Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

 página / page    182

 

182. Graça, L. (2000) -  A industrialização farmacêutica  [ The Pharmaceutical Industrialization](a)

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É também neste período  da evolução do sistema hospitalar que surge a indústria farmacêutica:

  • Em 1884, são fundadas a Bayer (Alemanha) e a Ciba (Suiça);

  • Em 1886 são descobertas as primeiras drogas sintéticas, a piramidona e antifebrina;

  • E em 1897, a Bayer sintetiza a aspirina, hoje mundialmente famosa.

 

Enquanto franceses e alemães continuam a dominar a bacteriologia e a serologia até meados do Séc. XX, nas sequência das descobertas de Pasteur e Koch, serão os investigadores americanos a revelar a existência das substâncias químicas, indispensáveis à vida, a que hoje chamamos vitaminas.

O termo  foi popularizado em 1912 pelo polaco-americano C. Funk (1884-1967), que um ano depois conseguiu isolar a  vitamina B1.

Grande número de vitaminas, descoberta na polpa ou na casca de diferentes frutos (muitos deles tropicais), irão ser entretanto incluídos no arsenal terapêutico, depois de sintetizadas, produzidas industrialmente e comercializadas.

 interesse pelas vitaminas surge como uma resposta às doenças da carência (v.g., o tradicional escorbuto dos marinheiros, devido à falta de frutos e outros produtos frescos na alimentação a bordo e, consequentemente, da vitamina C, que será isolada em 1930).

 Por sua vez, o termo hormona aparece em 1902. A insulina será a primeira hormona a ser isolada, em 1922, graças aos trabalhos de investigação do canadiano F. Banting (1891-1941). Esta hormona é hoje fundamental no tratamento dos doentes diabéticos.

Graças ao apoio da poderosa indústria química alemã, em 1907 P. Ehrilch (1854-1915) inaugura a moderna quimioterapia  e, em 1909, descobre a preparação do “salvarsan” como cura para a sífilis. Será também um dos primeiros Prémios Nobel da Medicina e Fisiologia (1908), criado no princípio do Séc. XX.

A partir daí, as sulfamidas ganham o interesse dos investigadores e dos laboratórios. Em 1928,  o inglês A. Fleming (1881-1955) descobre a penicilina, proveniente de um fungo, que depois irá ser desenvolvida como antibiótico. De facto, em 1940, o inglês H. Florey desenvolve a  penicilina  como antibiótico, juntamente com B. Chain e N. Hetley. (Florey será premiado com o Nobel, em 1945, em  conjunto com o seu Fleminge Chain).

Em 1943, passa-se a fabricar a penicilina em escala industrial nos EUA. Será o início da explosão dos fármacos. No mesmo ano, A. Schatz, E. Bugie e S.Waksman isolam a estreptomicina, igualmente proveniente de um fungo, e que se irá revelar eficaz contra o terrível bacilo de Koch. S. Waksman isola, em 1949, a neomicina  e ser-lhe-à atribuído o Nobel de 1952. 

De qualquer modo, o arsenal terapêutico de que a medicina dispõe até à II Guerra Mundial continuará a ser muito limitado. Como alguém disse, tão limitado que cabia na malota do médico. Em todo o caso, e pela primeira vez a combinação das sulfamidas com a penicilina permite fazer com que já não se morra de infecções quer nas frentes de batalha quer nos hospitais.

Em resumo, este período da evolução do hospital e da medicina corresponde também ao da profunda transformação da farmacopeia tradicional. A velha botica que nos vêm dos tempos medievos e a figura do boticário vão desaparecer. Etimologicamente,  a palavra botica deriva de bodega: do grego, apotehke (depósito, armazém) que deu o termo latino apotheca (também celeiro, cave, adega). Por sua vez, boticário, deriva do latim tardio apothecariu (Machado, 1990).

De facto, a industrialização farmacêutica teve como consequência imediata a morte do modo produção artesanal de medicamentos que conseguiu sobreviver até ao Séc. XX:

“As oficinas farmacêuticas já não possuem almofarizes, nem preparadores de drogas, nem piluladores ou comprimidores, substituídos por uma apresentação em que as especialidades se encontram classificadas por ordem alfabética, de acordo com a sua denominação comercial e não segundo a sua composição química, nem mesmo o princípio activo que está na sua base. Os medicamentos originais a que um médico ou um farmacèutico ligava o seu nome e que eram fabricados de forma artesanal nas traseiras de uma farmácia ou de uma empresa familiar e depois difundidos através do país deixaram de existir. Provêm agora de laboratórios industriais com frequência pertencentes a grandes grupos químicos internacionais” (Sournia, 1995. 344).

 

Referências bibliográficas / Bibliography

 (a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: Uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde.  Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa   (Textos, T 1238 a T 1242).

 

Última actualização:  11 de Fevereiro  de 2005 / Last update: February 11,   2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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