Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work |
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65. Graça, L.; Henriques, A. Isabel (2000) - Proto-história da Enfermagem em Portugal. II Parte [ History of the Portuguese Nursing. Part Two ](a) (b) |
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| Continuação Contrariamente à medicina, à cirurgia e à farmácia, a enfermagem não constituía propriamente um ofício de arte aprovada para cujo exercício fosse necessário a competente autorização do físico-mor ou do cirurgião-mor. Por outro lado, e até praticamente ao Século XX, não era reconhecida a especificidade dos cuidados de enfermagem. Da leitura dos regimentos hospitalares (v.g., Hospital Termal das Caldas da Rainha, Hospital Real de Todos os Santos), depreende-se que o conteúdo funcional da enfermagem se resumia, no essencial, aos cuidados básicos a ministrar aos doentes, para além das tarefas de limpeza e higiene das enfermarias. Em português vernáculo, a sua principal função era "o carrego dos doentes", o que implicava nomeadamente:
No Hospital Real de Todos os Santos (HRTS) havia já um esboço de diferenciação do pessoal de enfermagem, estando os cuidados de higiene e limpeza atribuídos aos enfermeiros pequenos (pessoal auxiliar ou de acção médica, como diríamos hoje). Pelo contrário, no caso do Hospital de Rocamador, pertencente à misericórdia do Porto, era reduzido o corpo de oficiais (entre mordomos, físicos, cirurgiões, sangradores, espritaleiras, enfermeiros e capelães):
A hospitaleira, por sua vez, estava encarregada da capela, devia fechar e abrir as portas e janelas, assistir com os mordomos às refeições dos doentes e acompanhar estes últimos em caso de falecimento. Quanto à enfermeira, competia-lhe:
De acordo com preceitos, de resto, já codificados no regimento do do HRTS, a enfermeira do Hospital Rocamador deveria estar também presente na visita médica e escrever "o que lhe mandarem fazer, e [os doentes] houverem de comer, nas tabuínhas dos leitos, e fará lembrança por escrito de fora, do que se mais mandar fazer de novo a cada um, sendo necessário" (citado por Basto, 1934, p. 338). Deveria igualmente assistir às sangrias, "para dizer o de que hão de ser, e quantas são" e, da mesma maneira, assistir às refeições dos doentes, "para se dar a cada um o que lhes está ordenado". De madrugada, visitaria os doentes "e os fará alimpar e lançar roupa lavada, onde for necessária". Competia ainda à enfermeira "mandar fazer as camas e varrer as casas todas as vezes que for necessário", fazer o inventário das roupas do hospital, bem como coser e concertar essa roupa, "quando lhe for possível" (sic), o que deixa pressupor que já na altura não lhe sobraria muito tempo para tantas tarefas. Presume-se, além disso, que não haveria pessoal masculino na área de enfermagem, contrariamente ao que se passava num grande hospital como o de HRTS, em Lisboa. O citado regimento indicava inclusive as horas a que se devia fazer o comer para os doentes e mandava a cozinheira ajudar "as mais Irmãs" (isto é, a hospitaleira e a enfermeira) "a dar de comer e ministrar o mais que for necessário aos enfermos", sempre que estivesse desocupada. Quanto às mulheres "que servem de fora o Hospital" (pessoal, portanto, não residente), cabia-lhes a limpeza, a faxina e outros trabalhos auxiliares:
Em 1578, há notícia da existência de apenas "três mulheres, além da lavadeira" no Hospital Rocamador. Em 1561, uma destas mulheres recebia, em dinheiro, 800 réis, além de vestuário e calçado. Em contrapartida, uma cozinheira ganhava o dobro (1600 réis), mais vestuário, calçado e géneros alimentícios (que representariam outro tanto). No início do Séc. XVIII, e num típico hospital da misericórdia como o de Guimarães, vamos encontrar uma enfermeira entre o pessoal (ou "serventes"). As funções de enfermagem continuavam a limitar-se à prestação de cuidados básicos. A separação por sexos persiste, com a enfermeira a tratar das mulheres e o hospitaleiro a tratar dos homens. As tarefas são sempre as mesmas: receber os doentes, fazer serviço de vela, mudar as camas, manter limpa a enfermaria, assistir às sangrias, amortalhar os cadáveres, etc., embora o hospitaleiro tivesse também outras obrigações. A hospitaleira (em geral, mulher do hospitaleiro) encarregava-se, por seu turno, da cozinha (Costa, 1996, pp. 171-172). Por outro lado, nunca ou raramente há uma referência, em documentos escritos da época que vai da Idade Média ao fim do Antigo Regime, à figura da enfermeira, religiosa ou laica, fora do contexto hospitalar, emparceirando-a por exemplo com os outros praticantes de artes médicas que, com ou sem autorização do físico-mor ou do cirugião-mor, pululavam pelas vilas e cidades: curandeiros, algebristas (ou endireitas), emplastradeiras, sangradores, parteiras e aparadeiras, dentistas, cristaleiros, abafadores, etc. Muito simplesmente, não se fala do(a) enfermeiro(a) como alguém que domina uma técnica ou um saber-fazer específico. Dele(a) se espera apenas que trate dos doentes com muita paciência, diligência e caridade. Dele(a) se exige apenas que seja homem (ou mulher), "caridoso, e de boa condição, e sem escândalo" (de acordo com o Regimento do Hospital Real de Todos os Santos, 1504). A enfermagem é provavelmente o mais antigo dos deveres à seguir à reproduçãoimposto às mulheres nas sociedades humanas patriarcais. Há 150 anos atrás iria, entretanto, dar-se os primeiros passos com vista à profissionalização desta função. Afastadas do sacerdócio, as mulheres nem por isso deixaram de desempenhar um papel de relevo, embora discreto, na prestação de cuidados aos doentes pobres, primeiro como diaconisas, na Igreja do Oriente, e depois como monjas no Ocidente (Graça, 1996). Apesar da tendência, já no Antigo Regime, para a secularização do pessoal que prestava cuidados básicos aos enfermos, o termo monástico irmã (ou irmãzinha) vai manter-se como sinónimo da mulher que está encarregada de uma enfermaria. Uma vezes era nomeada de entre o pessoal de enfermagem ou de assistência aos doentes; noutros era recrutada de entre as mulheres domésticas da classe alta. A falta de qualificação e a negligência quer das matronas quer das irmãs em relação ao cumprimento dos seus deveres estão suficientemente documentadas em países como a Inglaterra (Graça, 1996). Embora se façam alguns piedosos esforços para melhorar a qualidade dos cuidados de enfermagem, a situação não se alterou, no essencial, na primeira metade do Séc. XIX. Há todavia uma melhor compreensão humana dos problemas que tradicionalmente enfrentava a enfermagem, compreensão essa a que não será estranho o efeito de halo provocado pelo exemplo pioneiro de Florence Nightingale (1820-1910). Mesmo nos próprios provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa (Graça, 1998), não há referência às irmãs (a não ser enquanto seres assexuados). Em geral, os frades são mais zurzidos do que as freiras nestas representações sociais estereotipadas que são os provérbios, embora o tradicional anticlericalismo também esteja mesclado de atitudes misóginas e sexistas:
Sobre a mulher, há inúmeros provérbios, todos eles reveladores de uma mentalidade doentia, alimentada pelo mito judaico-cristão do pecado de Adão e Eva, que vê na mulher um ser diabólico:
Em contrapartida, são raras as referências às enfermeiras ou à enfermagem:
O mito da enfermeira como anjo da guarda à cabeceira do doente, esse, vai ser uma construção social do romantismo inglês e da sociedade vitoriana, ao fazer de Florence Nightingale "the lady with the lamp" ou "the ministering angel".
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Referências Bibliográficas / Bibliography |
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BASTO, A. M. (1934) - História da Misericórdia do Porto, Vol. I. Porto: Santa Casa da Misericórdia do Porto. COSTA, A.F.S. (1996) - A Misericórdia de Guimarães (...) GRAÇA, L. (1998) - 'Em Lisboa nem sangria má nem purga boa': Representações sociais da saúde/doença e dos praticantes da arte médica nos provérbios em língua portuguesa. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Escola Nacional de Saúde Pública, Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde, Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde, texto policopiado, 31 pp. (Textos, T 1320). |
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( a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: Uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa (Textos, T 1238 a T 1242). (b) Ana Isabel Henriques é enfermeira especialista no Hospital de Garcia da Orta, Almada (Transferiu-se, entretanto, para o Centro de Saúde do Fundão em finais de 2004). |
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Última actualização: 22 de Fevereiro de 2008 / Last update: February 22, 2008. |
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© Luís Graça (1999-2008). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
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