textos sobre saúde & trabalho / papers on health & work  

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48. Graça, L. (2000) - La Salute Non Si Paga   [ A Saúde Não Tem Preço ] (a) 

  

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1. O Modelo Operário Italiano de Análise das Condições de Trabalho
 

Uma das originalidades do movimento operário italiano foi a emergência, ao longo da década de 1960, de um modelo autónomo de análise das condições de trabalho, modelo esse que teve profunda influência nas políticas e  práticas de saúde no trabalho (Bagnara et al., 1981 e 1985).

Mais concretamente, foi posta em causa a tradicional concepção medicocêntrica dos serviços de saúde e segurança no trabalho bem como a tendência dos sindicatos para negociarem os riscos profissionais, nas costas dos trabalhadores. Daí a palavra de ordem, então muito em voga, La salute non si paga ("A saúde não tem preço"). Ao mesmo tempo, era também a abordagem tecnocêntrica da empresa e da organização do trabalho, consubstanciada no taylorismo-fordismo, que era técnica e socialmente posta em causa.

Esse modelo, muito simples e fácil de usar (com recurso a "un linguagio uguale per tutti"),  começou a ser divulgado nos anos de 1968/69. O seu princípio básico era o de que devia ser o operador, e não o especialista ou o perito, a identificar e a avaliar os factores e os efeitos nocivos da sua situação de trabalho concreta ("...un modello di analisi cha abbia come elemento di riferimento l'uomo che lavora o meglio il gruppo operaio interessato al processo produttivo") (p. 8, itálicos nossos).

O modelo assenta em dois pressupostos, (i) a possibilidade (técnica) de medir ou não a intensidade de um factor com meios objectivos e (ii) a existência de uma tabela com valores considerados óptimos:

  • "Possibilità di misurare l'intensità di un fattore con mezzi oggettivi (strumenti come può essere il termometro per misurare la temperatura) oppure no (come l'intensità  del ritmi per i quali non existe uno strumento di misura)";

  • "Esistenza o meno di una fascia di valori ottimali per un dato fattore. Ad esempio per la temperatura esiste un massimo ed un minimo entro i quali l'uomo si trova nelle migliori condizioni di vita, mentre per la silice solo il valore zero, cioè l'assenza di silice, rappresenta la situazione ottimale" (p. 8, itálicos nossos).

Os resultados dessa autoavaliação seriam depois confrontados com os dados científicos disponíveis através do diálogo e da cooperação com os especialistas ou peritos (o médico do trabalho,  o engenheiro de segurança, o higienista industrial, o ergonomista,  o psicólogo, etc.).

Essa grelha de análise classificava os factores de risco no trabalho em quatro grandes grupos (cada um com a sua cor): começava-se por fazer uma comparação entre a casa e a fábrica, para depois se dar conta dos riscos especificamente associados ao meio ambiente fabril e à carga (física e mental) de trabalho (Oddone et al., 1984):

1º Grupo de factores

  • "I fattori presenti anche nell'ambiente dove l'uomo vive",  que o operador reconhece por referência ao modelo habitacional  e que em si não são nocivos  mas que podem sê-lo por excesso  ou por defeito (temperatura, iluminação, humidade, ventilação, ruído, etc.) (cor verde);

  • São factores mensuráveis e para os quais dispomos de instrumentos específicos (audiómetro, termómetro, higrómetro, anemómetro, etc.);

  • Para nenhum deles há valores óptimos embora haja valores máximos aceitáveis de concentração (MAC); a avaliação da sua presença e intensidade é fácil de fazer individualmente ou pelo "gruppo operaio interessato il quale deve confermare o meno la tollerabilità dell'ambiente di lavoro, rispetto a questi fattori attraverso il suo consenso (validazione consensuale)" (p. 9, itálicos nossos).

2º Grupo de factores

  • "I fattori che non sono di norma presenti negli ambienti dove l'uomo vive", factores nocivos ligados à actividade produtiva ou que associamos imediatamente à fábrica e ao trabalho industrial,    tais como gases, poeiras, fumos ou vapores  (sílica, amianto, chumbo, etc.), radiações (ionisantes ou não), vibrações, etc. (cor vermelha);

  • Este grupo de factores de risco é particularmente complexo já que a indústria moderna  veio (e continua a) introduzir, no processo produtivo e em todos os sectores (desde a indústria química à indústria têxtil), um sem número de substâncias químicas nocivas  ou potencialmente nocivas para a saúde humana;

  • "L'identificazione (...) dei fattori del secondo gruppo è legata all'esigenza che il gruppo operaio interessato conosca il processo produttivo sia per quanto riguarda le sostanze impiegata sia per quanto riguarada i prodotti che si formano durante la lavorazione" (p. 10).

3º Grupo de factores

  • "Il terzo gruppo compreende un solo fattore: l'attività muscolare o lavoro fisico (colore giallo)" (p. 8), que pode ser medida em termos de dispêndio calórico e cujos efeitos estão ligados à produção de fadiga (normal ou fisiológica, excessiva ou patológica);

  • O modelo reconhecia, no entanto, que o trabalho físico tendia já  a reduzir-se enquanto aumentava "il lavoro nervoso e mentale";

  • Por seu turno, "la fatica in generale è sempre contemporaneamente fisica e mentale perché la concentrazione mentale e la tensione emotiva accompagnano sempre lo sforzo fisico prolungato e l'affaticamneto nervoso e mentale ha sempre conseguenze sul rendimento muscolare" (p. 11);

  • Aqui a validação consensual é particularmente relevante, cabendo ao "gruppo operaio interessato (...) stabilire i limiti della faticosotà di un lavoro prevalentemente fisico" (p. 11).

4º Grupo de factores

  • Finalmente, o quarto grupo de factores nocivos compreende todas as demais condições de trabalho, "diversa dal lavoro fisico, capace di provocare effetti stancanti" (p. 12) tais como as cadências excessivas, as tarefas repetivas e monótonas, a ansiedade ligada à responsabilidade, os prazos, as posturas corporais,  a frustração, etc. (cor azul);

  • A emergência destes factores está historicamente associada ao taylorismo ("organizzazione scientifica del lavoro"): "In questa fase organizzativa, ogni libertà di iniziativa del lavoratore viene annullata: tempi, ritmi di esecuzione e pausa sono predeterminate. Con l'avvento della meccanizzazione nelle industrie, il lavoratore viene transformato in una semplice appendice della machina, costretto in un ruolo puramente esecutivo" (p. 12, itálicos nossos);

  • As implicações do taylorismo para a saúde e a autonomia do trabalhador são claras: "La predeterminazione dei movimenti era stata presentata all' epoca di Taylor come un 'risparmio di energie' [ economia do esforço]. É ormai universalmente riconosciuto che il lavoro rimizzato, a ritimi predeterminatti, costringe il lavoratore a compiere dei movimenti definiti ed uguali secondo tempi prefissati, in contrasto con le cadenze spontanee del comportamento individuale, in contrato comn il 'tempo individuale, caratteristico della personalità" (p. 12, itálicos nossos).

  • Para além de excluir o operário de uma 'participação conscientee inteligente', o trabalho taylorizado "provoca anche un affaticamento difficilmente recuperabile, non riconducibile ad una causa di origine fisica, ma di origine psichica", a então chamada fadiga industrial;

  • Para o modelo operário italiano de análise das condições de  trabalho, "gli 'effetti stancanti' [do verbo stancare, provocar cansaço] non devono supperare il limite rappresentato dalla possibilità per l' uomo di vivere una vita sociale completa dentro e fuori la fabbrica, nel contesto temporale delle ventiquattro ore, della settimana, dell' anno e dell' intera vita" (p. 12, itálicos nossos).

 

Cada grupo de factores era relacionado com os efeitos nocivos que podia produzir (classificados em acidentes, doenças profissionais e  doenças relacionadas com o trabalho) bem como com as normas (técnicas e legais) em vigor.

Contrariamente aos métodos ditos objectivos (Graça, 1985), aqui a ênfase era dada aos factores de risco e aos riscos do trabalho, sem os misturar com outros factores que eventualmente pudessem ser valorizados como positivos, favoráveis ou satisfatórios e que, numa avaliação global, acabavam muitas vezes por ocultar os primeiros.

 

2. Princípios e Implicações do Modelo
   

Na génese e desenvolvimento deste modelo, há algumas datas importantes a ter em conta (Castillo e Prieto, 1983):

 

Data

Facto

1961 Realização dos famosos inquéritos operários (na Fiat e na Olivetti)
1968 Criação da revista Rasegna di Medicina dei Lavoratori, órgão do importante centro de investigação e documentação CRD (Centro de Richerche e di Documentazione sui Rischi  e sui Danni da Lavoro)
1968/69 Generalização do modelo em Itália. Publicação da brochura Ambiente di Lavoro.
1974 A revista do CRD passa a intitular-se Medicina dei Lavoratori
1977 Primeira edição de Ambiente di Lavoro. La Fabbrica nel Territorio (organizado por Oddone et al.)

 

Princípios básicos do modelo:

a) Os riscos no trabalho não podiam ser  objecto de reparação ("La salute non si paga");

b) Deveria privilegiar-se a protecção colectiva e eliminar-se as causas ou origens dos riscos profissionais;

c) A defesa da saúde dos trabalhadores não se delegava a ninguém;

d) Os trabalhadores eram os mais interessados na protecção da sua saúde e também os mais competentes para decidir sobre as suas próprias condições de trabalho;

e) O conhecimento das condições de trabalho devia levar à sua transformação através da reivindicação operária, da contratação colectiva e da luta sindical.

 

Implicações do modelo:

a) Conhecer não por conhecer mas para agir e mudar;

b) Os trabalhadores passavam de objecto passivo a sujeito activo da investigação-acção;

c) A não delegação significava:

  • A recusa dos trabalhadores em entregar ao médico, ao engenheiro, aos serviços de saúde e, muito menos, ao patronato a protecção da sua saúde e segurança no trabalho;

  • A apropriação/socialização do conhecimento científico   por parte do colectivo de trabalhadores;

  • O retorno à fábrica e ao colectivo de trabalhadores dos resultados da investigação;

  • E, por fim, a validação consensual (avaliação de uma situação de trabalho através do consenso dos trabalhadores interessados).

Ao mesmo tempo, denunciava-se a tendência patronal para utilizar a ergonomia ("che studia l'adattamento del lavoro all'uomo") apenas na perspectiva da correcção e em intervenções de tipo cirúrgico sobre as instalações, os instrumentos e os equipamentos, "lasciando essenzialmente immodificato il rapporto tra lavoratore ed ambiente produttivo" (novas formas de organização do trabalho, melhoria das condições físicas e psicossociais de trabalho, etc.) (p. 15).

A "alternativa operaia" ao modelo patronal  era "un ambiente di lavoro nel quale non solo sia assente ogni fattore nocivo, ma siano anche soddisfatte le esigenze dell' uomo" (p. 16).

O modelo alternativo  era possível com base na socialização e na utilização por parte do homem trabalhador, "delle scoperte scientifiche in tutti i campi, a cominciare dalla psicologia e dalla medicina del lavoro"... Para isso, era necessário que a classe operária fosse "protagonista della ricerca per costruire un ambiente di lavoro a misura dell' uomo" .

Sem a participação dos trabalhadores,   "l'obiettivo finale dell' ergonomia sarà rappresentato, nella migliore delle ipotesi, dalla 'stalla modello'  [estábulo modelo] "

 

Referências bibliográficas / Bibliography

 

BAGNARA, S., BIOCCA, M., MAZZONIS, D. G. (1981) - Trends in occupational health and safety policy in Italy. Int. J. Health Serv.. 11: 3 (1981) 431-450.

BAGNARA, S., MISTI, R. e WINTERSBERGER, H. (eds.) (1985) - Work and health in the 1980s: Experiences of direct workers’ participation in occupational health. Berlin: Sigma.  1985.

CASTILLO, J. J.; PRIETO, C. (1983) -  Las condiciones de trabajo: por un enfoque renovador de la Sociología del Trabajo. Madrid: Centro de Investigaciones Sociológicas. 1983.

GRAÇA L. (1985) - Condições de trabalho e saúde ocupacional: uma abordagem psicossocial. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 3: 2 (1985) 27-38.

ODDONE, I. et al. (eds.) (1984) - Ambiente di lavoro. La fabbrica nel territorio. 2ª ed. Roma: Ediesse (1ª ed., 1977).

 

(a) Graça, L. (2000) - 'La salute non si paga': o modelo operário italiano de análise das condições de trabalho. Lisboa:  Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde.  Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa. Texto policopiado ( Textos, T 1433).

 

 

Última actualização:  5 de Abril  de 2005 / Last update: April 5,   2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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