Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work |
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76. Graça, L. (2000) - Representações Sociais da Saúde, da Doença e dos Praticantes da Arte Médica nos Provérbios em Língua Portuguesa. Parte IV: 'Não Provam bem as Senhoras que se Metem a Doutoras' [ Portuguese Sayings About Health and Health Care. Part Four ] (a) |
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| Parte I: 'Muita saúde, pouca vida porque Deus não dá
tudo' 1. Introdução: Arqueologia da língua e do saber 2. A representação da doença e do doente
Parte II: 'Deus cura os doentes e o médico recebe o dinheiro' 3. Estereótipos em relação aos médicos e à medicina 3.1. O "mata-são" 3.2. "Médico velho, cirurgião novo e boticário coxo" 3.3. "A vida é curta e a arte é longa" 3.4. "Com malvas e água fria faz-se um boticário num dia" Parte III: 'Em
Lisboa nem sangria má nem purga boa' 4. Hospital, pobreza e caridade 4.1. "Mal por mal antes cadeia que hospital" 4.2. A doença como "punição e expiação" e o hospital como "instituição totalitária" 4.3. "Dar aos pobres é emprestar a Deus" 4.4. "Quando pobre come frango, um dos dois está doente" 4.5. "Ao doido e ao toiro dá-lhe o curro"
5. Contestação da Iatrogénese, da Medicina Defensiva e do Encarniçamento Terapêutico
Parte IV: 'Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras' 6. Ocultação do corpo e poder médico 7. Enfermagem: Misogenia e sexismo
Parte V: 'Pés quentes, cabeça fria, cu aberto, boa urina - Merda para a medicina' 8. A arte de bem conservar a saúde 8.1. "Mais que curar o mal, a arte deve prevenir" (Escola de Salerno) 8.2. "Trata da tua saúde, que depois nós tratamos de ti" (Estado Novo) 9. Dos asclepíades aos médicos de família Referências bibliográficas |
Curiosamente, não há provérbios na língua portuguesa que tenham como objecto explícito a parteira ou a comadre, uma figura que durante séculos foi rival do padre e do médico, e cujo poder assentava na proibição, imposta aos homens, de assistir aos partos. Os que chegaram até nós, vindos dos tempos medievos, têm mais a ver com o parto e têm a conotação bíblica da maldição divina, lançada sobre a mulher que se deixou seduzir pela serpente, comendo a maçã da árvore do paraíso e dando-a a seguir a comer ao homem: "Multiplicarei os sofrimentos do teu parto, darás à luz com dores" (Géneses, 3:16). Talvez por que este é um campo cheio de interditos ao homem ou por que os construtores de provérbios sejam misóginos e sexistas (Quadro XIII). Gomes (1974. 10) chama, aliás, a atenção para "as correlações e assimilações tantas vezes existentes entre a mulher e o animal - a mulher, base da pirâmide na sociedade sacra-feudal, o animal enquanto utensílio rural e objecto agrícola" (Itálicos meus). Por outro lado, e como muito bem sublinha Joaquim (1983. 84), no seu ensaio sobre as práticas e crenças da gravidez, parto e pós-parto em Portugal, "o saber médico, científico, não pode perceber (...) a função que do ponto de vista individual, social, essas mulheres [ as parteiras ou aparadeiras ] tinham - elas rodeavam, permitiam o grito das mulheres como uma das maneiras da mulher poder viajar no seu imaginário, nesse corpo-a-corpo, como momento de renascimento que é [ para ela ] deitar ao mundo, dar à luz". Na sua História do pudor, Bologne (1996. 94) interroga-se sobre a aparentemente estranha razão de ser da ocultação do corpo, a qual irá abrir, na Idade Média, "um parêntesis de mil anos" (sic) na evolução do conhecimento e das técnicas terapêuticas. Contrariando o provérbio Naturalia non turpa ("O que é natural não envergonha"), há um pudor médico que atravessa todo este período até ao Século XIX, o século burguês por excelência. De facto, entre as classes altas oitocentistas não só não é de bom tom como é socialmente reprovável uma mulher ir sozinha à consulta médica, devendo para tal fazer-se acompanhar do marido, promovido à condição de zeloso guardião das virtudes domésticas e intrépido defensor da moral pública e dos bons costumes. Ironicamente, o mesmo século que interdita às mulheres o exercício da medicina ("não provam bem as senhoras que se metem a doutoras"), é também aquele que se deleita com o nu artístico romântico de um Delacroix ou a sensualidade requintada de um Ingrès mas não tolera o realismo de um Courbet (As banhistas, 1853) ou o impressionismo de um Manet (O almoço na relva, 1863, Olímpia, 1865). A história das mentalidades ajuda-nos, por isso, a perceber melhor a divisão sexual (e sobretudo social) que ainda hoje atravessa o campo da prestação de cuidados médicos. Reportando-nos à Idade Média, sabe-se que muitos dos primeiros físicos e cirurgiões estavam ligados ao clero regular. O ensino e a prática médicas, no Ocidente cristão medieval, é inseparável do desenvolvimento do monaquismo, tal como o hospital. Mas o advento da universidade irá criar uma clivagem entre médicos e cirurgiões e, no caso destes últimos, entre cirurgiões religiosos e laicos. O próprio vestuário serve para acentuar as diferenças de estatuto, ontem como hoje: enquanto o cirurgião já trajava fato comprido, o barbeiro vestia um simples fato curto; ambos eram, todavia, a par do físico e dos restantes praticantes da arte médica classificados como oficiais mecânicos. Muitos dos físicos e cirurgiões, na Península Ibérica, são judeus, e o seu número tende a aumentar há medida que a Igreja, através dos Concílios de Clermont (1130) e de Latrão (1179), interdita ao clero o direito de derramar sangue, o mesmo é dizer, (i) participar em actividades bélicas, (ii) praticar a cirurgia, (iii) exercer a medicina e, (iv) em última análise, ver e tocar o corpo. A cirurgia laiciza-se, ao mesmo tempo o cirurgião que se vê confinada a um estatuto social inferior ao do médico. "Tocar o corpo humano será até ao Renascimento um domínio reservado ao cirurgião, que lhe deve o nome. Só no Século XVI os professores de anatomia porão a mão no cadáver nos anfiteatros universitários: até aí, comentavam de cátedra as dissecações praticadas por um auxiliar..." (Bologne, 1996.94. Itálicos meus). A medicina continuará a ser, por mais uns séculos, uma profissão sábia (savante, como dirão os franceses): historicamente, até finais do Século XIX. Mas já nos finais do Século XVII e princípios do Século XVIII, as coisas começam a mudar. A pouco e pouco, torna-se também uma profissão consultante. A partir de Boherhaven e da sua abordagem clínica do corpo, em Leiden, na Holanda (veja-se o seu fabuloso museu da ciência e da medicina), começamos a ver o médico sentado à cabeceira do (ou debruçado sobre o) doente. Por outro lado, o hospital continuará a ser até tarde (até à II Guerra Mundial, pelo menos) um lugar de passagem para o médico.
A proibição da dissecação de cadáveres, tanto entre os judeus como entre os cristãos e os muçulmanos (os crentes das três principais religiões monoteistas), não permitiu o desenvolvimento dos conhecimentos e técnicas cirúrgicas que, durante muitos séculos, se circunscreveram aos ensinamentos greco-romanos. Com os romanos, a cirurgia militar tinha feito alguns notáveis progressos, que serão depois retomados no Renascimento. No Séc. XVI, o francês A. Paré (1510-1590) vem melhorar os bárbaros métodos de amputação até então utilizados, ao inventar o penso e idealizar a laqueação vascular, em substituição da cauterização das feridas com óleo a ferver ou ferro em brasa em caso de amputação (Sournia, 1995. 164-167). Mas a própria cirurgia ressentia-se da proibição, mais acentuada depois do Século XIV, de dissecar cadáveres, "uma outra forma de pudor", segundo Bologne (1996. 95), o qual, no entanto, relativiza essa proibição, dizendo que se trataria mais de um respeito (primordialmente cristão) pela dignidade do ser humano do que uma interdição, propriamente dita, imposta por Roma, apesar da força que tinha então um édito papal (o de Bonifácio I). Como sucedâneo dos estudos de anatomia humana, passa-se a recorrer à autópsia, ao embalsamamento e à vivissecção de animais ou até mesmo à dissecação de cadáveres, furtivamente exumados e roubados nos cemitérios ou simplesmente descidos do cadafalso. Será preciso, todavia, esperar pelo Renascimento para que a paixão pelo estudo anatómico do corpo humano se sobreponha ao pudor imposto pela religião. A medicina alia-se então à arte. Cite-se o exemplo, por demais conhecido, da intensa colaboração entre Leornardo Da Vinci e o anatomista Marco Antonio della Torre. Outros grandes artistas, como Miguel Ângelo, Dürer ou até Veronese dedicaram-se ao estudo da anatomia. A arte acaba por influenciar o próprio nu médico. Em jeito de síntese, pode dizer-se no Século XVI assistiu-se a uma verdadeira explosão do nu representado, logo seguida de reacções de pudor na época da Contra-Reforma:
O pudor vai então entrar nos livros de medicina, a partir do Século XVII. Para ilustrar a anatomia do homem e da mulher, escolhe-se o Adão, com a sua parra, e a Eva com a sua delicada mão sobre o púbis. Em muitas gravuras de anatomia, o véu volta a cobrir o sexo do cadáver em cima da mesa de dissecação. Noutros casos, ainda mais ridículos, o cadáver está de ceroulas ou crescem-lhe flores à volta do sexo! É uma situação tanto mais paradoxal - comenta Bologne (1996. 99), "quanto a época clássica, que voltou a vestir as pranchas anatómicas, vulgarizou o estudo da anatomia, multiplicando as aulas públicas". A anatomia torna-se um assunto mundano: "Nos salões, é de bom tom apadrinhar sociedades eruditas em que as damas seguem cursos de anatomia. Mas é altura de lhe vigiar a linguagem e a matéria". Este paradoxo terá o seu triunfo no Século XIX: "O século que admite - com um sorriso cúmplice - que uma mulher pose nua para um pintor tolera mal que ela se dispa perante o seu médico". É também o século que, como já o dissemos, interdita às mulheres a prática da medicina. Ao longo da Idade Média e, depois no Antigo Regime, a prática da medicina não estava teoricamente interdita às mulheres. Mas a partir do momento em que o diploma universitário passou a ser obrigatório para o exercício da profissão, o número de mulheres médicas (que nunca fora grande) tenderá a diminuir. Quanto à cirurgia, há um decreto de Luís XV, de 19 de Abril de 1755, que em nome do pudor masculino vem proibir às mulheres "a qualidade de endireitas ou dentistas e de qualquer outra parte da cirurgia, excepto a relativa aos partos" (cit. por Bologne, 1966. 100. Itálico meu). É também a partir do Século XVII que o médico se começa a intrometer na esfera da moral e dos costumes, tendência mais generalizada no Séc. XVIII, tanto antes como depois da Revolução Francesa. Em nome das Luzes, ele acaba por dar caução aos discursos moralizadores da sua época ou por impor um discurso normativo, seja a propósito da histeria feminina, do onanismo, das doenças venéreas, das relações sexuais durante a gravidez, dos caprichos da moda como o uso do espartilho de barbas de baleia, da limpeza do corpo e da casa, da alimentação, do crime e da loucura, ou simplesmente da querela entre parteiros e parteiras (Barbaut, 1991). O poder societal do médico vai-se alargando, e curiosamente a partir duma questão-tabu que era então a indissolubilidade do casamento. Para os teólogos da Igreja, nada podia separar um homem e uma mulher que Deus unira para sempre. Havia apenas uma excepção: a partir do Século XII, a impotência e a frigidez passam a ser reconhecida como "impedimento dirimente do casamento". Mas a obtenção da prova não era fácil... No Séc. XVI surge a famosa "prova do congresso" (Belogne, 1996. 103): O Parlamento de Paris irá considerá-la "inútil e infamante" em 1677:
O que importa sublinhar é o papel que as comadres e os médicos desempenham na prova do congresso:
A partir de 1677, as parteiras deixam de ser admitidas em peritagens exclusivamente masculinas, desta vez em nome do pudor masculino mas sobretudo porque o seu papel passava então a ser completamente inútil. O médico acabava assim de liquidar um dos seus mais poderosos adversários: a comadre, parteira ou sage femme (Barbaut, 1991). Em que é que se fundava o poder da comadre ?
Médicos e cirurgiões começam a retirar clientela à sage femme que, por outro lado, se vê ameaçada com o aparecimento dos primeiros parteiros no reinado de Luís XIV. O povo, galhofeiro, chamava-os então "as comadres de ceroulas". O greco-romano Sorano (98 a.C.-77) é considerado o "pai da obstetrícia e da ginecologia", com o seu tratado sobre as Doenças das Mulheres. É preciso esperar, no entanto, pelo Séc. XVII, para que estes dois domínios especializados da medicina conheçam alguns progressos assinaláveis (Lyons e Petrucelli, 1991):
Até ao Séc. XVII, era relativamente raro (e sobretudo perigoso) um homem assistir a um parto. Cita-se o caso de um cirurgião de Hamburgo, o Dr. Wert, que foi condenado à morte por satanismo (!) e executado em 1522 por ter tido a ousadia de assistir a um parto, disfarçado de parteira (Barbaut, 1991. 142). Mas os tempos vão mudar: eram frequentes os acidentes em partos difíceis, o que inquietava os médicos, já desde os tempos dos greco-romanos e, depois, dos árabes. Até então a experiência da sage femme era mais relevante do que os conhecimentos na matéria, para além dos preconceitos morais e religiosos que afastavam o homem do leito da parturiente. Mas, no caso dos partos difíceis, era importante a força muscular. A solução deste velho problema irá ser um trunfo para o médico e o cirurgião, independentemente do estado da arte no domínio da ginecologia e da obstetrícia. A morte, em consequência de parto, da duquesa de Orleães, em 1627, irá pôr em causa a reputação das parteiras da corte e alimentar durante mais de um século uma querela com os cirurgiões. Em 1633, é já um parteiro (o primeiro que se conhece em França) a assistir ao parto de um dos filhos bastardos de Luís XIV. Será, pois, pela "via uterina", a das amantes reais, que os cirurgiões passam a ter acesso à corte. Mas nesta querela os médico irão, curiosamente, tomar o partido das parteiras contra os cirurgiões, por razões que estão longe de ser inocentes:
Parece então haver um recuo táctico. Ao parteiro ensina-se-lhe a tocar sem olhar. surgem os tratados obstétricos a recomendar o lençol estendido entre o pescoço do parteiro e a cintura da parturiente (1681) ou os tratados de ginecologia a ensinar como se deve proceder a uma exame completo debaixo do vestido da mulher (1822). Dos maléficos ou estranhos poderes das mulher prenhada ainda chegarão ecos até ao nosso Séc. XX, obrigando o médico a relembrar o velho ditado latino Naturalia non turpia e a refrasear o velho juramento de Hipócrates que interditava ao praticante da arte de curar a sedução ou outras formas de envolvimento pessoal com os doentes, de ambos os sexos. Neste caso, efebos aparte, "as mulheres que não julguem decente mostrar um pudor temeroso... Para um médico, por mais bem parecido que ele seja, a cliente é apenas uma ficha e uma ocasião de fazer bem. Ela que não espere outra coisa", escrevia em 1930 um ilustre médico francês (cit. por Bologne, 1996. 111). Em conclusão: se, até ao Século XIX, repugnava à mulher confiar-se à mão do macho (o que para o sociobiólogo será devido a um qualquer determinismo genético), "o desaparecimento das comadres e a raridade das médicas acabou por impor a regra inversa: o obstétrico continua a ser o domínio onde [ ainda hoje ] a mulher é mais dificilmente aceite" (Bologne, 1996. 111). Mas não terá sido tanto o pudor feminino como sobretudo a religião que impôs à medicina a ocultação do corpo. Só na época de Luís XIV é que o médico marca pontos em matéria de liberdade face ao corpo. É a época em que aparecem os parteiros mas também aquela que viu nascer o "pudor masculino" e em que as doenças venéreas se tornam "vergonhosas". Por outro lado, a unificação da profissão médica ainda está muito longe de se realizar. Oficiais do mesmo ofício, médicos e cirurgiões vão continuar a digladiar-se até praticamente ao Séc. XX.
Quadro XIII Provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa sobre a gravidez e o parto
Em termos de estatuto, os médicos continuam a estar, apesar de tudo, abaixo dos juristas e do alto funcionalismo do Estado absolutista ou da sociedade senhorial do Ancien Régime, embora já pertençam ao mesmo grupo social em ascensão (que são os letrados, os clercs, em francês):
Em pleno Século das Luzes, o francês P.- J. Desault (1738-1795) irá depois desenvolver o ensino da cirurgia à cabeceira do doente hospitalizado, podendo ser considerado o Boherhaave da cirurgia. É, de resto, um século em que a curiosidade científica irrompe por todo o lado:
No nosso caso, sabe-se que às parteiras já lhes também exigido carta ou registo de actividade (pelo menos no caso da cidade de Lisboa). Todavia, o exame obrigatório perante o cirurgião-mor só será exigido às parteiras no Século XVII, de acordo com o estipulado no respectivo Regimento de 12 de Dezembro de 1631 (Lemos, 1881, cit. por Joaquim, 1983. 84-85). Esse exame passaria a ser extensiva também aos sangradores, algebristas e dentistas, em como a outros indivíduos com conhecimentos particulares (endireitas, etc.). "É evidente que estas parteiras tinham um papel diminuto e actuavam somente nas cidades; nos campos continuavam a assistir aos partos as aparadeiras" (Joaquim, 1983. 85). É também nesta época que aparecem os primeiros esboços de tratados ginecológicos, obstétricos e pediátricos, entre nós, geralmente sob a forma de capítulos de livros dedicados à vulgarização da medicina:
Segundo Joaquim (1983. 85), o aparecimento destas obras seria um sintoma de "uma preocupação que começa a existir [ no Antigo Regime ] pelo modo como o parto se desenrola e pelas práticas que são utilizadas". Mas, ao mesmo tempo, este interesse seria também revelador da preocupação e intenção de as "submeter a um certo controlo médico":
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| 7. Enfermagem, Misogenia e Sexismo | |||||||||
Grande parte do pessoal que prestava cuidados básicos aos doentes, pertencia originariamente a ordens religiosas e militares ou a confrarias e irmandades. Ao longo do tempo surgem referências a enfermeiros maiores e enfermeiros pequenos (nomeadamente no Regimento do Hospital Real de Todos os Santos, de 1504), hospitaleiros e hospitaleiras, irmãos e irmãs, religiosos e religiosas, enfermeiras ou simplesmente mulheres, servas ou serventes. A enfermagem está historicamente associada ao desenvolvimento do monaquismo, tal como o ensino e a prática da medicina. No mínimo, cada mosteiro tinha já:
Muito simplesmente, não se fala do enfermeiro(a) como alguém que domina uma técnica ou um saber-fazer específico. Dele(a) se espera apenas que trate dos doentes com muita paciência, diligência e caridade. Dele(a) se exige apenas que seja homem (ou mulher), "caridoso, e de boa condição, e sem escândalo" (de acordo com o Regimento do HRTS, de 1504). Havia já, contudo, um esboço de diferenciação do pessoal de enfermagem, estando os cuidados de higiene e limpeza atribuídos aos enfermeiros pequenos (Graça 1994). Contrariamente à medicina e à cirurgia, a enfermagem não constituía propriamente um ofício de arte aprovada para cujo exercício fosse necessário a competente autorização do físico-mor ou do cirurgião-mor do reino. Por outro lado, e até praticamente ao Século XX, não é reconhecida a especificidade dos cuidados de enfermagem. Da leitura dos regimentos hospitalares (por ex., Hospital Termal das Caldas da Rainha, Hospital Real de Todos os Santos), depreende-se que o conteúdo funcional da enfermagem se resume, no essencial, aos cuidados básicos a ministrar aos doentes, para além das tarefas de limpeza e higiene das enfermarias. Em português vernáculo, a sua principal função é "o carrego dos doentes", o que implicava nomeadamente (Graça, 1996):
A enfermagem é provavelmente o mais antigo dos deveres a seguir à reprodução imposto às mulheres nas sociedades humanas patriarcais. Há cem anos atrás, iria tornar-se, contudo, a primeira profissão feminina, organizada pelas próprias mulheres. Afastadas do sacerdócio, as mulheres nem por isso deixaram de desempenhar um papel de relevo, embora discreto, na prestação de cuidados aos doentes pobres, primeiro como diaconisas, na Igreja do Oriente, e depois como freiras no Ocidente. Apesar da tendência para a secularização do pessoal que prestava cuidados básicos aos enfermos, o termo monástico irmã (ou irmazinha) vai manter-se como sinónimo da mulher que está encarregada de uma enfermaria (Quadro XIV). Umas vezes era nomeada de entre o pessoal de enfermagem ou de assistência aos doentes; noutros era recrutada de entre as mulheres domésticas da classe alta. A falta de qualificação e a negligência quer das matronas quer das irmãs em relação ao cumprimento dos seus deveres estão suficientemente documentadas em países como a Inglaterra (Graça, 1996). Na realidade, quem prestava os cuidados técnicos de enfermagem (como diríamos hoje) não eram as nurses, mas os estudantes de medicina. Embora lhes fosse exigido, como requisito mínimo, o saber ler e escrever, as administrações hospitalares da época tinham que se contentar com as mulheres analfabetas, por dificuldades de recutamento de pessoal. Em suma, tratava-se de uma ocupação indigna de uma respectable woman. Não admira, por isso, que o seu comportamento fosse muitas vezes reprovável e reprovado. Os livros de registo da maior parte dos hospitais ingleses da época dão-nos conta da impressionante frequência de casos de enfermeiras que eram admoestadas ou demitidas por alcoolismo, insolência, falta de disciplina, absentismo, roubo ou extorsão praticada na pessoa dos doentes. Embora se façam alguns piedosos esforços para melhorar a qualidade dos cuidados de enfermagem, a situação não se alterou, no essencial, na primeira metade do Século XIX. Há todavia uma melhor compreensão humana dos problemas que tradicionalmente enfrentava a enfermagem, compreensão essa a que não será estranho o efeito de halo provocado pelo exemplo heróico e pioneiro de Florence Nightingale (1820-1910).
Mesmo nos próprios provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa, não há referência às irmãs de caridade (a não ser enquanto seres assexuados). Em geral, os frades são mais zurzidos do que as freiras nestas representações sociais estereotipadas que são os provérbios, embora o tradicional anticlericalismo também aqui esteja mesclado de atitudes misóginas e sexistas (Quadro XIV):
Sobre a mulher, há inúmeros provérbios, todos eles reveladores de uma mentalidade predadora e doentia, alimentada pelo mito judaico-cristão do pecado original, e que vê nela um ser desprezível mas diabólico:
Em contrapartida, são raras as referências às enfermeiras ou à enfermagem no feminino:
O mito da enfermeira como anjo da guarda à cabeceira do doente, esse, vai ser uma construção social do romantismo inglês e da sociedade vitoriana, ao fazer de Florence Nightingale "the lady with the lamp" ou "the ministering angel". Na literatura portuguesa do Séc. XIX, vamos encontrar ecos desta heroína romântica em personagens como a Margarida, a mulher-anjo de As Pupilas do Senhor Reitor (Júlio Dinis, 1863): "Durante a moléstia [ que atingiu a sua madrasta, a mãe de Clara ], foi Margarida desvelada e incansável enfermeira, colhendo sempre, em paga dos seus carinhos, modos rudes e ásperos, expressões inequívocas da aversão que nunca deixara de sentir por ela. A heróica rapariga não afrouxava por isso na afectuosa caridade com que a tratava" (Dinis, 1986. 103. Itálicos meus). |
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(a) Versão inédita |
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Última actualização: 10 de Março de 2005 / Last updated: March 10, 2005 |
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© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
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