Luís Graça:  História da Saúde e do Trabalho  (2.2) / Health and Labour History (2.2)

História da Medicina e da Saúde / History of Medecine and Health                                          página / page     2/6

 

Quadro I   - Alguns factos relevantes para a história da medicina e  da saúde em Portugal , na Europa e no resto do Mundo (Da  Antiguidade Clássica ao  Século  XX): 2. Idade Média (477-1477)

Ano Portugal Europa e Resto do Mundo
489 A seita cristã dos nestorianos instala-se na Pérsia. Fundação do hospital e escola médica de Gundishapur. Tradução para o árabe e preservação, nos séculos seguintes, de muitos dos textos médicos da antiguidade greco-romana.
534 Publicado o código do imperador Justiniano (que reinou entre 527 e 565), contendo cláusulas sobre a administração hospitalar. Desenvolvimento do monaquismo e dos hospitais no império romano do Oriente.
622 Início da era muçulmana.
630/670 O império omíade estende-se da Pérsia até à Tunísia.

Fundação do Hotel-Dieu de Paris (ca. 650)

711 Os árabes invadem a Península Ibérica. 
719 Fundação do mosteiro beneditino de Sankt Gallen
756 Córdova, capital do califado omíade (756-1031), e símbolo do esplendor do Al-Andalus. Será tomada pelo rei de Castela em 1236.
768 Carlos Magno é proclamado imperador (m. 814).
786 Início do califado de Hârun al-Rashîd (m. 809) que funda, em Bagdade, o primeiro hospital no império islâmico.   A segunda grande dinastia árabe, a dinastia abássida, vai de 758 a  1258.O império muçulmano vai-se fragmentar em Estados independentes. A sociedade muçulmana é essencialmente urbana (v.g., Córdova, Cairo).
809 Nasce Hunain ibn-Ishaq (m. 877), um médico nestoriano que escreveu o primeiro texto em árabe sobre oftalmologia. Traduziu em árabe e sírio grande parte da obra de Galeno.
820 A alegada descoberta dos restos mortais apóstolo Jacob (São Tiago, em português) está na origem do santuário e da cidade de Santiago de Compostela bem como da enorme vaga de peregrinações  entre os Séculos X e XIV (Em 1987, o caminho francês de Santiago será eleito O Primeiro Itinerário Cultural Europeu).
825 Planta arquitectónica do mosteiro beneditino de Sankt Gallen (actual território da Suiça), contendo um hospital, um jardim botânico, uma albergaria e uma hospedaria. Representava o modelo ideal de convento da épooca carolíngia.
850 Nasce o persa al-Râzî (Rhazès) (m. 923), autor do primeiro tratado sobre a varíola e o sarampo.
904 Desenvolvimento da primeira escola médica na Europa, em Salerno. Atingirá o seu apogeu por volta de 1240. É considerada um exemplo de convivência pacífica e frutuosa das três culturas mediterrânicas (cristã, muçulmana e judaica).

O Regimen sanitatis salernitanum, um compêndio de medicina doméstica sob a forma de provérbios, tornou-se um dos textos medievais mais populares, com mais de 300 edições em diversas línguas, depois da invenção da imprensa. É considerado um documento pioneiro da educação para a saúde.

910 Fundação da ordem de Cluny.
936 Nasce al-Zahrâwî (Albucassis) (m. 1013), no califado de Córdova, sendo o único árabe a escrever um notável tratado sobre cirurgia (incluído no seu compêndio, al-Tasrif)
962 Criação do Sacro Império Romano-Germânico
980 Nasce Ibn Sînâ (Avicena) (m. 1037). Faz a síntese da medicina greco-árabe. A sua autoridade é comparável à de Galeno. O seu Cânone da medicina (em árabe, al-Qanum) vai ser até meados do Séc. XVII o manual do ensino médico no Ocidente.
1010 Nasce Constantino, o Africano (m. 1087), que fez inúmeras traduções de textos médicos do árabe para o latim medieval. O seu contributo para a instauração da tradição hipocrática e galénica em Salerno será decisivo.
1054   Cisma ortodoxo: A Igreja bizantina separa-se da Igreja de Roma. A ruprura com o Ocidente consuma-se com o saque de Constantinopla, por ocasião da 4ª Cruzada (1204). Declínio de Bizâncio. No Séc. XII o comércio entre o Oriente e o Ocidente é dominado pelos mercadores italianos (Veneza, Génova, Pisa).
1073   Reforma Gregoriana. O Papa Gregório VII (1083-1085) tenta impor a autoridade espiritual e temporal do papa. Reforço do poder do clero. Desenvolvimento de novas ordens religiosas.
1085   Início da Reconquista da Península Ibérica, com a tomada de Toledo, por Afonso de Castela. Toledo vai tornar-se um centro cultural de grande prestígio no Séc. XII. É, com o reino normando da  Sicília, a porta de entrada da cultura árabe no Ocidente
1095 O Papa Urbano II exorta os cristãos a lutarem contra os infiéis. Início das Cruzadas (até 1270), a que se associa o desenvolvimento da lepra no Ocidente. Em 1099 é tomada a cidade santa de Jerusalém (reconquistada por Saladino em 1187).  Importância das ordens militares dos Hospitalários e dos Templários.

1096

Doação do condado portucalense a D. Henrique, cavaleiro franco, pai de D. Afonso Henriques, fundador do futuro reino de Portugal (em 1143).
1112 Construção do mosteiro de Savior Pantocrator, em Constantinopla. Desenvolvimento da organização hospitalar como estabelecimento técnico de cuidados diferenciados.

1120

Fundação, por iniciativa de D. Teresa, da albergaria que terá dado origem ao toponónimo Albergaria-a-Velha, no caminho de Santiago.
1126 Nasce Averróis em Córdova (m. 1198); o filósofo hispano-árabe que tenta fazer a síntese entre o aristotelismo e o islamismo. Tem igualmente escritos sobre medicina.
1130 O Concílio de Clermont e depois o de Latrão (1179) interditam ao clero o direito de derramar sangue e, consequentemente, de praticar medicina.

1131

Início da construção do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Introdução (em 1134) da Regra de Santo Agostinho pelos cónegos regrantes. Criação posterior dos primeiros estudos médicos, depois de alguns cónegos do mosteiro terem ido formar-se ao estrangeiro
1150 Gerardo de Cremona (m. 1187) traduz para latim o Cânone de Avicena. Em 1142 o Corão já tinha sido traduzido para latim na cidade de Toledo, por Pedro, o Venerável, abade de Cluny.

1152

Fundação da abadia cistercense de Alcobaça. Irá abrir, em 1269, a primeira escola pública. Teve ainda uma notável actividade no campo da assistência, entre outros.
1188 Data provável da criação da Universidade de Bolonha.  Outras das primeiras universidades europeias: Valência (1209), Oxford (1214), Paris (ca. 1215), Montpellier (1220), Nápoles (1224), Pádua (1228), Cambridge (1229), Toulouse (1229), Salamanca (1230), etc.

1189

Vinda, com os cruzados da Europa do Norte, os Eremitas de Santa Maria de Roca-Amador; até 1459, espalham-se por diversos estabelecimentos hospitalares e similares, prestando cuidados de enfermagem e exercendo funções de administração.

1190

Até 1210, o território é assolado por várias fomes e pestes, associadas às invasões dos Almóadas e à guerra com o reino de Leão, no tempo de D.Sancho I (m. 1211).

1211

Início do reinado de D. Afonso II (m. 1223, vítima de lepra).Política de centralização jurídico-administrativa, inspirada no direito romano. Primeira lei de desarmotizações. Conflitos com a nobreza e a Igreja.

1220

Provável data da fundação da gafaria de Lisboa, atribuída aos Hospitalários.
1240 Data provável da fundação da Misericórdia de Florença.

1245

Pedro Hispano, nascido em Lisboa, lecciona medicina em Siena; será o futuro João XXI, o único papa português (m.1276).

1255

Crescente importância de Lisboa como sede da coroa e dos serviços régios.

1258

Fundado o Hospital dos Meninos de Lisboa, pela rainha D. Beatriz, mulher de D. Afonso III (m.1279); é considerado o mais antigo recolhimento para crianças, órfãos e enjeitados.
1266 Luís VIII estabelece para França o regulamento das leprosarias, que seriam na época cerca de duas mil.

1279

Início do reinado de D. Dinis (m. 1325);

Reforço da política de centralização administrativa e da identidade nacional; em 1296 o português será adoptado, como língua vulgar, pela chancelaria régia.

Expansão do comércio marítimo.

1284 Construção no Cairo do grande hospital al-Mansuri.

1290

Início oficial do ensino médico, com a criação da universidade (Studium Generale); até 1377, as instalações da universidade localizaram-se quer em Lisboa quer em Coimbra; a sua fixação definitiva em Coimbra data de 1537, por acção de D.João III.

1308

Primeiro documento de intervenção régia na administração de albergarias, hospitais, confrarias, capelas e órfãos. Grave crise alimentar no Ocidente até 1318.
1311 Decreto de Clemente V (Quia contingit) contra os abusos das administrações de hospitais e outros estabelecimentos assistenciais.

1315

A peste e a fome tornam-se um fenómeno cíclico, neste caso devido às más colheitas (até 1317)

1321

Fundado o Hospital de Meninos de Santarém, pela rainha Santa Isabel.

1323

Honorários anuais dos lentes do Estudo Geral (em libras): mestre de leis, 600; de cânones, 500; de medicina e de gramática, 200; de lógica, 100; e de música, 50.

      1324

Fundada a mais antiga mercearia de que há notícia em Portugal.

      1329

Regimento do Hospital de S. Lázaro de Coimbra, outorgado por D. Afonso IV (m. 1357), com vista a prevenir futuros abusos por parte da administração da gafaria.

    1333

Novo período de fomes (até 1334).

1348

Até 1352, a peste negra devasta o país que perde mais de um terço da sua população.

D. Pedro I sobe ao trono em 1357 (m. 1367): O seu reinado é marcado pelos efeitos da crise de meados do Séc. XIV e pela afirmação do centralismo laico e estatal.

A peste negra desvasta o Ocidente, enquanto a lepra entra em regressão.

 

     1358

Novos surtos de peste (até 1365);

Tomadas medidas repressivas e sanitárias para impedir o alastramento da doença, incluindo a perseguição às feiticeiras e a discriminação contra os judeus;

Continuação dos efeitos da crise agrícola europeia no reinado de D. Fernando (m. 1383).

      1383

Início da dinastia de Avis, com D.João I (m. 1433);

Política de reforço do poder régio;

Crescente autonomia do aparelho administrativo central, em relação à família real e à corte;

Política de expansão marítima.

      1389

Inicia-se, pela primeira vez, um esforço de compilação e sistematização de todas as leis em vigor, tarefa que será concluída no reinado de D. Afonso V (m. 1481), com as Ordenações Afonsinas (1447).

      1392

Primeira disposição legislativa relativa ao exercício da medicina: obrigatória a obtenção de uma licença real, após prestação de provas perante o físico-mor.

      1412

Crise cerealífera, fome e peste (de que morrerá a rainha D. Filipa de Lencastre, em 1415, na véspera da conquista de Ceuta); nova crise alimentar em 1418.

      1418

O infante D. Pedro começa a redigir o seu Livro da Virtuosa Benfeitoria, um tratado de moral prática dirigido sobretudo à nobreza; será regente entre 1438 e 1448.

       1422

Nova crise cerealífera e fome (até 1427), enquanto os navegadores portugueses vão desvendando a costa de África até ao cabo Bojador;

Novo ciclo de crise alimentar entre 1436 e 1441.

      1429

Surto de peste, que se repetirá em 1432, 1435 e 1437-1441;

D. Duarte morre em 1438, provavelmente em resultado deste último surto; escreveu o Leal Conselheiro (1437).

1439

Muitos dos alunos universitários portugueses vão acabar os seus estudos no estrangeiro (Bolonha, Paris, Oxford).

1448

Regimento do Cirurgião-Mor: passa igualmente a ser obrigatória a prestação de provas de habilitação para a prática da cirurgia.
1450 Mais de 70% dos rendimentos do Hôtel-Dieu de Beauvais (cidade a norte da Île-de-France) são provenientes da exploração agrícola directa, com destaque para o vinho e o trigo.

1452

Crise cerealífera e fome (até 1455).

1453

Data provável da Crónica do Descobrimento e Conquista Guiné. Gomes Eanes de Zurara descreve aí uma cena pungente de partilha de escravos, em Lagos, a que terá assistido o infante D. Henrique (m. 1460). Queda de Constantinopla e fim do império romano do oriente. Fuga para a Itália de sábios que ensinam o grego e traduzem para latim alguns dos clássicos da medicina grega (e nomeadamente Hipócrates).

Fim da Guerra dos Cem Anos.

1455

Primeiros indícios de recuperação demográfica, apesar de novo surto de peste (1456-1458).

1461

Separação das competências do físico-mor e do cirurgião-mor;

Reconhecimento das funções dos boticários, que passam a substituir os físicos na preparação dos medicamentos.

1462

Início do povoamento do arquipélago de Cabo Verde, com escravos negros e cativos mouros.

1464

Peste, seguida em 1467-68, 1472-73, e 1475-78, de novas crises cerealíferas e fomes.

1473

A universidade era então frequentada por 41 moços, filhos de nobres e de funcionários da corte, a expensas do rei D. Afonso V.

1472

Políptico de S. Vicente ou da Veneração, uma obra-prima da pintura portuguesa, da autoria de Nuno Gonçalves; nele figuram os membros da família de Avis e representantes de todos os estratos sociais.

1476

O Regimento do Físico-Mor, outorgado por D. João II, enquanto regente, obriga os diplomados pela universidade a prestar provas públicas, antes de começarem a exercer medicina.

1477

Peste (até 1479).

  

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Última actualização: 15 de Fevereiro   de 2004 / Last updated: February 15, 2004. 

© Luís Graça (1999-2004). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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