Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

 página / page    140

 

140. Graça, L.; Sá, E. (1999): Avaliação da satisfação profissional do pessoal dos centros de saúde da Sub-Região de Saúde de Beja. Resultados preliminares

    [ Job Satisfaction in the Portuguese National Health Service: Preliminary Results Concerning Beja Region Primary Health Care Professionals ](a)

  

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 1. Introdução
   

De acordo com o disposto na lei de bases da saúde (Lei nº 48/90, de 24 de Agosto),,  a satisfação dos profíssionais é um dos quatro critérios de avaliação periódica do SNS, a  par da satisfação dos utentes,  da qualidade dos cuidados e da eficiente utilização dos recursos numa óptica de custo/benefício (Base XXX).

Em termos genéricos, a satisfação profissional é um importante indicador do clima organizacional e, mais do que isso, um elemento determinante da avaliação do desempenho das empresas e demais organizações.

A satisfação é uma atitude, uma emoção ou um sentimento que pode ser verbalizado  e e medido através duma opinião do tipo “Gosto de ser médico de família". Enquanto atitude, a satisfação tem três componentes:

  • (i) Afectiva  (“Não gosto do que faço neste centro de saúde”);

  • (ii) Cognitiva e avaliativa  (“O meu trabalho é muito rotineiro”);

  • e (iii) Comportamental (ou, melhor, de intenção comportamental ou de tendência para  a acção) (“Tenho pensado ultimamente em concorrer ou pedir transferência para  outro centro de saúde”).

 

A satisfação no trabalho  pode ser definida como o resultado da avaliação (periódica) que cada um de nós faz, em jeito de balanço, relativamente ao grau de realização dos seus valores, necessidades, preferências e expectativas profissionais. Em termos muito simples, diríamos que é uma pessoa perceber ou sentir que aquilo que recebe (por ex., dinheiro, segurança no emprego,  condições de trabalho, amizade, prestígio, autonomia no trabalho, oportunidade de trabalhar em equipa, tarefas interessantes e estimulantes, reconhecimento profissional, desenvolvimento de uma carreira) é justo ou  está de acordo com aquilo que esperava obter (por comparação com outrem na mesma situação e em função dos investimentos feitos na empresa ou organização onde trabalha).

 O questionário que foi aplicado neste estudo (Graça, 1999)  foi concebido para ser utilizado periodicamente pelos profissionais que trabalham nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde (abreviadamente, SNS), enquanto  instrumento de avaliação no âmbito do programa MoniQuOr.CS – Monitorização da Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde.

Em termos genéricos, a sua finalidade é a de identificar e propor medidas concretas e exequíveis que possam contribuir para a progressiva melhoria da satisfação profissional dos profissionais de saúde bem como da organização e funcionamento dos centros de saúde (abreviadamente, CS)

Uma primeira versão deste questionário foi aplicada no último trimestre de 1998 a todo o pessoal dos CS da Sub-Região de Saúde  de Beja (abreviadamente, SRSB) com vista à sua aferição e validação. O trabalho de campo esteve a cargo do Núcleo de Formação e Investigação da SRSB, sob a orientação do respectivo coordenador, Dr. Edmundo Sá.

Para além deste objectivo específico, pretendia-se também:

 

  • Conhecer a  hierarquia dos factores de motivação profissional do pessoal dos CS; 

  • Medir o grau de discrepância entre as suas expectativas e as recompensas, intrínsecas e extrínsecas, obtidas no exercício das suas funções;

  • Elaborar e interpretar o perfil de satisfação profissional de cada profissional, de acordo com a sua estrutura  motivacional, as suas características sociodemográficas e as suas intenções comportamentais;

  • Utilizar a satisfação profissional como indicador de avaliação da qualidade organizacional  dos CS do SNS, no âmbito do programa MoniQuOr.CS, bem como instrumento imprescindível na formação contínua e no desenvolvimento pessoal dos profissionais de saúde.

O questionário, de resposta individual e confidencial,  era constituído por três partes:  em relação a cada uma elas,  eram dadas instruções específicas sobre o modo como se devia responder ou proceder. A resposta ao questionário (Partes I, II e III) levava à volta de 30  a 35 minutos.   Estas três partes deveriam ser devolvidas, em envelope fechado e sem identificação do respondente,  à pessoa que, no CS, estava encarregue de proceder à sua recolha para posterior tratamento estatístico, análise e discussão.

 Apresentam-se a seguir alguns dos resultados preliminares deste estudo.

 

  2. Caracterização da população
 

No último trimestre de 1998, o total de pessoal que trabalhava nos 14 CS da SRSB mal ultrapassava as escassas seis centenas (N=620). O único CS com características verdadeiramente urbanas é o da sede da SRS e capital de distrito. Empregava, na altura,  mais de um sexto do total (Quadro  2.1).

O número médio de trabalhadores por CS situava-se à volta dos 44  (Mínimo=7; máximo=107). Acima da média estavam apenas quatro CS: Além de Beja (N=107),  Aljustrel (N=47), Moura (N=64),  Odemira (N=80) e Serpa (N=47). Dos restantes, destacam-se os CS de Alvito e Barrancos, com apenas onze e sete trabalhadores, respectivamente.

 Em praticamente todos os CS há falta de pessoal ou há uma distribuição assimétrica dos recursos humanos:

 

  • Os médicos de família representavam menos de 17% do total. Em média, existiam  7.5 médicos de MGF por CS (Mínimo=1; máximo=25). Com apenas 7 ou menos de 7 médicos de família, encontrava-se a generalidade dos CS da SRSB  (mais concretamente, 10 em 14).

  • O número de médicos de outras carreiras ou especialidades também era muito reduzido: apenas 9. Em pelo menos 6 CS não existia sequer médico de saúde pública.

  • Por sua vez, um em cada quatro trabalhadores era enfermeiro (25%). O rácio enfermeiro/médico era inferior a 1.4 (Mínimo=0.7; máximo=9.0). Apenas em quatro CS havia dois ou mais enfermeiros por médico. O caso de Almodôvar era perfeitamente anómalo: tinha 9 enfermeiros e apenas um médico.

  • No seu conjunto, os prestadores de cuidados directos (médicos e enfermeiros) andavam à volta dos 43%.

  • O rácio pessoal de apoio (administrativos e auxiliares) / prestadores de cuidados directos também não era famoso: 1.3 (Mínimo=0.8; máximo=2.7). Apenas em três casos este rácio era igual ou superior a 2.0. Apesar de tudo, na SRSB estes dois rácios, em 1998, eram ligeiramente melhores do que na Região do Alentejo e no Continente, em 1997 (Quadros  2.2 e 2.3).

 

 

Quadro 2.1 - Total de pessoal dos centros de saúde da Sub-Região de Saúde de Beja, por centro de saúde e carreira profissional (1998)

 

Carreira

Centro de Saúde

Enfer-magem

Adminis- trativa

Medicina Geral e Familiar

Medicina Hospitalar  ou Saúde Pública

Outra (a)

 Total

Aljustrel

13

13

6

0

15

47

Almodôvar

9

10

1

0

15

35

Alvito

4

5

2

0

0

11

Barrancos

2

2

1

1

1

7

Beja

29 35 25 1 17 107

Castro Verde

10 7 7 0 13 37

Cuba

7 5 3 0 15 30

Ferreira do Alentejo

9 9 7 1 17 43

Mértola

7 8 5 0 24 44

Moura

17 17 11 1 18 64
Odemira 20 23 14 2 21 80
Ourique 9 5 4 1 11 30
Serpa 10 16 14 1 6 47
Vidigueira 9 16 5 1 13 38
Total (%) 155 165 105 9 186 620

Fonte: Sub-Região de Saúde de Beja, Núcleo de Formação e Investigação (1998)  (Dados não publicados)

 

 Para além da sua distribuição por CS e carreira profissional, desconhecia-se a estrutura do pessoal em termos sociodemográficos (género, idade, antiguidade, etc.). Deverá acrescentar-se que a categoria “outros” é essencialmente constituída por pessoal dos serviços gerais e pessoal auxiliar que, na prática, exercem funções administrativas ou de apoio (Nesta categoria residual deverão estar incluídos ainda cerca de 3% a 4% de pessoal técnico superior e pessoal técnico).

Com base nas Estatísticas da Saúde 1997 (INE, 1998),  podemos apenas comparar a estrutura sociodemográfica do pessoal ao serviço nos CS do SNS, no que  respeita ao género, ao agrupamento profissional e à distribuição regional. As diferenças mais notórias quanto à estrutura do pessoal a nível do Continente, da Região do Alentejo e da SRS Beja são as seguintes:

 

  • No seu conjunto, os CS da Região do Alentejo têm uma proporção ligeiramente superior de médicos (19.8%), relativamente à SRSB (18.4%), mas muito aquém da frequência relativa verificada no Continente (28.4);  

  • Já a percentagem de pessoal de enfermagem é sensivelmente a mesma, nos três casos, rondando os 24%; 

  • Por sua vez, o pessoal técnico superior e o pessoal técnico (técnicos superiores  sanitários, técnicos auxiliares sanitários, técnicos de serviço social, técnicos de serviços complementares de diagnóstico e terapêutica e outros) não ultrapassam os 4%;

  • Quanto ao pessoal da carreira administrativa,  anda na casa dos 25% (um pouco mais, na SRSB);

  • Finalmente, o pessoal dos serviços gerais e o pessoal auxiliar oscila entre os 25% (no Continente) e os 27% na Região do Alentejo.

 

 

 

Relativamente ao género, o pessoal dos CS do SNS é predominantemente feminino, tanto no conjunto dos efectivos (76%), como em cada um dos agrupamentos profissionais: pessoal médico (51%), pessoal de enfermagem (88%),  pessoal técnico superior e técnico (60%), pessoal administrativo (84%) e pessoal auxiliar (89%). A única diferença notória, na Região do Alentejo, é quanto ao pessoal técnico superior e técnico (N=91) em que os homens levam uma ligeira vantagem de três pontos percentuais sobre as mulheres; estas também são menos, embora continuem a ser largamente maioritárias, nas categorias de pessoal administrativo (81%) e de pessoal auxiliar (83%), por comparação com os rácios a nível do Continente (84% e 89%, respectivamente).

 Ainda em relação ao pessoal médico dos CS do SNS, convirá referir que 86% é constituído por médicos de família (89% na Região do Alentejo e 92% na SRSB).

De acordo com as Estatísticas da Saúde 1996 (INE, 1997), o nível médio de habitantes por CS era de 26600, no Continente. Por regiões, o Alentejo apresentava um valor inferior a metade da média nacional (11 mil) (Menos de 10 mil no Baixo Alentejo).

Quanto ao número de consultas por habitante era de 2.5 nos serviços ambulatórios dos CS (excluindo serviços de atendimento permanente e outros serviços com carácter de urgência). No Alentejo esse rácio era mais alto (2.8). Quanto ao número de consultas diárias por médico era de 15.2 em 1996, em termos nacionais (16.8, na Região do Alentejo).

Grosso modo, e quando comparada com a Região do Alentejo e o Continente, a SRSB apresentava melhores   rácios, em 1997, no que dizia respeito a: enfermeiro/médico (1.36), pessoal de apoio/prestador (1.3), mil habitantes/CS (9.6), mil habitantes/médico (1.2), mil habitantes/enfermeiro (0.9) e mil habitantes/pessoal de apoio (0.4) (Quadro 2.3).

 

Quadro 2.2 - Estrutura do pessoal  dos centros de saúde da Sub-Região de Saúde de Beja, por centro de saúde, função e rácio

Pessoal

Função
Rácio

Centro de Saúde

 Prestação de cuidados

Apoio

 

Total

 Enfermeiro/ médico

Pessoal de apoio/prestador

Aljustrel

19

28

47

2.2

 1.5

Almodôvar

10

25

35

9.0

2.5

Alvito

6

5

11

2.0

0.8

Barrancos

4

3

7

1.0

0.8

Beja

55

52

107

1.1

0.9

Castro Verde

17

20

37

1.4

1.2

Cuba

10

20

30

2.3

2.0

Ferreira do Alentejo

17

26

43

1.1

1.5

Mértola

12

32

44

1.4

2.7

Moura

29

35

64

1.4

1.2

Odemira

36

44

80

1.3

1.2

Ourique

14

16

30

1.8

1.1

Serpa

25

22

47

0.7

0.9

Vidigueira

15

23

38

1.5

1.5

Total (%) 269 (43.4) 351 (56.6) 620 (100.0) 1.4 1.3

 Fonte: Sub-Região de Saúde de Beja, Núcleo de Formação e Investigação (1998)  (Dados não publicados)

 

Quadro 2.3– Pessoal ao serviço nos CS: Rácios por região (1997)

Rácio

Região

 Enfermeiro/ Médico

Pessoal de apoio/ Prestador

Mil habitantes /CS (1996)

Mil habitantes/ Médico

Mil habitantes/ Enfermeiro

Mil habitantes/ Pessoal de apoio

Continente

0.84

0.92

26.6

1.3

1.6

0.8

Alentejo

1.23

1.27

11.1

1.3

1.1

0.5

SRS Beja (1998)

1.36

1.30

9.6

1.2

0.9

0.4

 Fonte: Estatísticas da Saúde 1997 (INE, 1998) e SRSB (1998)  (Dados não publicados)

(Continua)

 (a)  Uma versão mais completa do relatório foi apresentada na Administração Regional de Saúde do Alentejo, Sub-Região de Saúde, Núcleo de Formação e Investigação

 

Última actualização: 11  de Fevereiro  de 2002 / Last updated: February 11,  2002.  

© Luís Graça (1999-2002). E-mail: lgraca@ensp.unl.pt

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