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História da Saúde e do Trabalho / Health and Labour History (2) |
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2. Graça, L. (2000) - Evolução do Sistema Hospitalar: uma Perspectiva Sociológica (a) |
Português /
Portuguese
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Neste conjunto de artigos sobre a história da saúde, das profissões de saúde e das organizações de saúde (com particular destaque para o hospital), interessa-nos basicamente compreender:
E mais especificamente:
Para poder responder a estas questões relevantes para os utentes de saúde, os investigadores, os decisores, os administradores, os políticos e os profissionais de saúde, importa conhecer a evolução histórica dos serviços de saúde, nomeadamente a partir do desenvolvimento do hospital cristão medieval e de outras instituições assistenciais ou similares. Apesar da sua autonomia relativa e da sua especificidade como organização, o hospital pode (e deve) ser visto da perspectiva da sociologia histórica. No essencial trata-se de saber quais foram os factores e quais foram os actores sociais que determinaram as mudanças estruturais do hospital ?
Por outro lado, procura-se saber qual foi (ou tem sido) o lugar e as funções do sistema de saúde, em geral, e do hospital, em particular, no interior das grandes mudanças sociais, políticas, económicas, culturais, científicas, técnicas e ideológicas que atravessaram as sociedades humanas, nomeadamente no Ocidente europeu e cristão . Segundo Steudler (1974), poder-se-ia analisar a evolução do sistema hospitalar (que se confundirá durante muito tempo com o sistema assistencial) duma perspectiva sociológica, a partir das relações que se estabelecem entre três tipos principais de actores:
Teórica e historicamente (ou lógica e cronologicamente), o sistema hospitalar, nos países ocidentais, teria passado por três fases, em relação estrutural com a evolução do sistema económico, social e político, segundo a tipologia proposta por Steudler (1974):
Como todas as tipologias e todas as periodizações, esta também é discutível. Steudler inspira-se explicita ou implicitamente na conhecida tipologia dos sistemas de trabalho (ou perfis de modernização): ao estudar a evolução técnica e a divisão do trabalho, Touraine (1973) identifica, na sucessão das três fases (A, B, C), as relações complexas entre:
Aplicado ao hospital, o conceito de sistema técnico caracterizaria as condições actuais do exercício da medicina hospitalar, marcadas não só por sucessivas tentativas de racionalização (financeira, económica e organizacional) como sobretudo por uma certa industrialização da produção hospitalar, no sentido que lhe dá Chauvenet (1973 e 1978), ou seja, o da decomposição do acto médico (entendido como a unidade de um processo de trabalho que inclui basicamente o diagnóstico, decisão terapêutica e o tratamento), numa série de intervenções complementares, efectuadas por pessoal especializado (médico e paramédico), no seio de unidades técnica e organizacionalmente diferenciadas. No caso português, cada uma destas fases poderia ter, em nossa opinião, a seguinte periodização:
Grosso modo, a primeira fase iria até ao fim do 1º período da Regeneração (ou do fontismo), ou seja, ao início histórico do desenvolvimento do capitalismo em Portugal. O ano de 1867 é o da publicação do nosso primeiro código civil (que irá estar em vigor até 1966); A segunda fase prolongar-se-ia até 1971, data da reforma sanitária que irá estar na origem da criação do actual Serviço Nacional de Saúde (em 1979). Trata-se apenas de pistas que poderão ser exploradas, desenvolvidas, aprofundadas e/ou reformuladas pela investigação historiográfica. Infelizmente, está em grande parte por fazer a história do sistema, da política, das organizações e das profissões de saúde em Portugal. Por um lado, falta-nos monografias sobre a evolução dos hospitais e demais serviços de saúde portugueses. Por outro, a nossa historiografia da saúde é claramente iatrocêntrica (quando não se resume à petite histoire), e tem sido cultivada preferencialmente por titulares das cadeiras de história da medicina, introduzidas nos finais do Séc. XIX e sobretudo em 1911, aquando da criação das Faculdades de Medicina de Lisboa e do Porto (por ex., Lemos, 1991, Pina, 1938, Mira, 1947). De um modo geral, a investigação historiográfica sobre as instituições de assistência e de saúde é escassa e dispersa, estando por explorar as valiosas fontes documentais que representam os arquivos de muitos dos nossos hospitais e misericórdias. Não temos, no entanto, nem o propósito nem a veleidade nem muito menos o tempo e a formação específica para nos abalançarmos à investigação de arquivo. Esta nossa incursão pelo passado, revisitando sem carácter sistemático nem exaustivo a literatura existente, não pretende senão retomar e explorar pistas para a compreensão da evolução do hospital português, como organização e como instituição, vista de uma perspectiva mais consentânea com a análise sociológica. Para além da actividade lúdica que é sempre a leitura de material historiográfico, propusemo-nos ao mesmo atingir um objectivo utilitário, que era o de produzir textos de apoio para os alunos dos cursos de especialização de administração hospitalar, de saúde pública e de medicina do trabalho da ENSP/UNL, bem como dos curso de mestrado de saúde pública.
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(a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa (Textos, T 1238 a T 1242). |
| GRAÇA, L. (2000) - Evolução do Sistema Hospitalar: Uma Perspectiva Sociológica |
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Índice 1. Introdução: o hospital como um construído social (1) O hospital como instituição (2) O hospital como organização (3) O hospital como total institution (4) O hospital como subsistema de cuidados
2. As mudanças estruturais do hospital
3. I fase: O sistema tradicional
3. 1. Europa (Da Idade Média até meados do Séc. XIX) (1) Antepassados remotos do hospital: os asclepeions dos gregos e os valetudinaria dos romanos (2) O hospital medieval como expressão institucional da caridade cristã; (3) Ausência de consciência colectiva da saúde/doença; (4) Proto-história da administração hospitalar; (5) Proto-história do ensino e da prática da medicina; (6) Irmãos e irmãs da caridade: os primórdios da enfermagem; (7) Um estatuto subalterno, o do farmacêutico hospitalar; (8) Físicos, cirurgiões, barbeiros, parteiras e outros praticantes de artes médicas: uma história mais de pudor do que de poder ?; (9) O hospital do Ancien Régime como instituição totalitária e instrumento de controlo social; (10) O hospital como lugar de passagem da elite médica; (11) A situação hospitalar em França, do fim do Antigo Regime até 1848.
3.2. Portugal (1096-1867)
(1) Proliferação de pequenos estabelecimentos assistenciais e lenta diferenciação funcional do hospital; (2) A especificidade e o papel das misericórdias portuguesas, bem como a sua progressiva elitização e decadência; (3) O hospital monumental renascentista como expressão da ostentação da caridade cristã e da centralização do poder político, de que o HRTS é o paradigma; (4) A diferenciação técnica e profissional; (5) O hospital um locus religiosus, uma pia causa e simultaneamente um locus infectus; (6) A longa e persistente tradição do ensino arábico-galénico da medicina até à reforma universitária de Pombal; (7) A lenta evolução da sociodemografia médica e o controlo do exercício da arte médica; (8) A arte médica no feminino por graça e mercê d’el-rei; (9) Os primórdios da enfermagem; (10) A estratificação socioeconómica dos prestadores e demais pessoal de apoio; (11) A crescente valorização técnica e social da cirurgia hospitalar na segunda metade do Séc. XVIII; (12) As representações sociais da arte médica e dos seus praticantes; (13) A prevalência de elevados perfis de morbimortalidade; (14) E, finalmente, o esboço de uma política de intervenção sanitarista do Estado
4. II fase: O sistema profissional liberal
4.1. Europa (De meados do Séc. XIX até à II Guerra Mundial)
(1) Função supletiva do Estado Liberal em matéria de saúde; (2) Desenvolvimento embrionário dos sistemas de protecção social; (3) Colapso financeiro do hospital tradicional; (4) Progresso das ciências e técnicas biomédicas; (41) Triunfo da clínica (ou da arte do diagnóstico por excelência); (42) A medicina pré-industrial: o acto médico indivisível; (43) Desenvolvimento da medicina laboratorial e experimental; (44) Os primórdios da civilização do gene; (45) Afirmação do poder médico; (5) Início da especialização médica; (6) Ensino e profissionalização da enfermagem; (7) Industrialização do medicamento; (8) A reforma hospitalar; (9) Prevenção e controlo das doenças transmissíveis; (10) Desenvolvimento da saúde pública.
4.2. Portugal (1867-1971) (1) Assistência pública e filantropismo privado; (2) A vida de um médico na Belle Époque; (3) Arquitectura e engenharia hospitalares; (4) Um país em lenta mutação: a situação demográfica e sanitária; (5) A política velha do Estado Novo; (6) Progressiva laicização e profissionalização da administração hospitalar; (7) Ensino e exercício da medicina; (8) Desenvolvimento da especialização médica; (9) Emergência da hospitalização psiquiátrica; (10) Estrutura liberal da medicina hospitalar; (11) Ensino e prática da enfermagem; (12) Hospitais e misericórdias durante o Estado Novo.
5.1. Europa (A partir da II Guerra Mundial) (1) Introdução: a empresarialização do hospital (2) Impacto da 2ª revolução científica e técnica no campo da medicina (3) Crescente intervenção do Estado na política social e económica (4) Adopção do modelo de gestão empresarial (5) Associação dos profissionais à gestão hospitalar (6) Assalariamento e sindicalização dos médicos (7) Novos desafios à (e oportunidades para a) enfermagem (8) Desumanização do doente e despersonalização dos cuidados 5.2. Portugal (A partir de 1971) 6. Conclusão |
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Quadro I - Alguns factos relevantes para a história da medicina e da saúde, em Portugal, na Europa e no resto do Mundo (Da Antiguidade Clássica ao Século XX) |
| 1 | Antiguidade Clássica (Do Séc. V a.C. até ao fim do Império Romano do Ocidente) |
| 2 | Idade Média (477-1477) |
| 3 | Renascença e Início da Construção do Estado Moderno (1479-1620) |
| 4 | Antigo Regime (1620-1807) |
| 5 | Século XIX |
| 6 | Século XX |
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Última actualização: 21 de Fevereiro de 2005 / Last update: February 21, 2005. |
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© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
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