Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

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173. Graça, L. (2005) -  A arte da enfermagem no Séc. XVIII  [ The art of nursing in XVIII century]

  

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 Apresentação (a)

 

1. A Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros é o primeiro manual de formação em cuidados de enfermagem de que há notícia em Portugal e, nessa medida, deveria ocupar  um lugar de relevo na proto-história do ensino das ocupações e profissões de saúde. Não o tem sido por que a obra é praticamente desconhecida (Graça, 2005).

Publicada em 1741, depois do necessário nihil obstat et imprimatur das autoridades civis e religiosas, incluindo o competente parecer do médico da Câmara Real e físico-mor do Reino (vd. Caixa 6, em anexo), é seu autor o Padre Frei Diogo de Santiago, religioso da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus.

A obra destinava-se explicitamente à formação dos noviços do Convento de Elvas, "para perfeição da vida religiosa e voto da hospitalidade", sendo apresentada como resultado da experiência do autor em “quarenta anos de Religião” (Do prologo ao leitor. In: Santiago, 1741. iv-vii).

 Na época, e desde 1645, os hospitaleiros de S. João de Deus não só administravam uma vasta rede de hospitais militares, de campanha e de retaguarda, do Minho ao Alentejo, como neles prestavam os cuidados de enfermagem.

O livro, de 300 páginas, está dividido em três partes ou tratados, por sua vez subdivididos em capítulos:

(i) um primeiro tratado ("postila religiosa") contem "advertências para a perfeição religiosa do estado de noviço até ao de prelado superior" (5 capítulos, da página 1 a 71);

(ii) um segundo tratado tem como título "arte de enfermeiros" e como subtítulo "para assistir aos enfermos, com as advertências precisas para a aplicação dos remédios": é o mais extenso em capítulos (59), e  em páginas (uma centena, da página 72 a 172) (vd. Caixa 1, em anexo);

(iii) o terceiro e último tratado ("advertências para bem morrer") tem 7 capítulos  e cerca de 80 páginas, incluindo anexos (da página 173 a 256); o conteúdo desta parte tem a ver com  o "modo para o enfermo examinar a sua consciência, exortações para a sua salvação, forma de fazer testamento, e para ajudar a bem morrer";

por fim, (iv) há ainda um índice temático, de A a Z (da página 257 a 300), com as "coisas mais notáveis deste livro", que ajuda o leitor a recapitular e a memorizar a matéria.

Os capítulos do tratado II são, sem dúvida, os mais interessantes, do ponto de vista da arqueologia dos saberes e das práticas de enfermagem, se bem que o autor se limite a divulgar alguns dos conhecimentos da época, ainda em grande parte tributários da medicina arábico-galénica. Todavia, o autor faz questão de apresentar a “arte de enfermeiros na praxe moderna, (…) revista e corrigida por médicos doutos e cirurgiões peritos” (p. vi).

O livro está longe de ser original e pioneiro: na vizinha Espanha a preocupação com a formação do pessoal religioso que prestava cuidados de enfermagem já remontava ao Séc. XVII. São dessa época manuais como a Instrucción de enfermeros, de Andrés Fernández (publicado em Madrid, em 1617), e o Directorio de enfermeros, de Simón López (1651, não publicado). Ambos os autores eram Irmãos Hospitaleiros, o primeiro pertencente aos Hermanos Obregones, congregação fundada por Bernardino Obregón (1540-1599), e o segundo ao ramo espanhol da Ordem Hospitaleira de São João de Deus.

Na Biblioteca Nacional, em Lisboa, é possível encontrar uma obra, mais antiga, com um propósito didáctico, escrito por um médico e destinada a não-médicos, incluindo enfermeiros. Refiro-me ao livro Luz da medicina prática racional e metódica: guia de enfermeiros, directório de principiantes editada em Lisboa em 1664 e que até ao ano de 1700 teve um grande sucesso, a avaliar pelas suas cinco edições conhecidas. Foi seu autor Francisco Morato Roma (1588-1668), oriundo de Castelo de Vide (e por isso, muito provavelmente, cristão-novo), médico da câmara real nos reinados de D. João IV e de D. Afonso VI. Lemos (1991. 35-36) diz que a obra se destinava a "indivíduos de poucos conhecimentos médicos", resumindo-se à divulgação da medicina arábico-galénica ainda em vigor na época.

O pioneirismo da Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros está no facto de ela se destinar, propositada e especificamente, à formação dos indivíduos, os irmãos hospitaleiros, cuja ocupação principal era a prática da enfermagem. Na época, o termo ainda não existia em português: trata-se  de um vocábulo recente, já que só aparece na nossa língua em 1913. Em contrapartida, o termo enfermeiro (do latim, infirmu, fraco de corpo, débil) remonta, tal como enfermaria, a meados do Séc. XIII.

Por sua vez, o termo arte (do latim, arte) significa talento, saber, habilidade; ou aquilo em que se aplica o talento; ocupação, ofício, profissão ou mister; arte, ciência. A arte de enfermeiros era já vista,   em meados do Séc. XVIII, como uma verdadeira arte de curar (do latim curare, ter cuidados com, cuidar, tratar), afirmando-se os enfermeiros lentamente mas com alguma segurança em relação a outro praticantes da arte médica, como os cirurgiões, os barbeiros-sangradores, as cristaleiras ou as parteiras.

Na divisão técnica e social do trabalho os enfermeiros do Século das Luzes começam a marcar alguns pontos, tal como os cirurgiões, nomeadamente nos hospitais militares. Apesar de haver hospitais com 500 camas em  tempo de guerra, como era o caso do Hospital militar de Elvas (Gameiro, 2005), calcula-se que o número de enfermeiros não devesse ultrapassar as escassas dezenas em tempo de paz.

A primeira referência que vi a este autor, o Padre Frei Diogo de Santiago, foi em M. Nogueira (História da enfermagem, 2ª ed. Porto: Edições Salesianas, 1990), outro religioso (português) da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, missionário, enfermeiro e docente, que morreu ainda recentemente, em 2003.

Em boa hora, esta prestigiada congregação reedita, em fac-símile a Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros, uma obra de que haverá menos de seis exemplares nas nossas bibliotecas públicas e que, portanto, é considerada rara. Em boa hora também foi localizada, na Academia das Ciências de Lisboa, um exemplar em bom estado de conservação, por iniciativa e diligência do Dr. Moutinho Borges, conservador do museu da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, e de António Leite Ribeiro, proprietário da Editora Alcalá e responsável pela sua fac-similização e respectiva edição.

2. De qualquer modo, a historiografia médica parece ter ignorado a existência deste manual de formação. Por exemplo, não é sequer referido pelo incansável e erudito Maximiano Lemos, na sua História da medicina em Portugal (1ª edição, 1899), nem por outros conhecidos historiógrafos médicos (v.g., Luís de Pina, M.F. Mira).

Apesar de se estar já no Século das Luzes, a enfermagem era entendida como a mera aplicação de medicamentos ou tratamentos sob prescrição de médicos ou cirurgiões, sem qualquer veleidade, pretensão ou reivindicação de autonomia técnica. Há, no entanto, instruções interessantes que apontam já para as especificidades da “arte de enfermeiros” tais como o registo de enfermagem (n. 108, p. 75), a segurança dos medicamentos (n. 109, p. 76), a posologia e a ordem a seguir na administração dos medicamentos e tratamentos (n. 219-222, pp. 118-121), os procedimentos a observar em caso de hemorragia e na ausência do cirurgião (n. 126-134, pp. 84-87) ou os cuidados a ter quando se submetia um doente à sangria (n. 272, pp. 142-144), ou quando o doente era um portador da terrível e vergonhosa sífilis (n. 318-326, pp. 163-169), sem esquecer as preocupações éticas e o dever de hospitalidade (n. 331, p. 172).

Embora a enfermagem seja entendida como vocação e dever de caridade, não deixa de se dar importância aos aspectos psicossociais da relação terapêutica, como se diria hoje (vd. Caixa 4, em anexo).

Sem nunca pôr em causa a subordinação da enfermagem ao poder médico, o autor defende que o enfermeiro deve pautar o seu comportamento pela “experiência”, o “crédito da ocupação” e o “voto solene da Hospitalidade”, já que dos seus actos “pende a vida e a saúde dos enfermos” (vd. Caixa 5, em anexo).

De qualquer modo, a partir do livro do Pe. Frei Diogo de Santiago, pode  fazer-se uma ideia aproximada do arsenal terapêutico que era usado nos hospitais de então, quer militares quer civis (como o Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, o maior do Reino, administrado desde 1564 pela Misericórdia de Lisboa). Um arsenal tão diversificado quanto ineficaz, diga-se de passagem.

A prática da medicina ou a “arte de curar”, segundo Galeno, ainda se baseava, na época, na famosa teoria dos quatro humores e do seu indispensável equilíbrio para explicar a doença e manter a saúde.

Recorde-se que, desde a escola hipocrática, (i) o universo (e, portanto, o corpo humano) era composto   por quatro elementos fundamentais: o fogo, a água, a terra e o ar; (ii) a estes quatro elementos estavam associadas quatro qualidades: o quente (fogo), o frio (água), o seco (terra), o húmido (ar); (iii) a vida era mantida pelo equilíbrio desses quatro humores ou fluidos, cada um procedente de uma determinada parte do corpo humano e tendo diferentes qualidades:

  • o sangue (coração), quente e húmido;

  • a fleuma (cérebro), fria e húmida;

  • a bílis amarela (fígado), quente e seca;

  • e a bílis (baço), fria e seca;

Do (iv) predomínio de um destes humores na constituição do indivíduo, resultava um determinado tipo fisiológico ou carácter: o sanguíneo, o fleumático, o colérico ou o melancólico; (v) a doença não seria mais do que o desequilíbrio dos humores; (vi) o papel do médico (e do enfermeiro) consistiria então em ajudar a physis a seguir os seus processos normais.

De acordo com um dos famosos aforismos hipocráticos, (vii) as doenças que resultassem da plenitude eram curadas por evacuação, as provenientes da vacuidade por repleção e, em geral, os contrários pelos contrários; (viii) daí o uso (e o abuso até ao Séc. XIX) dos purgantes, vomitivos, cautérios e sangrias a fim de restabelecer o equilíbrio dos humores (as purgas ou clisteres eram chamadas ‘ajudas’, pelo autor da nossa Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros).

Já em meados do Séc. XVII, o uso da sangria (ou flebotomia), praticada por cirurgiões e barbeiros-sangradores (uma profissão só extinta entre nós em 1875), tal como a purga ou o clister (ministrada pelos cristaleiros e cristaleiras), generalizara-se de tal modo que dera motivo ao adágio popular: "Em Lisboa nem sangria má nem purga boa". Pode entender-se este provérbio como uma denúncia  do uso e abuso, por parte dos praticantes de artes médicas, de técnicas terapêuticas agressivas, invasivas e de duvidosa eficácia como era o caso da purga e da sangria.

Não sendo médico, o autor reproduz as concepções terapêuticas que estavam em uso na época, e que continuam a ser, no essencial, as da medicina arábico-galénica, como se pode deduzir por este típico excerto das lições do Pe. Frei Diogo Santiago:

"325. Se a evacuação for por cursos, e estes causarem grandes dores ao enfermo, se lhe lançarão ajudas lavativas de caldo de frango, gema de ovo e açúcar, para se temperar a mordacidade dos humores (sic) que se movem. Sendo a evacuação por suor copioso, se lhe deitarão lençóis enxutos e enxovalhados, defumados e quentes, em forma que o enfermo não receba nenhum ar, porque lhe faria grande prejuízo" (Santiago, 1741. 168)

Falo de lições, porque o livro que agora se reedita não passa de uma sebenta ou postila (do latim postila, anotação que esclarece ou completa um texto), baseada em “cadernos manuscritos” que o Pe. Frei Diogo Santiago foi preparando para as suas aulas e que, com alguma relutância, acabou por dar à estampa, tendo como “único desejo de que os meus Noviços aprendam, e os meus Religiosos exercitem com mais perfeição o voto da Hospitalidade” (Do prólogo ao leitor).

Contrariamente à medicina, à cirurgia e à farmácia, a enfermagem não constituía propriamente um ofício de arte aprovada para cujo exercício fosse necessário a competente autorização do físico-mor ou do cirurgião-mor do Reino.

Por outro lado, e até praticamente ao Século XX, não era reconhecida a especificidade (técnica) dos cuidados de enfermagem. Da leitura dos regimentos hospitalares do Ancien Régime (v.g., Hospital Termal das Caldas da Rainha, Hospital Real de Todos os Santos), depreende-se que o conteúdo funcional da enfermagem se resumia, no essencial, aos cuidados básicos a ministrar aos doentes, para além das tarefas de limpeza e higiene das enfermarias.

A Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros é publicada numa época em que a Universidade de Coimbra e, em particular, os estudos médicos gozavam de muito pouco prestígio e estavam já em franca decadência: “Mais vale uma ano de tarimba do que dez de Coimbra”, ironizava a vox populi

Nomes grandes da medicina portuguesa eram iluministas, estrangeirados e cristãos-novos, que viviam e trabalhavam no estrangeiro (Londres, Leiden, Moscovo, Paris…)  tendo-se recusado a voltar a Portugal, como foi o caso de Jacob de Castro Sarmento (1691-1762) e António Ribeiro Sanches (1699-1782): este último, autor do Tratado de conservação da saúde dos povos (1756) bem como do Methodo para Aprender e Estudar a Medicina, ilustrado com os Apontamentos para estabelecer-se Huma Universidade Real na qual deviam aprender-se as Sciências humanas de que necessita o Estado Civil e Político (1763), vai ter, como se sabe, uma influência decisiva na reforma pombalina dos estudos médicos (1772).

Em contrapartida, o papel dos cirurgiões começava a ser técnica e socialmente mais valorizado. À margem da Universidade, Manuel Constâncio (1725-1817) vai tornar-se o grande cirurgião português da segunda metade do Séc. XVIII e o grande impulsionador da escola lisbonense de cirurgia, baseada no Hospital Real de São José (mas cuja origem remontava à própria fundação do Hospital Real de Todos os Santos).

3. Os hospitais militares, administrados pelos Irmãos Hospitaleiros de São João de Deus e reorganizados na sequência da reforma do exército (1762), levada a cabo pelo Conde de Lippe (1724-1777), por incumbência do Marquês de Pombal, vão também contribuir para a melhoria do ensino e da prática da cirurgia bem como da qualidade dos cuidados de saúde. Mas será preciso esperar pela criação das escolas médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto, em 1836, para que a profissão médica se comece a unificar.

Em contrapartida, só nos finais do Séc. XIX os médicos e as administrações dos principais hospitais (Lisboa, Coimbra e Porto) começam a revelar preocupações com o recrutamento, selecção e formação do pessoal de enfermagem, entretanto secularizado com a extinção das ordens religiosas em 1834. De facto, é com um atraso de algumas décadas em relação às ideias pioneiras dos grandes reformadores da enfermagem no Séc. XIX (v.g., o pastor luterano alemão Fliedner e a inglesa Florence Nigthingale), que surgem entre nós, na alvorada do Séc. XX, as primeiras iniciativas no domínio da formação profissional dos enfermeiros portugueses, dos quais o São João de Deus é co-patrono desde 1930.

Convirá lembrar que, contrariamente ao que se passou noutros países, a secularização da enfermagem é muito tardia entre nós. Em Inglaterra e noutros países protestantes, remonta a meados do Séc. XVI. Em França, começa com S. Vicente de Paulo (em meados do Séc. XVII).

 

(a) SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros, Guarnecida com eruditos conceitos de diversos Autores, facundos, Moraes, e Escriturários Pelo Padre Fr. Diogo de Santiago, religioso de S. João de Deos, Com que educou, e praticou aos seus Noviços, sendo Mestre delles no Convento de Elvas, para perfeição da  vida Religiosa, e voto da Hospitalidade (...). Lisboa: Oficina de Miguel Manescal  da Costa, impressor do Santo Ofício (Edição em fac-símile, em parceria com A Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Original cedido pela Biblioteca da Academia das Ciências Médicas. Apresentação de Luís Graça, introdução de Aires Gameiro: Lisboa: Alcalá, 2005.

Distribuição:  O livro pode ser encontrado, por exemplo, na Livraria Ferin, R Nova do Almada, 70-72, Lisboa; ou na Livraria Almedina, Foram Atrium Saldanha, Lisboa.  Ou encomendado directamente ao editores: Alcalá

Referência bibliográficas

GAMEIRO, Aires - Introdução: sobre a Postilla Religiosa e Arte de Enfermeiros. In: Santiago, Padre Frei Diogo de - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. Edição fac-símile. Lisboa: Alcalá. 2005.  VII-XXIV.

GRAÇA, Luís - Apresentação: a arte da enfermagem np século XVIII. In: Santiago, Padre Frei Diogo de - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. Edição fac-símile. Lisboa: Alcalá. 2005. I-VI.

LEMOS, M. (1991) -  História da medicina em Portugal: instituições e doutrinas. Vol. II. Lisboa: D.Quixote; Ordem dos Médicos (1ª ed., 1899).

MIRA, M.F. (1947) - História da medicina portuguesa. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade.

PINA, L. de (1981) - Medicina e médicos. In: Dicionário de História de Portugal (Direcção de Joel Serrão), Vol. IV. Porto: Figueirinhas. 1981. 239-244.

ROMA, Francisco Morato - Luz da medicina pratica racional, e methodica: guia de infermeiros, directorio de principiantes. Lisboa : na officina de Henrique Valente de Oliveira. 1664.  (Há várias reedições: 1672, 1686, 1700, 1753]

 

 

Caixa 1 - Índice dos capítulos do Tratado II (Arte de enfermeiros)

 Cap. I. Advertências para o Enfermeiro, p. 72.

Cap. II. Defensivo (i) , como se aplica, p. 78.

Cap. III. Emborcação (ii), como se faz, p. 79.

VCap. IV. Pomba ou cachorros, como se hão de aplicar, p. 81.

Cap. V. Amendoadas, dormideiras, unguento populeão (iii) , com e quando se hão de aplicar estes remédios, p. 82.

Cap. VI. Colírio (iv), como se há-de aplicar, p. 83.

Cap. VII. Fluxo de sangue como se lhe há-de acudir na ausência do Médico ou Cirurgião, p. 84.

Cap. VIII. Gargarejos, como se devem aplicar, p. 87.

Cap. IX. Untura na garganta, ou cataplasma, como de deve aplicar, p. 89.

Cap. X. Dor de ouvidos, como se lhe há-de acudir na ausência do Médico, p. 90.

Cap. XI. Untura no peito, como se aplica, e sua situação, p. 90.

Cap. XII. Remédios para o coração, como se devem aplicar, e sua situação, p. 92.

Cap. XIII. Untura do estômago, como se aplica, e sua situação, p. 92.

Cap. XIV. Unturas e remédios no fígado, e sua situação, p. 95.

Cap. XV. Unturas e remédios no baço, e sua situação, p. 97.

Cap. XVI. Unturas do ventre, e sua situação, p. 97.

Cap. XVII. Unturas quaisquer que forem, como se devem aplicar, p. 98.

Cap. XVIII. Untura do espinhaço, e sua situação, p. 100.

Cap. XIX. Untura dos rins e sua situação, p. 101.

Cap. XX. Untura na bexiga e sua situação, p. 102.

Cap. XXI. Lençol molhado em vinho, como se há-de pôr ao enfermo e quando é de aplicar, p. 102.

Cap. XXII. Banhos, como se devem fazer, p. 103.

Cap. XXIII. Esfregações, como se devem fazer, p. 105.

Cap. XXIV. Ligaduras, como se fazem, p. 107.

Cap. XXV. Defumadouros, como se fazem aos enfermos, que têm puchos (ou por outro nome, tenesmo) (v), p. 109.

Cap. XXVI. Ajudas (vi) como se hão-de lançar de qualquer género que sejam, p. 110.

Cap. XXVII. Ajudas a enfermos de apoplexia, ou outros semelhantes, e a frenéticos, como se lhes hão de lançar, p. 112.

Cap. XXVIII. Ajuda de várias causas, como se hão de fazer, p. 113.

Cap. XXIX. Dor de cólica, como  se lhe há de acudir na ausência do Médico, p. 116.

Cap. XXX. Advertência muito importante para quando os Médicos mandam fazer a um enfermo muitos remédios juntos, qual será o primeiro, p. 118.

Cap. XXXI. Distância de tempo que deve haver entre sangria, ajuda e ventosas, p. 120.

Cap. XXXII. Cordial (vii) fresco e purgante, como se há-de dar, p. 121.

Cap. XXXIII. Pedra bazar (viii), como se há-de dar ao enfermo, p. 123.

Cap. XXXIV. Purgas, como e quando se hão de dar, p. 123.

Cap. XXXV. Vomitórios, como se hão-de dar, p. 123.

Cap. XXXVI. Maná (ix) e Lexandria (x), como se há de dar, p. 128.

Cap. XXXVII. Resina de jalapa (xi) ou outra qualquer química, como se há de dar, p. 119.

Cap. XXXVIII.  Caldos de galinha, como e quando se dão aos purgados, p. 130.

Cap. XXXIX. Pílulas (xii), como se hão de dar, p. 131..

Cap. XL. Lambedor (xiii), como se há de dar, p. 132.

Cap. XLI. Advertência muito importante para a saúde do enfermo, que o Enfermeiro deve observar, p. 133.

Cap. XLII. Raspar e humedecer a língua a um enfermo, como se há-de fazer, p. 135.

Cap. XLIII. Água, como e quando se há de dar ao enfermo, p. 136.

Cap. XLIV. Água,  a que enfermos se há de dar mais, ou menos, e como, p. 138.

Cap. XLV. Desfastios, para todo o género de enfermos, p. 140.

Cap. XLVI. Sangrar aos enfermos, como e quando há-de ser, e regimento que se há-de observar, p. 142.

Cap. XLVII. Suor, como se conhece se é bom ou não, e embarramentos que se costumam fazer aos que são diaforéticos (xiv), p. 144.

Cap. XLVIII. Dar de comer aos febricitantes, quando deve ser, p. 148.

Cap. XLIX. Sono profundo, como se há-de evitar, p. 150.

Cap. L. Desmaio levantando-se o enfermo, como se lhe  há-de acudir, p. 151,

Cap. LI. Tosse, como se lhe há-de acudir, p. 151.

Cap. LII. Amendoadas (xv), como se fazem e a que hora se devem dar, p. 152.

Cap. LIII. Taluínas (xvi), como se fazem e a que hora se devem dar, p. 154.

Cap. LIV. Tisanas (xvii), como se fazem e quando se devm dar, p., 154.

Cap. LV. Leite aos éticos, tísicos e empiemáticos (xviii), como se lhes há-de dar e em que tempo, p. 155.

Cap. LVI. Ventosas secas e sarjadas (xix), como se há-de observar, p. 162.

Cap. LVII. Sanguessugas, como se devem lançar e do que com o enfermo se há-de observar, p. 162.

Cap. LVIII. Unturas de unguento de azougue  (xx) aos galicados (xxi), como se devem dar, e requisitos que há-de haver, p. 163.

Cap. LIX. Suores de estufa (xxii), como se devem dar, p. 170.

 

Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. (Correcção da grafia por L.G.)

Notas:

(i) Pano, seco ou molhado, que se aplica na cabeça do doente.

(ii) Técnica que consiste em pôr o doente virado ao contrário na cama, com os pés na cabeceira, e de costas, de modo a permitir a aplicação de um "cozimento", por cima da cabeça, através de um jarro de bico.

(iii) Unguento feito à base de banho de porco, álamo, beladona, folhas de papoila e outros ingredientes; era usado no tratamento de hemorróides, como calmante.

(iv) Líquido aplicado sobre o globo ocular para tratamento de conjuntivite ou para alívio dos olhos.

(v) Do latim, tenesmus, sensação dolorosa ao urinar ou defecar

(vi) Cristel ou clister (injecção de água ou líquido medicamentoso no recto)

(vii)  Cordial, do latim cordialis, relativo ao coração; medicamento ou poção para activar a circulação sanguínea

(viii) Antiga preparação farmacêutica, usada como antídoto para envenenamento; nódulo calcário que se forma no estômago de certos animais.

(ix) Planta asiática, com propriedades medicinais,  descrita por Garcia d'Orta

(x) Desconheço o vocábulo. Há o termo alexandria ou alexandrite, mas trata-se de um termo da mineralogia, não parece ser afzer sentdio no conetcto ("Se o Médico não determinar a hora, que o enefermo há-de tomar a lexandria, lhe dareis a comer o açúcar rosado na crescença do dia (...)". (Santiago, 1741. 128);

(xi) Nome de uma planta convolvulácea, americana, de raiz purgativa; o termo popular zurrapa será uma corruptela de jalapa;

(xii) Pílulas de láudano, usadas para a tosse convulsa (Lemos, 1991. 255);

(xiii) Xarope.

(xiv)  Que ou o que induz à transpiração profusa

(xv) Vocábulo desconhecido. Derivará de talo ? ("as taluinas fazem-se desta forma: dois punhados de farelos de trigo, metidos em um pano, o qual se meterá nove meses em a água, que for bastante...). Santiago, 1741. 154)

(xvi) Emulsão de amêndoas.

(xvii) Cozimento de cereais, especialmente cevada, com virtudes medicinais, mais açucar);

(xviii) Que apresenta empiema (que apresenta acumulação de pus numa cavidade qualquer do organismo);

(xix) Sarjada, de sarjar (fazer sarja ou incisão superficial na pele para extrair sangue ou, no caso de um tumor, para extrair pus);

(xx) Mercúrio;

(xxi) Galicado, o que contraiu sífilis (morbo gálico ou mal francês)

(xxii) Sudoríferos

Fonte: Houaiss, A.; Villar, M. S. - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. S/l: Círculo de Leitores. 2002. 6 Volumes.

Machado, José Pedro - Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte. 1990. 5 Volumes.

 

 

Caixa 2 - Registo de enfermagem

108. Todos os dias de manhã, e tarde fareis visita particular aos enfermos, principalmente aos que tiveres de maior cuidado, para dares ao médico informação do que lhe fizestes, e como tem passado; porque alguns enfermos não sabem dar a indicação necessária; e o Médico, quando os enfermos são muitos, não se pode lembrar do que a todos tem mandado fazer: o que vós remediais com muita facilidade, assim pela informação, que deles tendes adquirido, como pela lembrança, que na tábua da visita tendes formado, sem a qual não visiteis nunca com o Médico, ainda que os enfermos sejam poucos, que não é razão que a vossa memória seja fiadora da vida, ou da saúde do enfermo.
Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. 75. (Correcção da grafia por L.G.)

 

Caixa 3 - Segurança dos medicamentos

109. Os remédios, que aplicares aos enfermos, sejam só pela vossa mão, e a tempo; que as medicinas dilatadas se privam do nome de remédio, disse Quintiliano. Nunca deis remédio bebido sem primeiro ser mexido, e água ao enfermo para lavar a boca, por evitar o prejuízo de o lançar fora. Tende muito, e muito particular cuidado nos números, que trazem os medicamentos, para que não haja equivocação na aplicação deles; e não só nos números tereis esta vigilância, mas também na cor, cheiro, e qualidades deles; porque nas boticas sucede  muitas vezes porem-se os números errados, como eu tenho várias vezes experimentado, e outros muitos Enfermeiros, o que se tem remediado com a experiência dos remédios.
Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. 76. (Correcção da grafia por L.G.)

 

Caixa 4 - A enfermagem como vocação e dever de caridade

104. Se o Prelado [superior hierárquico] vos eleger Enfermeiro, dai-lhe logo o agradecimento de formar conceito da vossa capacidade para emprego de tanta importância, e merecimento, de cuja ocupação pende a saúde da alma, e corpo do enfermo, crédito da nossa Religião, e instituto dela. Haveis de advertir, que o Enfermeiro, que é caritativo, considera que o que faz ao enfermo, Deus o recebe, estima, e remunera.  Deve haver produção genérica de amor entre o enfermo, e Enfermeiro; que se a alma está mais onde ama, que onde anima, como disse Santo Agostinho; e o amor transforma o amante no amado, como disse Séneca: segue-se que mais deve padecer o Enfermeiro a impulsos da caridade, com o que ama, que o enfermo pela aptidão (?) da queixa, que padece;  donde se verifica, que o enfermo, que padece, pode as queixas sofrer; mas o Enfermeiro abrasado em amor de caridade não as pode tolerar; porém fazendo o que pode, satisfaz ao que deve: aplica-lhe os remédios: dá-lhe alentos: se grita ansiado, acode-lhe vigilante: não dorme, se o enfermo não sossega; e assim em perpétuo labirinto não admite tréguas ao descanso, até que o enfermo não tenha alívio, em cuja acção cumpre com toda a Lei de Deus. Assim escreveu São Paulo aos Romanos, dizendo: Quem ama o próximo, toda Lei enche-o. E nestas amorosas assistências aos enfermos vos não haveis de queixar, mas sim louvar a Deus, como fazia o Santo Job nas suas tribulações.

105. Assim que o enfermo chegar, o recebereis com agrado, dando-lhe ânimo. Se quando o enfermo chegar,  vier com crescimento (1), sezão (2) ou gálico (3), não usareis com estes do costume de lhe lavar os pés, (que já sabeis se lhe beijam depois de lavados) nem lhe mandareis cortar o cabelo até não estar livre deste impedimento; mas uma, e outra coisa se lhe há-de fazer logo que esteja capaz, para que  não falte a esta tão meritória acção de caridade.

106. Depois de o deitares na cama, lhe advertireis (como é costume) se prepare para se confessar, e comungar, que é obrigação precisa  da nossa Constituição; razão, por que os Médicos dos nossos Hospitais vivem descansados de incorrerem na determinação do Concílio Lateranense, que o Médico sob pena de interdito ab ingressu Ecclesiae (4), advirta ao enfermo, que logo se confesse (...).

(1) Febre intermitente e frequente; (2) Malária ou paludismo; (3) Morbo gálico ou mal francês (sífilis); (4) Proibição canónica de um cristão entrar numa igreja e assistir a (ou celebrar, se for sacerdote) os ofícios divinos. Cânone 22 do IV Concílio Lateranense, que se realizou em 1215, sob o pontificado do Papa Inocêncio III (1198-1216).

Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. 72-74 (Correcção da grafia por L.G.).

 

Caixa 5 - Relação enfermeiro/médico

331. Neste, e em todos os mais remédios, que contém esta Arte de Enfermeiros, não vai expressada mais que a forma de se aplicarem, que é o que pertence ao Enfermeiro; o qual para acertar, deve além do referido conferir com o Médico, e Cirurgião a forma da execução deles; porque ainda que esta Arte de Enfermeiros está revista por Médicos doutos, e Cirurgiões peritos, como são diversas as opiniões, deve o Enfermeiro seguir a do Médico, com que visita os enfermos; mas isto no caso que a experiência lhe não mostre é menos conveniente o que o Médico determina, e deve com ele conferir o mais acertado; porque há Rábulas, que melhor que um Letrado endireitam uma causa; e como desta pende a vida, e saúde dos enfermos, deve o Enfermeiro procurar seja tudo com acerto por crédito da ocupação; e obrando assim, se livrará dos escrúpulos de consciência, em que esta assistência tanto anda anexa, pelo voto solene da Hospitalidade, que todos os Religiosos de S. João de Deus fazemos.
Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741. 172. (Correcção da grafia por L.G.)

 

Caixa 6 - Censura do Doutor Cipriano de Pina Pestana, Médico da Câmara de Sua Majestade e Físico-Mor do Reino

Senhor: Por mandado de V. Majestade vi o livro intitulado: Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros, composto pelo Reverendo Padre Fr. Diogo de Santiago, Religioso da Sagrada religião do Grande Patriarca S. João de Deus: é obra muito agradável a quem a ler, e muito útil para quem deseja assistir com caridade de bom Enfermeiro aos doentes; porque ensina os melhores termos, e circunstâncias médicas para a tal assistência, fundamento à caridade, e base ao zelo espiritual, como legítimo Filho do maior Pai da Hospitalidade [ S. João de Deus]; e como contenha o tal livro, e ensine  tão necessária doutrina para os miserandos aflitos, se faz digno da licença que pede. V. Majestade mandará o que for servido. Lisboa Oriental, 27 de Março de 1741. Doutor Cipriano de Pina  Pestana.
Fonte: SANTIAGO,  Padre Fr. Diogo de (1741) - Postilla  Religiosa, e Arte dos Enfermeiros... Lisboa: 1741  (Correcção da grafia por L.G.)

 

 

Última actualização: 12  de Maio  de 2005 / Last update: May 12,   2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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