Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

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183. Graça, L. (2000) -   Prevenção e controlo das doenças  transmissíveis [  Prevention and control of communicable diseases ](a)

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É inegável que a partir de meados do Séc. XIX, há assinaláveis progressos no tratamento médico da doença. Com o fim do Ancien Régime, a rede hospitalar expande-se, o próprio estabelecimento hospitalar começa a especializar-se (v.g., o caso da maternidade, das doenças infecto-contagiosas), inclusive começam a desenvolver-se os cuidados ambulatórios (v.g., dispensários), o ensino da medicina rompe com a escolástica medieval, há maiores conhecimentos no domínio da fisiologia e da anatomia e, pela primeira vez, surge uma medida preventiva eficaz contra uma doença transmissível, a vacinação antivariólica, graças aos trabalhos de investigação de E. Jenner (1749-1823).

 A varíola tinha sido a pior doença infecciosa do Séc. XVIII, tendo só por si vitimado 60 milhões de pessoas. A vacinação preventiva e a cura das doenças transmissíveis, a par das primeiras medidas no campo do saneamento básico e da vigilância sanitária, vieram trazer à medicina a credibilidade que então  nunca  tivera aos olhos da população.

 Na alvorada do Séc. XX, e na esteira de Pasteur e Koch, tinham-se identificado as causas das principais doenças infecciosas e parasitárias, como já atrás referimos: o bacilo do tétano, da peste (bubónica e pneumónica), do tifo, da difteria, tuber­culose e o da cólera ou dos seus agentes transmissores (filariose,  malária,  febre amarela), enquanto se desenvolve a vacinação (v.g., contra a raiva, com Pasteur).

 No entanto, é hoje altamente discutível que os progressos das ciências e técnicas médicas tenham tido contributo, só por si, e de maneira decisiva, para a melhoria do nível sanitário da população dos países mais desenvolvidos na época, contrariamente ao ponto de vista de alguma historiografia (ou melhor, da hagiografia) médica.

 Por exemplo, a irradicação da varíola,  a nível mundial, só será conseguida  por volta de 1980, graças aos programas da OMS.

 A   este respeito, a evolução da tuberculose nalguns países - e nomeadamente a Inglaterra e o País de Gales, de que se dispõe de dados sobre a mortalidade e as suas causas a partir de partir de meados do Séc. XIX - é  deveras elucidativa. 

Segundo McKeown (1990. 108-110),  a tuberculose das vias respiratórias foi a doença que mais contribui para a diminuição da mortalidade no período de 1850 e 1970. Mais exactamente, só por si terá contribuído para reduzir a mor­talidade em 17,5% entre 1848-1854 e 1971, em Inglaterra e País de Gales. E mais de metade dessa redução verificou-se em pleno Séc. XIX (Figura 1).

 A partir do ano em que passou a ser registada a causa mortis nas certidões de óbito, ou seja, em 1838, a taxa de mortalidade por tuberculose diminuiu constantemente. Como se sabe, o bacilo da tuberculose só foi identificado em 1882,  por Koch,  mas só  65 anos depois, em 1947, é que surgirá um tratamento eficaz, a estreptomicina, isolada em 1943  pelos investigadores A. Schatz, E. Bugie e S.Waksman.

A imunização (pela vacinação BCG) só passará, entretanto, a ser usada em grande escala a partir de 1954, ou seja, numa altura em que a mortalidade por tuberculose já estava reduzida a uma pequena parte do que fora cem anos antes (cerca de 4000 por milhão).

Grande parte da redução da mortalidade por tuberculose (cerca de 57%) verificou-se, pois, até ao final do Séc. XIX.

 

 Figura  1- Tuberculose das vias respiratórias: taxas médias de mortalidade anuais padronizadas (por referência à população de 1901) em Inglaterra e País de Gales

McKeown, T., 1979. The Role of Medicine.

 

Referências bibliográficas / Bibliography

 (a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: Uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde.  Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa   (Textos, T 1238 a T 1242).

 

Última actualização:  11 de Fevereiro  de 2005 / Last update: February 11,   2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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