graça, 17/2/2002

Obrigado, amm, por ter gentilmente respondido à minha mensagem. Fico a saber que: (i) em Vila Verde de Ficalho não se nota a diferença, em relação a outras povoações vizinhas, no que diz respeito ao hábito de fumar; (ii) que o meu amigo é contra este género de iniciativas.

Tanto quanto eu sei não há nenhuma proibição de fumar em Vila Verde de Ficalho... Felizmente!... Tal não impede que naquela simpática terra haja pessoas que querem deixar de fumar, ou não fumam e querem ajudar os outros a deixar de fumar. É só isso.

(11)   Edmundo Sá, 18/2/2002

Já que falaram em mim, cá estou para responder. Sou um dos progenitores do Projecto "Ficalho- Aldeia Sem Tabaco".

E de facto há algumas diferenças entre Ficalho e as outras povoações vizinhas: Em primeiro lugar, e segundo os resultados de um questionário realizado a jovens entre os 12 e os 19 anos, fuma-se mais em Ficalho do que por exemplo em Vila Nova de S.Bento. E só por isso já o projecto está plenamente justificado. É que, como diria o meu amigo Professor Mário Bernardo, "não se prega a virtude num convento", e portanto se não houvesse fumadores, não era necessário projecto.


Em segundo lugar, não sei se seria possível implementar este mesmo projecto noutra povoação vizinha. As gentes de Ficalho tem qualquer coisa que de facto as torna únicas neste tipo de iniciativas. É que o Projecto Aldeia Sem Tabaco, não é um projecto do Centro de Saúde, mas em que o Centro de Saúde é um parceiro, a par da Junta de Freguesia, Escolas locais, Associações, comércio local. A própria comunidade reconhece a importância deste projecto para o futuro da sua juventude. Citando o Presidente do Conselho de Prevenção do Tabagismo, fazer a prevenção primária do tabagismo é fazer a prevenção colateral de outras toxicodependências como o álcool e drogas (de facto, ainda não vi nenhum toxicodependente de drogas leves ou pesadas que não tivesse começado pelo tabaco!!).
Não percebo por isso como é que se consegue estar de fora e ser contra este género de iniciativas.

(12)   rainbowman, 18/2/2002    

Só pra juntar os meus 5 cêntimos:

amm: não se trata de restringir as liberdades individuais de cada um, mas sim, apelando ao colectivo, de fazer com que a escolha livre de cada um vá tendencialmente recaindo no que é mais saudável, até que não sejam precisas mais iniciativas do género. Assim, o projecto é positivo.

Edmundo: ficar de fora é hoje uma opção válida, se atendermos ao histórico de boas idéias que caem em saco roto neste país de laxismo e impunidade. Confesso que eu próprio me estou nas tintas muitas vezes, optando por zelar pelo conforto dos que me são caros em detrimento do bem geral. De outro modo não há tempo para curar do que é realmente importante nas nossas curtas vidas. Assim compreendo o amm.

L.G.: Bem vista a coisa, fizeste algo genial - provaste que as nossas opiniões chegam onde quisermos que cheguem, e por vezes com resultados bem agradáveis.

(13)   Luís Graça, 18/2/2002  

 "Cêntimo a cêntimo vamos falando daquilo que é essencial..."   

Caro rainbowman, num país de espectadores e de treinadores de bancada, não podemos desprezar as ideias de ninguém e muito menos a participação efectiva e concreta nas iniciativas colectivas, sejam elas um programa de promoção da saúde na comunidade como é o caso de "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco", ou um simples e despretensioso fórum de discussão como este. A tua participação não se resume ao acto simbólico de juntar os teus cinco cêntimos. Foste capaz de dar um incentivo positivo àquelas pessoas, mais anónimas (a população) ou menos anónimas (como o Dr. Edmundo Sá, médico de família no Centro de Saúde de Vila Verde de Ficalho), que acreditam que o mundo só avança porque a gente o empurra... Não sou "ficalheiro" mas tenho lá amigos. Amigos que admiro e respeito por que, à distância de 300 km. de Lisboa, estão a fazer coisas, pequenas coisas, que ajudam a avançar o pequeno planeta em que vivemos... Porque a saúde não são só os médicos, a medicina-espectáculo, os hospitais, os medicamentos, os genéricos, os lóbis, as farmácias, as doenças, as listas de espera...É isso mas também é algo mais, e que geralmente não se vê: é o que todos nós fazemos (ou deixamos de fazer) com os outros e através dos outros para que a vida possa ser vivida com prazer e com liberdade, ou com menos sofrimento, e que o nosso pequeno mundo (desde a nossa casa ao nosso local de trabalho, passando pela nossa aldeia ou pelo nosso bairro) seja congruente com esse projecto de vida activa saudável que queremos para nós e para os outros... Vila Verde de Ficalho não ameaça ninguém nem acoita talibãs do fundamentalismo antitabágico. É apenas um sítio, algures no país profundo e desertificado, onde as pessoas, com o apoio das instituições comunitárias (o centro de saúde, a junta de freguesia, etc.), fazem pequenas coisas acontecer... 

(14)   Luís Graça,  18/2/2002    

 Pois é, Edmundo, você agora fica "obrigado" a vir cá mais vezes, de acordo com a sugestão do amm. Eu sei que o seu tempo é precioso e muito mais útil aí na margem esquerda do Guadiana do que no ciberespaço... Mas deixe-me que lhe diga (e nisto estou em sintonia com os outros participantes que lhe responderam): A sua intervenção, neste fórum da Cidadania, valeu por muitos discursos dos políticos da saúde e exemplifica algumas das potencialidades da Internet que a saúde pública não tem sabido aproveitar em Portugal...Mas quem somos nós!, limitamo-nos a pôr o pauzinho na engrenagem (falo por mim, obviamente, eu que estou na "guerra do ar condicionado")...

Aproveito para meter-lhe uma "cunha", como faz a avozinha da menina que aparece por aí num "outdoor" de propaganda eleitoral. No meu caso, as razões são nobres, sem deixarem de ter um pouco de egoísmo: Sabendo como os jovens ficalheiros gostam de curtir a Internet, porque não pô-los também a falar connosco sobre estas e outras coisas ? Dê lá uma palavrinha à senhora professora... É que temos muito a aprender com vocês...todos, ficalheiros, os que fumam, os que não fumam e os que deixaram de fumar!

Um ciberabraço para si e para o Prof. Mário Bernardo. Lembranças aos demais amigos comuns. 

(15)   Luís Graça,  18/2/2002  

  " Quando a saúde do povo é quem mais ordena..."

 

Citação. Publicado originalmente por Luís Graça: "O programa 'Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco"' é um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária. Estudar, apoiar, acarinhar e divulgar iniciativas como esta é um dever de todos aqueles que, como nós, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalham ou nas paredes das casas onde vivem o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ?".


Sim, é uma utopia... Teremos que aprender a viver paredes meias com os poderosos lóbis que vivem do negócio da saúde, aqui e em todo o globo. O problema maior é serem demasiado poderosos e omnipresentes... Vila Verde de Ficalho não faz parte nem da economia nem da geopolítica da saúde. Tanto quanto eu sei nem sequer reivindica uma farmaciazinha social... Em suma, nem sequer vem no mapa dos poderosos interesses organizados. Não faz mossa, não chateia ninguém. Inclusive deixou de ser a porta de Portugal para quem vinha da Espanha moura... Mas esta singela e quase anónima iniciativa ("a aldeia sem tabaco") pode ser como o fio de água que corre para a ribeira que corre para o rio que corre para o mar... Um dia talvez lá possamos escrever o tal grafito que hoje não temos lata nem coragem para escrever em parte nenhum... Simbolicamente falando, Ficalho é mais do que o nome de uma vila alentejana. 
(16)   Edmundo Sá 18/2/2002    

Há cerca de quinze dias estava eu como se diz "na mó de baixo" em relação ao projecto Ficalho-Aldeia Sem Tabaco. Talvez as metas que tracei para mim próprio tenham sido demasiado altas e às tantas pensei que talvez fosse mesmo possível atingir o clímax do projecto, isto é, a maioria dos fumadores deixarem de fumar. De facto no último mês, quem sabe se devido aos constipados e síndromes gripais que sempre são mais complicados nos fumadores, apareceram-me um número maior de fumadores pedindo ajuda para deixar de fumar. E talvez tenha sido isso que me deixou desanimado. É que eu não tenho nenhuma fórmula mágica escondida na manga do casaco para os fumadores que querem deixar de fumar: em primeiro lugar conto com a vontade deles; e em seguida confio no tal ambiente desfavorável ao tabagismo que tentei criar em Ficalho. Só que isso não tem tido resultados estrondosos como esperava.E muitos dos fumadores e fumadoras que me pedem ajuda não conseguem deixar de fumar. E assim estava eu a ficar na mó de baixo e a pensar que se calhar não valia a pena continuar com o projecto.

Eis que de repente (não sei se alguém se terá apercebido desse meu estado de espírito),  surgem na mesma semana, três acontecimentos que vêm trazer um novo alento ao Projecto: Em primeiro lugar tive uma reunião com o novo Executivo da Junta de Freguesia, saído das ultimas eleições, e obtive um voto de confiança no projecto e a promessa do empenho da Junta de Freguesia em colaborar com o aumento da adesão da população ao projecto (comerciantes? restaurantes?); Em segundo lugar tive uma chamada telefónica do Sr. António Alfaiate da RTP1 informando que estava a preparar um trabalho sobre o tabaco e as relações sociais e que portanto gostaria de conhecer melhor o projecto ( a propósito, estejam de olho atento aos próximos Jornais da Noite da RTP1); Finalmente o meu amigo L.G. convidou-me a olhar para este forum de discussão.

Coincidência ou não, mas foi importante a ajuda psicológica que recebi esta semana e só tenho a agradecer ao amm e ao rainbowman as palavras que me dirigiram.

(17)   Luís Graça 19/2/2002  

Pois é, isto chama-se suporte social, meu caro Dr. Edmundo... Não era nossa intenção, mas aconteceu e resultou... Olhando o seu (con)texto, deixe-me agora recordar-lhe muito sumariamente (e dar a conhecer aos membros deste fórum) os objectivos que foram publicitados pelo presidente da Junta da Freguesia local na sessão solene de proclamação da adesão de Vila Verde de Ficalho ao projecto "Aldeia Sem Tabaco" (13 de Março de 1999):

1)Aumentar a consciência individual e colectiva dos efeitos do tabagismo (activo e passivo); 2) Garantir o direito dos não fumadores de viver, conviver e trabalhar em sítios livres do fumo do tabaco; 3) Incentivar a criação de espaços livres do fumo de tabaco (por ex., serviços da administração pública, associações, restaurantes e cafés); 4)Aumentar para 90% a população não fumadora com mais de 10 anos de idade; 5) Desincentivar a venda de tabaco, em geral, e a menores de 18 anos, em particular (por ex., evitando a instalação de novas máquinas de venda automática); 6) Realização de acções de informação e educação para a saúde; 7) Reforçar a cooperação intersectorial, a nível da comunidade local, com vista a uma actuação concertada e eficiente no domínio da protecção e promoção da saúde; 8) Estabelecer contactos com vista à criação de uma rede nacional e europeia de aldeias sem tabaco...

Passaram-se três anos... Qual ou quais destes objectivos ficaram aquém das expectativas ? Eu não estaria tão céptico e desencantado como o Dr. Edmundo... Afinal, vocês, promotores da iniciativa, não estabeleceram um horizonte temporal, confortável e realista, onde se possam projectar e enquadrar estas metas. Além disso, só o primeiro objectivo está quantificado... Eu acho que no mínimo esse horizonte temporal tem de ser de cinco anos (1999-2004)... E está na altura de reformular os objectivos, de modo a que eles se tornem mais realistas, mais concretos, mais consensuais... Costuma-se dizer: "Se os teus objectivos não são exequíveis, quantificáveis, mensuráveis, susceptíveis de avaliação, monitorização, correcção e melhoria contínua, então esquece-os"... Precisamos de ter alguns indicadores (simples mas quantitativos) para podermos avaliar e publicitar os resultados, medir os progressos, introduzir correcções...

Além disso, a questão do tabaco não pode ser isolada do resto (por exemplo, condições de vida e de trabalho, satifação de necessidades básicas...), sob pena de caírmos na tentação do "blaming the victim" (acusar a vítima)... Seguramente é "mais fácil" a um jovem da classe média urbana (que anda a estudar em Lisboa e que vai aí passar férias) não ter começado a fumar aos 15 quinze anos do que a um filho de um trabalhador rural de Vila Verde de Ficalho que trabalha sazonalmente na vizinha Espanha... Os valores, o "capital social", o suporte social, o nível de informação, o nível de satisfação das necessidades, os padrões de consumo, o nível e a qualidade de vida, etc., tudo isso varia muito função do grupo social a que pertencemos...

Nas sociedades ditas pós-capitalistas deixar de fumar está "na moda" sobretudo entre os "colarinhos brancos e dourados", que se preocupam com a saúde, o bem-estar, a forma, o 'fitness', o corpo..., preocupações essas que não são propriamente a dos colarinhos azuis, os trabalhadores dos sectores produtivos e dos demais países onde o trabalho ainda é sinónimo, em muitos casos, de "suor, sangue e lágrimas"... Por outro lado, temos o problema das mulheres, que começaram a fumar tarde na Europa do Sul e que estão a estragar-nos as estatísticas... O Edmundo sabe isso tão bem como eu.

Em resumo, há aqui um problema (incontornável) que se chama falta de igualdade de oportunidades (ou equidade, muito simplesmente)... Por outro lado, não podemos "medicalizar" excessivamente esta questão, mesmo que seja importante a consulta de desabituação tabágica, a ajuda terapêutica, a sessão de educação para a saúde, o 'poster', etc. O problema não está apenas nas "técnicas" nem nos "media"... Nem os resultados se podem medir apenas pelos "casos de sucesso" (os que deixaram de fumar, os que conseguiram deixar de fumar...). Isto não pode ser visto através das lunetas e do livro de contabilidade do missionário: quantos é que eu converti hoje, quantos que é que me faltam converter...

Dito isto, folgo em vê-lo mais animado. E quando eu aí voltar, prometa-me que encontrarei de novo Ficalho "sempre verde", para citar os versinhos que o Prof.Políbio Serra e Silva (representante da Fundação Portuguesa de Cardiologia) fez para a ocasião:

"Pois sem o fumo que perde,
Apta para o trabalho,
Continuará sempre verde
Vila Verde de Ficalho"

Um abraço do Luís Graça

Post scriptum - A propósito dos versinhos, seria interessante divulgá-los todos (refiro-me às dez quadras)aos muitos cibernautas que por aqui passam... Não tem isso guardado no computador ? É só fazer "copy and paste"...

(18) Luís Graça, 22/2/02 

(...) lá não é proibido fumar... Há apenas uma tabuleta, à entrada da terra, que diz: "Vila Verde de Ficalho, Aldeia Sem Tabaco". E há há dias o médico do centro de saúde local confirmava: Fuma-se mais lá do que nas terras à volta... Não é um projecto proibicionista, é um projecto de promoção da saúde. Há aí uma grande diferença...

(19) Edmundo Sá, 26/2/02 

Todos um dia deixarão de fumar... Num dos debates promovidos em Ficalho sobre os malefícios do tabaco, apareceu um homem que, com o seu ar rebelde, gritou: "Qual Aldeia Sem Tabaco!, eu só deixarei de fumar quando dobrar a última amoreira preta".
Convém esclarecer que a "última amoreira de amoras pretas" é a que fica na saída de Ficalho, antes de se entrar no caminho que vai dar ao cemitério.


(20) R. Fonseca, 26/2/02

Deixarão de fumar...nem que seja quando estiverem ligados por tubos, por exemplo devido a um cancro na faringe ou no esófago... ou na garganta... ou quando morrerem, como dizia o velhote da amoreira preta, citado por Edmundo Sá...

Mas a questão do direito dos que não querem inalar ou ingerir o fumo e também não [querem ser] desagradáveis para os seus amigos que fumam, continua sem solução...

(21) Edmundo Sá, 27/2/02 

O que eu chamaria de um verdadeiro drama, o dos não fumadores: estarem incomodados pelo fumo dos amigos, mas para não serem desagradáveis são capazes de dizer com um sorriso aberto, "Claro que podes fumar!"...  A solução poderia passar por fazer ver aos não fumadores o quanto o seu fumo nos incomoda, mesmo quando, pelo prazer de estarmos a conviver com eles, suportamos o fumo que expelem.Mas será que eles entendem isso? Gostaria de ouvir a opinião de um fumador.

(22) José Paulo Wilson, 27/2/02

Caro Dr. Edmundo:

Aqui fica o testemunho de um  inveterado fumador (38 anos, fumo, regularmente, desde que entrei para o Liceu c/ 11, consciente de ser um forte candidato a um cancro do pulmão) de um maço de Português Suave por dia. Casado, com um antitabágica militante.

Há uns anos eu dir-lhe-ia que "quem está mal que se mude", mas - deve ser da idade!- actualmente a minha posição mudou de forma radical.

De facto eu não tenho o direito de obrigar terceiros a "gramarem" com o meu fumo. Há obviamente excepções, quando, por exemplo, há zonas de fumadores e de não fumadores.

O problema (drama?,  dependerá das pessoas em causa, digo eu), é que, analisando a situação numa perspectiva "instantânea", a razão parece estar do lado dos fumadores. Afinal ao não fumador não fará mal nenhum aturar o fumo de um ou dois cigarritos. Enquanto que o fumador vai ficando cada vez mais afectado pelos efeitos da "falta" do fumo.

Pois!, mas se aprofundarmos a análise ( e aqui talvez eu esteja a ser influenciado pela minha situação com a minha esposa) o não fumador vai tornar-se, inevitavelmente, num fumador passivo. Para tal basta um fumador no meio de um grupo de não fumadores. Donde, a longo prazo, a sequência de actos individuais "inofensivos", vai tornar-se no dia-a-dia do(s) não fumador(es).

Ou seja, queiramos ou não, nós fumadores estamos a prejudicar, tanto (ou quase) como a nós, os não fumadores.

De facto considero que não temos esse direito, mas não posso deixar de confessar que, se não for um não fumador a manifestar veementemente a sua oposição, mesmo assim me deixo levar muitas vezes pela confortável visão "instantânea" que atrás retratei, helás.

Poderíamos agora analisar as causas sociológicas de a situação que retrata ser o mais frequente na nossa sociedade. O que nos levaria à nossa tradicional tendência de acomodados, pouco conflituosos, deixa estar...blá, blá, blá. Mas isso ia transformar esta mensagem num testamento (...).


Finalmente, acho muito meritório e digno de incentivo o seu projecto de tornar, de forma não proibicionista, Ficalho uma terra livre de tabaco. Quem me dera a mim ter de novo 11 anos e viver em Vila Verde de Ficalho.

(23) Edmundo Sá, 27/2/02 

Se [o José Paulo Wilson] tivésse hoje onze anos e vivesse em Vila Verde de Ficalho, teria de facto muito menos probabilidades de vir a ser um fumador. Esta é a nossa grande aposta e é aí que esperamos ter frutos. Um estudo sobre a prevalência de fumadores entre jovens dos 12 aos 19 anos em Vila Verde de Ficalho, levado a cabo em 2001, revelou uma prevalência elevada de cerca de 30% de fumadores, mais elevada que em outros estudos feitos em Portugal, o que só por si justifica o projecto. Mas o que foi animador neste estudo é que, a partir de 1999, parece ter havido menos jovens a se iniciarem nos hábitos tabágicos que antes de 1999. Será fruto do projecto?

(24) Luís Graça, 5/3/02

Em louvor de Ficalho, dos Ficalheiros (dos mais aos menos ilustres) e da nossa saúde... Antes que este tema caia rapidamente no esquecimento, aqui ficam os famosos versos (em número de 10) sobre esta singela, pioneira e polémica iniciativa que é (ou foi) "Vila Verde de Ficalho, Aldeia Sem Tabaco". Os tais versos que o Dr. Edmundo Sá não me mandou mas que eu fui desencantar aos meus papéis... Os versos são da autoria do Prof. Dr. Políbio Serra e Silva, personalidade que representou a Fundação Portuguesa de Cardiologia na cerimónia realizada na Junta de Freguesia de Vila Verde de Ficalho, em 13 de Março de 1999. Para que conste, aqui ficando registados para a "petite histoire" da promoção da saúde em Portugal. L.G.
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Em Vila Verde de Ficalho

1
Para um ambiente novo
Eu, que poucochinho valho,
Vou recomendar ao Povo,
Em Vila Verde de Ficalho.

2
Substituindo o cigarro
Pelo azeite e pelo alho,
Deixará de haver pigarro
Em Vila Verde de Ficalho.

3
Trocando a fumigação
Pela sardinha e o rodovalho,
Não há cancro do pulmão
Em Vila Verde de Ficalho.

4
E, sem cancro do pulmão,
O ferreiro bate o malho
Pois não há poluição
Em Vila Verde de Ficalho.

5
E em sofrer do coração
O povo, junto ao borralho,
Tem boa circulação
Em Vila Verde de Ficalho.

6
Sem doenças das artérias
Estou certo que não falha
Acabarão as misérias
Em Vila Verde de Ficalho.

7
E serão verdes os montes
As árvores até ao galho
E pura a água das fontes
Em Vila Verde de Ficalho


8
Toda a gente salta o muro
Vindo por estrada ou atalho
Para respirar ar puro
Em Vila Verde de Ficalho.

9
E então sem poluição
Ficará como um retalho
Na História da Prevenção
Em Vila Verde de Ficalho.

10
Pois sem o fumo que perde,
Apta para o trabalho,
Continuará sempre verde
Vila Verde de Ficalho.

Políbio Serra e Silva
(a 13 de Março de 1999, data da proclamação de Vila Verde de Ficalho – Aldeia Sem Tabaco)

(25) Luís Graça, 5/3/02

Antes o "cancro do pulmão" que o "campo de concentração"...

Citação. Publicado originalmente por Isabel Coutinho:
"Nós não queremos fazer mal a ninguém! Não nos tratem como 'feios, porcos e maus'. Dêem-nos, ao menos, uma pocilga, um gueto, um campo de concentração, uma estrela amarela para por ao peito, mas ... não nos impeçam de fazer aquilo que não conseguimos deixar de fazer (...).

PS: Cuidado L.G.: Começou bem, mas já está a preconizar, para Vila Verde, medidas proibicionistas

Proibicionista, eu ? Você não me conhece, Isabel... Não defendi em parte nenhuma, nestes fóruns (aqui ou no "Ataque terrorista"), qualquer solução de tipo totalitário para o problema do tabagismo... O "fascismo sanitário", como diz a Isabel, é absolutamente inaceitável embora possa haver pontualmente, na moderna saúde pública, pessoas que são tentadas pelo discurso totalitário... Ao longo da história, temos assistido a muitos cenários do terror impostos a doentes e a sãos em nome do "superior interesse" da saúde pública: a actuação das autoridades de saúde em tempos de peste ("de que Deus nos livre!") ou a segregação dos leprosos (nas gafarias) e dos tuberculosos (nos sanatórios)... Mais recentemente, a discri,minação dos seropositivos (na escola, no emprego, etc.)...

O tabagismo é uma doença ? Para a OMS não há hoje qualquer dúvida... Mas onde começa e onde acaba a fronteira entre a doença e a saúde, entre o normal e o patológico, entre o patogénico e o salutogénico ?.... Reconheço que quando a saúde (o sistema, as politicas, os serviços, os profissionais, o Estado...) impõe de maneira coerciva padrões de comportamento, então estamos a pisar os terrenos movediços do "fascimso sanitário"...

Mas esta questão não é tão simples quanto isso: a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança na condução automóvel viola a minha liberdadade individual, mas é reconhecidamente uma das medidas técnicas e legais que mais contribuiram, nos países desenvolvidos, para a drástica redução dos acidentes rodoviários... Outro exemplo: é legítimo eu submeter-me a testes de despistagem do consumo de "drogas ilícitas" para conseguir um emprego ? Nos EUA, que são os "campeões da liberdade individual", houve ferozes debates nos anos 80 (e que continuam ainda hoje) sobre o "drug screening" no local de trabalho... Foram introduzidos durante a administração de Regan aproveitando o clima (favorável) de "guerra contra a droga"... Não me admiraria que amanhã o tabagismo se torne um motivo de despedimento na terra do Tio Sam, a persistir a actual tendência (perigosa) para o discurso musculado em todas as frentes (...).

Fiquemos por aqui hoje... e deixemos, a quem fuma, fumar o seu cigarrinho tranquilo. Antes o cigarro que o pesadelo do fascismo (de que Deus nos livre!), antes o "cancro do pulmão" que o "campo de concentração"...

(26) Luís Graça, 12/4/02

 

Citação. Publicado originalmente por jose270747:
Reflexões sobre o tabaco e quem o fuma: Se eu soubesse que não morria, nunca deixava já de fumar (...); Porque o meu avô fumou, hoje estou menos predisposto aos malefícios do tabaco; Se eu fosse rico só fumava charutos; Se eu tivesse dois corações fumava a dobrar (...); Quem morre por conta própria, morre sempre com razão (...); Quem fuma tem cem anos de perdão.



Segundo o recente e notável relatório do Director-Geral e Alto-Comissário da Saúde ("Ganhos de saúde em Portugal: Ponto da situação", 
[url] http://www.dgsaude.pt/relat_dgs_2002.pdf)[/url], “o consumo de tabaco é a principal causa evitável de morbilidade e mortalidade, sendo responsável por cerca de 20% da mortalidade total” (sic).

Há, por outro lado, uma crescente consciência dos efeitos negativos do fumo passivo em casa e no local de trabalho, sendo hoje “o principal poluente evitável do ar interior” (sic).

Sabe-se, por fim, que a desabituação tabágica, “em especial se ocorrer antes da meia-idade, contribui para uma redução do risco de doença atribuível ao consumo de tabaco, que atinge, passados 10 a 15 anos de abstinência, valores semelhantes aos dos não-fumadores”. Esta poderá ser uma boa notícia para aqueles que querem deixar de fumar e ainda estão em boa idade para o fazer...

De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde de 1998/99, 19.2% da população com 10 ou mais anos de idade é actualmente fumadora: 16.9% fuma diariamente e 2.3% fuma ocasionalmente.

No número dos não-fumadores actuais (80.8%) encontram-se 12.6% de ex-fumadores. Apenas 68.2% (pouco mais de 2/3 do total) nunca fumaram na vida.

É nos grupos etários mais jovens que há uma maior proporção de fumadores actuais (por exemplo, 37% no grupo dos 25 aos 34 anos). Em contrapartida é nos grupos mais idosos que se regista um maior número de ex-fumadores.

Mais concretamente, cerca de 43% dos fumadores actuais pertence ao grupo etário dos 15 aos 34 anos, enquanto que a maior proporção dos não-fumadores situa-se no grupo dos mais idosos (55 ou mais anos) (41%). Da população que nunca fumou (68.2%), apenas 36% tem menos de 35 anos, contrariamente aos ex-fumadores (12.6%) cuja grande maioria (86%) tem 35 ou mais anos.

Na população portuguesa com 10 ou mais anos de idade, 30.5% dos homens fumam (contra apenas 8.9% das mulheres). Cerca de 22% dos homens são ex-fumadores e menos de 48% nunca fumaram. No caso das mulheres, a proporção das que nunca fumaram é muito maior (87%) do que a média na população (68%)

Os fumadores portugueses consomem, em média, um maço de cigarros por dia (média=19.3; desvio-padrão=11.5). Há diferenças estatisticamente muito significativas no padrão de consumo masculino (20.7) e feminino (14.5) (p <.001).

Por outro lado, é aos 17.4 anos, em média que se começa a fumar (d.p.=5.1), um ano e picos mais cedo no caso dos rapazes (17.1) (d.p.=4.9) em relação às raparigas (18.3) (d.p.=5.4) (As diferenças também são estatisticamente muito significativas: p <.001).

Quanto aos ex-fumadores, é aos 39 anos, em média, que deixam de fumar (d.p=15.3), os homens neste caso muito mais tarde (41.0) (d.p.=15.2) do que as mulheres (29.5) (d.p.=11.7) (p <.001).

O grupo profissional em que há maior proporção de fumadores actuais é o dos Técnicos e profissionais de nível intermédio (34.2%). Em contrapartida, os Agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura e pescas são os que registam a proporção mais baixa (14.9%). Por seu turno, é nas Profissões científicas e técnicas que se verifica a maior proporção de ex-fumadores (19.8%) (Fonte: Portugal, INSA- Instituto Nacional de Saúde, Inquérito Nacional de Saúde 1998/99).

Segundo o supracitado relatório do Director-Geral da Saúde e Alto Comissário da Saúde, nos últimos anos, de um modo geral, “o consumo de tabaco em Portugal tem vindo a diminuir” e Portugal continua a ser, felizmente (não temos só coisas más...), “o país da EU com menor prevalência de fumadores”. Em 2001 houve, inclusive, “pela primeira vez em muitos anos”, uma redução do número de cigarros vendidos entre nós.

Todavia, aponta-se como facto preocupante a tendência para continuar a aumentar o tabagismo nas mulheres: “Em 1987, 5% das mulheres com mais de 15 anos referiram fumar diariamente. Este valor subiu para 6.5% em 1996 e 7.9% em 1999”.

Entre os homens parece registar-se alguma diminuição do consumo, “à excepção do grupo etário dos 35-44 anos” (Portugal. Ministério da Saúde. Direcção-Geral de Saúde: Ganhos de saúde em Portugal: Ponto da situação. Lisboa: Direcção-Geral de Saúde, 2002).

Aqui ficam alguns dados, nus e crus, para a gente poder "tabaquear o caso"... Boa saúde, bom trabalho. Cibersaudações.
 

(27) Luís Graça, 18/4/02

Citação. Publicado originalmente por Isabel Coutinho:
"... e ele a dar-lhe!"

Parece haver aqui um problema de dissonância cognitiva e não propriamente de encarniçamento terapêutico, caríssima Isabel... Eu acho, em todo o caso, que todos os cibercidadãos têm, pelo menos, o direito à informação e ao conhecimento, incluindo os resultados do Inquérito Nacional de Saúde que custa uma pipa de massa aos contribuintes. É um problema de equidade ou de igualdade de oportunidades... Eu limitei-me avançar com alguns dados sobre o consumo de tabaco. Você comentou. Outros provavelmente não ligaram... Cada um fará o que bem entender às "estatísticas da saúde"... Com humor, com apreço e com afecto. .

 
(28) Luís Graça, 17/5/02

Já há muito que não "tabaqueamos o caso", o de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco"... Isto é apenas um pretexto para não deixar morrer o nosso tema de discussão. Não quero com isto, de modo algum, voltar a acicatar os ânimos dos que fumam contra os que não fumam ou vice versa. Limito-me a deixar aqui informação útil. Para todos: (i) Para aqueles que fumam e querem deixar de fumar, (ii) para aqueles que nunca fumaram e que um dia destes são capazes de começar a fumar; ou (iii) para aqueles que deixaram de fumar e que às vezes ainda sentem a vontade de fumar um cigarrinho...

Refiro-me à linha telefónica de Informação, Aconselhamento e Apoio SOS – DEIXAR DE FUMAR – 808 20 88 88. Está a ter sucesso e é mantida pelo Instituto Macional de Cardiologia Preventiva Prof. Fernando Pádua (INCP). O preço é apenas o de uma chamada local.

Aqui fica o endereço da respectiva página na Web: http://www.incp.pt. Vale a pena uma visita. Se tiverem algum framiliar, amigo ou conhecido que precise de ajuda para deixar de fumar, não hesitem, telefonem. Há uma voz amiga, um psicólogo ou uma psicóloga, que vos atenderá com muita simpatia, compreensão e competência. Também podem "mailar" para: sosdeixardefumar@incp.pt

Deixo-nos aqui com um pequeno texto sobre esta iniciativa, promovida pelo INCP, e que se insere no âmbito da campanha internacional "Quit & Win 2002" (Páre e Ganhe a Dobrar, em português). Cibersaudações. L. G.

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O Tabagismo


O tabagismo é considerado pela OMS como a principal causa de doença e morte evitável no mundo ocidental. Estima-se que 25 a 30% de todos os tipos de cancro nos países desenvolvidos estão relacionados com o tabagismo. Cerca de 90% dos cancros de pulmão e entre 80 e 90% dos cancros na boca, laringe e esófago são causados pelo consumo de tabaco. É também reconhecida a associação entre o tabagismo e as doenças cardiovasculares e respiratórias. Estas consequências podem ser evitadas, retardadas ou ter efeitos menos graves se as pessoas não fumarem ou deixarem de fumar.

Estes dados sugerem a necessidade e a relevância da prevenção primária e secundária do tabagismo para a promoção da saúde e para a prevenção do cancro, das doenças cardiovasculares e das doenças respiratórias.


A Dependência Tabágica

Cerca de 90% dos fumadores fumam todos os dias, podendo ser considerados dependentes do tabaco. Devido à forte potência aditiva da nicotina, a desabituação tabágica é muito difícil.

Cerca de um terço dos fumadores realiza uma tentativa séria por ano para deixar de fumar, 90% destas tentativas não são apoiadas por profissionais.

Apenas 5% do total de fumadores conseguem efectivamente parar. De um grupo de pessoas que tentaram deixar de fumar por sua iniciativa, apenas um terço mantém a abstinência dois dias depois e apenas 5% conseguem manter a abstinência passado um ano.

As linhas telefónicas de ajuda e o aconselhamento individual e/ou em grupo são estratégias eficazes no tratamento da dependência tabágica;



A campanha "Quit & Win" e a linha telefónica SOS-Deixar de Fumar 808 20 88 88


O “Quit & Win” [ Páre e Ganhe a Dobrar] é uma campanha com o fim de sensibilizar a opinião pública em geral para o problema do tabagismo e para a gravidade das suas consequências, apelando aos fumadores para deixarem de fumar, convidando-os a não fumar durante o mês de Maio.

Todos os fumadores com mais de 18 anos podem concorrer, mediante boletim de inscrição, ficando desde logo habilitados a diversos prémios.

Com o objectivo de apoiar esta campanha, foi lançada a Linha “SOS-Deixar de Fumar”. Serve para informar o público em geral sobre o tabagismo e as suas consequências e para aconselhar e apoiar os fumadores que querem deixar de fumar. Pode também ser utilizada por familiares, amigos e colegas de fumadores.

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Fonte: http://www.incp.pt

 (29) Isabel Coutinho, 2/7/2002

  Caro Luís Graça,

Li o seu 'post' e não resisto a contar-lhe uma história que me foi contada por um padre velhinho, que era uma santa pessoa e hoje já não está cá para a contar.

Passava-se precisamente no Vaticano, durante os trabalhos do Concílio Vaticano II, no Pontificado de João XXIII,  de saudosa memória.

Um Franciscano encontra-se com um Jesuíta e resolve desabafar com ele um problema que o traz muito aflito. Sendo um fumador inveterado, tinha ido perguntar ao Papa se era lícito fumar durante a meditação das Escrituras. E o Papa tinha-lhe respondido: “Não, meu filho. Durante a meditação tens que te concentrar exclusivamente nas Escrituras, e em mais nada”.
- Ora – dizia o pobre Franciscano para o Jesuíta – sem fumar, como é que me hei de conseguir concentrar ?
O Jesuíta, que também era fumador, ficou de pensar no problema.
No dia seguinte voltaram a encontrar-se os dois e o Jesuíta, com um grande sorriso, anunciou ao Franciscano que pronto, já não havia mais problemas de incompatibilidade entre a meditação e o cigarrinho.
- Como ? – espantou-se o Franciscano – pois se foi Sua Santidade mesmo …
- Pois é – retorquiu o Jesuíta com aquele sorriso “jesuíta” que só um Jesuíta sabe fazer – também eu fui ter com Sua Santidade. E perguntei-lhe se, quando me encontrava a fumar, e me vinha à mente determinada passassem da Sagrada Escritura, me era lícito meditar sobre ela. “Claro que sim, meu filho”, foi a resposta do Papa !

Como vê, L.G., tudo depende da forma como se põe o problema …

(30) Luís Graça, 2/7/2002

[Isabel],  adorei a sua jesuítica anedota sobre o imbróglio teológico: “Cigarro e meditação, sim ou não ?” Agora entendo a razão por que se diz dos jesuítas que eles foram a “inteligentzia” da Contra-Reforma…. Concordo consigo: Nestes nossos fóruns de discussão, a diferença muitas vezes não está na resposta, mas sim na pergunta… De respostas está o inferno cheio. Sobretudo de más respostas… Entretanto, e para manter a nossa conversa no alto nível de santidade para a qual felizmente ela derivou, deixe-me contar-lhe também uma anedota, em anexo. Provavelmente você já a conhece, pelo menos mete alguns figurões nossos conhecidos; em qualquer dos casos, humor com humor se paga. Seu admirador, mesmo quando em desacordo.

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Churchil, Truman, De Gaulle e Estaline, os quatro grandes vencedores da II Guerra Mundial, encontram-se à porta do Céu, depois da sua histórica passagem pela Terra. Por sugestão do São Pedro e por deferência para com tão ilustres representantes do Planeta Azul, Deus desceu do trono e foi recebê-los pessoalmente. Quis O Todo Poderoso logo ali fazer-lhes um teste de selecção, pedindo-lhes que formulassem um desejo. Estaline, em jogada de antecipação, e de punho erguido, gritou:
- Que os americanos se danem e vão parar ao inferno, Camarada!
Truman aceitou o repto e respondeu-lhe num ápice:
- Oh My God, fazei com que a Rússia soviética seja posta a ferro e fogo!
De Gaulle, em posição de sentido, formulou expressamente o desejo de entrar no céu e gritar “Vive la France!”:
- Mon bon Dieu de France, dai-me esse privilégio ! Só pelo prazer de ouvir o eco da minha própria voz a atravessar o Atlântico e fazer tremer os vidros da Casa Branca.
- E Vossa Excelência, Sir Winston Churchil, perguntou o Criador ?
- Oh My Lord, eu só quero um charuto… Mas pode servir primeiro esses senhores, que eu não tenho pressa.

PS – Comentários ?

(1) A vingança serve-se fria,
O último a rir é o que ri melhor

(2) Deus protege os fumadores:
Se Ele quisesse que a gente não fumasse,
Não nos tinha dado pulmões, nariz e boca…

(3) Deus não desce do Olimpo
Para tabaquear o caso connosco…

(4) “Smoke, don’t make war”

(5) Não peçam muito, peçam bem

(6) Usem, mas não abusem…

(7) Cuida-te em terra, avia-te no céu

(8) Deus faz-nos sempre a última vontade

(9) Fumar não é pecado: Não está escrito nos dez mandamentos

(10) Letreiro à porta do cemitério: Campo da Igualdade

(31) Luís Graça, 14/11/2002

 

Publicado originalmente por Luís Graça
Perguntei há dias pelo Dr. Edmundo de Sá. Continua vivo e de boa saúde, lá por VVF. É pena que ele não nos faça uma cibervisita.

 
Anteontem recebi um teleconvite, por parte do Dr. Edmundo, para estar no próximo sábado à noite em Vila Verde de Ficalho e integrar o selecto júri do já tradicional Festival das Anedotas "Rir Faz Bem à Saúde". É pena eu não poder ir desta vez, devido a afazeres profissionais e compromissos familiares. Mas daqui saúdo a gente boa de Ficalho e o seu médico de família para quem a medicina é muito mais do que uma profissão.

Deixem-me também dizer que, à conta do tabaquinho, Vila Verde de Ficalho não entrou para o "Guiness Book" mas acabou por ganhar mais alguma notoriedade...pelo menos no ciberespaço. Se quiserem comprová-lo, basta pesquisar no Google.com: o nosso sítio (ou melhor o nosso tema de discussão), já com mais de 9100 visitas, aparece em primeiro lugar no "ranking" dos sítios mais visitados, contendo referências àquela vila do Alentejo profundo... Fraca consolação, acrescento eu, para uma terra
que, apesar de tudo, continua a lutar contra a desertificação, o abandomo, o esquecimento, a pobreza... 

 

(32) Megane, 24/11/2002

 

Hipocrisia

Ninguém está só neste debate. Eu, por exemplo, em noites de insónia, como a de hoje, tenho-me divertido imenso com este fórum. Parece uma "conversa de solteiros e casados". Há cá de tudo.
O que me fez escrever hoje foi a I[sabel] C[outinho] falar do Vaticano. Claro que é verdade. Nesse País, enfiado no meio de Roma, agora não se pode fumar. Imagine que nem na rua. Isso também é proibido. Mas até aqui tudo bem. Cada terra com seu uso... Mas não é proibida a venda do terrorista Tabaco, nas poucas lojas que lá existem. Para não ter de ir lá (apanhar um avião, onde já ninguém pode fumar, medida estúpida, coersiva e prepotente,"modismos") eu explico-lhe. Estive lá há pouco tempo, ou por outra, estive em Roma há pouco tempo, e por mera curiosidade, dei um pulinho ao Vaticano. Numa lojeca cheia de santos também se vendia Tabaco. Espantada perguntei: Então como é? É proibido fumar, mesmo na rua, e vendem tabaco? Resposta: Vender e comprar pode, porque dá lucro ao Vaticano, só não pode ser consumido aqui.
Malandros !!!!!!!!!!!!
Só em noites de insónia
 
 

(33) Luís Graça, 25/11/2002


Publicado originalmente por Megane
O Vaticano é, de facto, o único "país" onde é proibido fumar. Até nas ruas é proibido. No entanto, pode-se comprar lá o tal pecaminoso tabaco, e do bom. Porque, na lojeca, por entre santos e fotos de Papas o tabaco existe. Perguntei, já que era proibido, porque o vendiam. Resposta: Porque dá lucro ao Vaticano.  

Megane, para quê falares da hipocrisia do Vaticano esquecendo a das autoridades portuguesas ? Em Portugal não é proibido fumar, só é proibido fumar em determinados lugares (públicos). Também é proibida a publicidade ao tabaco, desde 1983 (segundo creio). Cerca de 1 em cada 3 português, com 10 ou mais anos de idade fuma. Mas mesmo assim ainda somos o país da União Europeia com a mais baixa taxa de fumadores. Infelizmente, o tabaco mata, aqui e em todo o lado. Hoje, em Portugal, é responsável por cerca de 11 mil mortes anuais, ou seja, cerca de 10% do total da mortalidade. Sete vezes mais do que os acidentes nas estradas! Por acaso as pessoas sabem disto? Não sabem. A "peste azul" toma, curiosamente o lugar que tinha até à II Guerra Mundial a tuberculose: na década de 1930 esta era também responsável por 10% de todas as mortes anuais em Portugal.

Entretanto, o Estado português tenciona arrecadar, no próximo ano, 1175,3 milhões de euros com o imposto de tabaco! Qualquer coisa como 235 milhões de contos!... É o que se pode ler na proposta de orçamento para 2003. E até se prevê um crescimento de 0,3% no consumo e aumento da receita em mais de 5% (vd. http://www.dgep.pt). Com este dinheiro (que equivale a 20% do orçamento do Ministério da Saúde!) vai-se depois pagar os tratamentos oncológicos e os outros cuidados médico-hospitalares... Mas isto não é dito aos portugueses, olhos nos olhos... Diz o Governo, em letras pequenas, nos maços de cigarros que "o tabaco mata", mas não temos a coragem (política) de publicitar estes números: 11 mil mortos por ano devido ao tabagismo contra 235 milhões de contos de imposto sobre o tabaco!... Feitas as contas, o Estado português "cobra" mais de 20 mil contos por cada vítima mortal do tabagismo!...

(34) Luís Graça, 29/11/2002

  

Empresas com programas de apoio aos colaboradores que querem deixcar de fumar

 Publicado originalmente por Luís Graça
(..) ando à procura de empresas e outras organizações em que haja programas de apoio (médico, terapêutico, psicossocial, etc.), aos colaboradores que querem deixar de fumar (ou que deixaram de fumar). Se conhecerem algum caso concreto, que possa ser divulgado (...) 

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"Quer um cigarro ? Não, obrigado... A IBM proibiu o fumo na empresa. Ao mesmo tempo criou um programa para quem quisesse deixar de fumar. Resultou"... Reportagem de Maria João Lima, revista "Exame", 27/11/02.

Em Setembro de 2001, a IBM portuguesa tirou os cinzeiros dos gabinetes de trabalho... Há apenas uma única sala para os fumadores. Ao mesmo tempo criou um programa de apoio para quem quisesse deixar o tabaco... Na altura, a empresa tinha cerca de 550 funcionários. Dez aderiram ao programa, oito conseguiram até agora deixar o tabaco... Hoje em todas as instalações da IBM Europa é proibido fumar. Orientações da casa-mãe. Estará o fundamentalismo norte-americano a chegar à Europa ?

 

(35) Jota Lourenço, 1/12/2002

  

Empresas com programas de apoio aos colaboradores que querem deixar de fumar

 

Citação. Publicado originalmente por Isabel Coutinho
Num mundo que se pretende "livre", eu sofro de falta de liberdade ! Cumprimentos aos carcereiros


Já estive para desistir destas minhas tolas incursões por este ciberespaço (é assim que se diz, não?). Mas depois reconsidero. Sempre que me der ganas e tiver o computador livre no meu clube recreativo, desportivo, cultural, fadista, excursionista e jantarista, venho aqui matar saudades. Sempre que não tiver parceiros para jogar à lerpa. Ou tiver insónias. Ou houver ensaios do grupo de teatro e alguém tem que fechar a porta do clube. Ou houver uma greve geral, como a dia do próximo 10, que eu apoio. Sempre apoiei todas as greves gerais. É a costela do meu avô ganhão, anarcossindicalista. Enquanto aí os gajos aí do Público me deixarem e for de borla, eu vou aparecendo. Para matar saudades.

E que saudades! Por exemplo, da Isabel a quem tiro uma chapelada, apesar de não a conhecer pessoalmente. Ora aqui está uma mulher da estirpe da padeira de Aljubarrota. Um mulher que diz: “Num mundo que se pretende "livre", eu sofro de falta de liberdade !”. E que para mais, acrescenta: "Cumprimentos aos carcereiros!".

É isso, Isabel, há por toda a parte um enorme cerco às liberdades. É bom que se diga alto e bom som: nas empresas, nos media, no país, no globo, nos desgovernos, na ganância dos especuladores bolsistas….Este mundo está cheio de verdugos e carcereiros. E os da IBM até serão dos mais subtis. O mundo das empresas está a ficar asfixiante. A IBM era um gigante, dizem que ainda é. Mas nas empresas da IBM global há gente que tem medo de fumar à frente do “big brother”. Há um “big brother” que zela por ti, pelo teu bem-estar, pela tua saúde, pela gestão do teu corpo, da cabeça aos pés. Que te manda ao médico para ver o alcatrão nos pulmões. E que te proíbe de fumar, no tempo e no espaço do patrão. É isso que me assusta, camaradas. Mesmo reformado, mesmo inútil, mesmo à distância, eu cheiro, eu sinto esse sufoco que por ai vai. É como a maré negra que mata o nosso mar. Eu, a Isabel, os cotas, nós temos um sexto sentido que falta a essa rapaziada das novas tecnologias que por aí pulula nos fóruns. Chamem-lhe a patine do tempo, a experiência vivida, a visão do camaleão. O que quiserem. No meu caso, é sobretudo o cú calejado como o do macaco. Até te querem embrulhar, irmão, com um código do trabalho, com 700 artigos e resmas de pareceres de senhores professores ilustres que escalpelizam o artigo, o número, o parágrafo, o ponto e a vírgula. Embrulhado em papel da imprensa nacional barra casa da moeda, onde eu cheguei a trabalhar como aprendiz, como pau para toda a obra, no tempo da velha senhora. Tudo para teu bem, o teu sucesso, a tua felicidade.

Tudo para dizer que, por um lado, a vida não está nada fácil para quem anda a ganhar o pão de cada dia. Nunca esteve, no tempo da outra senhora ou desta. Nunca estará. Por outro lado, eu queria manifestar a minha posição de eterno protestante ou contestatário: Eu que já não fumo por proibição do meu médico, apetecia-me ir a porta da IBM puxar umas fumaças. Por pirraça, mas também por solidariedade. Só estranho que, em quinhentos manguelas, só dez é que aproveitaram a boleia da empresa e meteram-se a fazer a tortura da desintoxicação. E então os outros cento e cinquenta fumantes ou mais ? Gostava de saber como acabou essa história mal contada da IBM. Mas, enfim, que posso eu dizer mais ? Por pirraça e por solidariedade, desci ontem à rua. Fez-me bem berrar contra o sufoco que eu sinto no ar e que aí vem como a maré negra. Boa noite, Isabel, boa noite, camaradas!

(36) Luís Graça, 8/12/2002

 O tabaco e a "Big Sister"

Na sua coluna de opinião, na última edição do "Expresso", de 7 de Dezembro último, escreve Ferreira do Amaral (o Joaquim) o seguinte, a respeito da anunciada directiva do Conselho Europeu sobre a proibição da publicidade ao tabaco:

"Por mim, em princípio, estou de acordo. Em Portugal essa proibição (não sei se exactamente nos mesmos termos da directiva) já existe (...). Estou de acordo, mas atento. Este tipo de proibições contém em si mesmo um gérmen perigoso de totalitarismo. (...) No caso do tabaco, pela sua clareza (e pela questão de ser incontroversamente viciante), a proibição é aceitável. Mas receio bem que à sombra dos mesmos princípios a União me esteja a conduzir para que eu viva, não como eu quero e tenho o direito de escolher, mas exactamente como a Direcção-Geral do Cidadão Correcto (que ainda não existe, mas que prontamente será criada) entende que eu devo viver. Partirá do princípio, muito tentador para quem quer mandar, de que eu próprio não sou competente para decidir o que é melhor para mim.

"Agora é o tabaco. (...) A andar por este caminho, não tardará a que as coisas passem da proibição da publicidade (método demasiado indirecto) à proibição da actividade de produção e comercialização. Talvez os meus netos ainda possam ler na primeira página dos jornais notícias sensacionais sobre o desmantelamento de uma perigosa rede clandestina de manufactura e distribuição de cozido à portuguesa".

... A questão de fundo é a "questão do poder" e o risco de a União Europeia se tornar a nossa "Big Sister". Em nome dos "superiores interesses da saúde públcia", em nome da "ciência", em nome de todos nós, pequenos irmãos e pequenas irmãs... Uma questão saudavelmente provocatória, e simultaneamente inquietante, que merece ser trazida para este tema de discussão.

(37) Edmundo Sá, 31/12/2002

 Notícias da Aldeia Sem Tabaco

 
Caros amigos:

Depois de uma longa ausência ( diga-se de passagem que não sou um grande cibernauta) venho agradecer-vos antes de mais por manterem esta página, e desejar-vos a continuação de boas festas e um ano novo muito bom (sem tabaco,  de preferência). Decorreu no passado dia 16 de Novembro mais um Festival de Anedotas (o quinto),  nada mais que um bom pretexto para assinalar o Dia Nacional do Não Fumador e chamar a atenção que há outras formas de combater o stresse, que não o tabaco. A população aderiu em peso e ouviram-se testemunhos extraordinários de muitos ex-fumadores que ao longo de três anos de projecto têm deixado de fumar (...)

(*) Fóruns do Publico.pt > Cidadania - Vila Verde de Ficalho, a 'aldeia sem tabaco'

(**) Terravista > Fóruns > Saúde > Saúde & Segurança no Trabalho

 

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Última actualização: 9 de Fevereiro  de 2005 / Last update: Fevereiro 9,   2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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