Luís Graça:  História da Saúde e do Trabalho  (2.3) / Health and Labour History (2.3)

História da Medicina e da Saúde / History of Medecine and Health                                                   página / page     3/6

 

Quadro I   - Alguns factos relevantes para a história da medicina e  da saúde em Portugal , na Europa e no resto do Mundo:   3. Renascença e Início da Construção do Estado Moderno (1479-1620)

Continuação

 

Ano

Portugal

Europa e resto do Mundo

1477   Impressão, em alemão, dos primeiros livros médicos. A imprensa tinha sido inventada, em 1452, pelo alemão Johannes Gutenberg (1397-1468). A imprensa vai permitir a difusão da nova cultura humanista (a redescoberta da Antiguidade e  uma nova visão do homem), de que o poeta italiano Petrarca (1304-1374) é o grande precursor.
1478   Impressa a primeira enciclopédia médica (De re medicina, da autoria do romano Celso (Séc. I a.C.).

1479

Início da política de centralização hospitalar:   A bula pontifícia de Xisto IV (de 13 de Agosto) autoriza o então ainda príncipe regente D. João, a integrar o património dos pequenos hospitais e albergarias num novo e grande hospital, que irá chamar-se, em 1491, o Hospital Real de Todos os Santos.  

1481

Início do reinado de D. João II (m. 1495), que irá dominar com mão de ferro a política externa e interna.

Instalada em Lisboa a Casa da Mina.

 

1484

D. Leonor funda o Hospital Termal das Caldas da Rainha.  

1487

Impressão do primeiro livro em Portugal (em língua hebraica).  
1488 Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança  
1490   Teatro anatómico de Pádua.

1491

D. João II assiste pessoalmente ao lançamento da primeira pedra do Hospital Real de Todos os Santos (15 de Agosto).  

1492

Muitos dos judeus expulsos de Espanha refugiam-se em Portugal (estima-se o seu número em 60 mil); entre eles, figura o médico e astrólogo Abraão Zacuto que publicará em 1496 o Almanach Perpetuum, uma obra de grande importância no domínio da astrologia e da navegação. Descoberta do Novo Mundo, por Cristóvão Colombo. Com a conquista de Granada pelos Reis Católicos de Espanha, desaparece o último reino mouro da  Península Ibérica.
1493 Passa a haver duas cadeiras de medicina na universidade, a de Prima e a de Véspera.  
1494   Tratado de Tordesilhas entre Portugal e a Espanha (uma verdadeira linha de partilha do Novo Mundo)
1495   Surto agudo e fulminante de sífilis em Nápoles. O termo aparece num poema (1530), de G. Fracastoro (1483-1553). A sua obra De contagione et contagionis morbis (1546) pode ser considerada um trabalho pioneiro de epidemiologia.
1496 Início das discriminações contra os judeus e os mouros, no reinado de D. Manuel (m. 1521); em 1497, são baptizados à força; o decreto de expulsão não é cumprido; os judeus passam a chamar-se "conversos" ou "cristãos-nobvos" e os mouros, "mouriscos".

Aprovação do Regimento proveytoso contra a pestenença.

 
1497 Regimento dos boticários de Lisboa, dado pelo respectivo município (25 de Agosto).  
1498 Criação da Misericórdia de Lisboa, por acção de D. Leonor e D. Manuel I.  
1499 Instituídas as Misericórdias do Porto e de Évora. Em 1500, a de Coimbra.

Aprovação do compromisso original da irmandade da Misericórdia de Lisboa.

 
1500   Executada a primeira operação cesariana (Suiça).

1502

Diversos regimentos e reformas manuelinas (entre eles, o Regimento dos Oficiais das Vilas, Cidades e Lugares destes Reinos).  

1503

Surto de fome e de epidemia.  

1504

Regimento do Hospital Real de Todos os Santos.

Regimento das Capelas, Hospitais, Albergarias e Confrarias da Cidade de Lisboa.

 

1505

Grande epidemia de febre tifóide: Faz numerosas vítimas em Lisboa e alastrará à província em 1507.

O tombamento mandado efectuar por D. Manuel permitiu identificar cerca de 500 instituições assistenciais, das quais 200 seriam hospitais com um total de 2500 camas.

 

1506

Motins anti-judaicos em Lisboa, sob instigação do baixo clero e com numerosas vítimas.

Legislação sanitária (Alvará de 27 de Setembro).

 

1510

Novo surto epidémico.  

1512

Aprovado o compromisso do Hospital Termal das Caldas da Rainha.

Ordenações manuelinas.

 

1514

Conclui-se a reforma geral dos legados pios e estabelecimentos assistenciais (Regimento de como os Contadores das Comarcas Hão-de Prover sobre as Capelas, Hospitais, Albergarias, Confrarias, Gafarias, Obras, Terças e Residos)  
1516   Erasmo (1469-1536) propõe a sua tradução latina do Novo Testamento a partir do original grego, distanciando-se assim da versão oficial da Bíblia (a vulgata,  da autoria de São Jerónimo, entre 391 e 406). Ruptura também também em relação à escolástica, a teologia e a filosofia ensinadas na universidade medieval.

1517

D. Leonor assiste à representação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, no Hospital Real de Todos os Santos. Início das reformas protestantes, com a afixação, em 31 de Outubro, das 95  teses de Martinho Lutero (1483-1546), na porta da igreja de Wittenberg. Excomungado em 1521. O termo protestantismo nasce em 1529 quando os príncipes alemães, seguidores de Lutero, "protestam diante de Deus", contra o Imperador Carlos Quinto que lhes recusa a liberdade religiosa (só conseguida com a paz de Augsburgo,  em 1555).

1520

Criação régia da Casa da Saúde, no Vale de Alcântara, em Lisboa, destinada às vítimas de peste (ou suspeitos de contágio); é a versão portuguesa do lazzaretto italiano (Séc. XV). O suiço T. B. von Hohenheim (1493-1541), dito Paracelso, "maior que Celso", queima publicamente as obras de Galeno e Avicena, e passa a leccionar em alemão (em vez do latim), pelo que foi criticado e perseguido.

1521

Os boticários passam a estar sujeitos à obrigação geral de exame de aprovação.

Início do reinado de D. João III (m. 1557).

Grave crise de fome e surto de epidemias (até 1523), na sequência de maus anos agrícolas.

Os três estabelecimentos hospitalares administrados pela Câmara Municipal do Porto são anexados à Misericórdia local.

 
1522   Um cirurgião de Hamburgo é executado por ter assistido a um parto, disfarçado de mulher.

1524

Auto dos Físicos, de Gil Vicente.  

1526

D. João III manda criar 50 bolsas de estudo para estudantes portugueses poderem frequentar a Universidade de Paris.  

1527

Primeiro numeramento da população do reino: cerca de 1,37 milhões de habitantes e 280 mil fogos; Lisboa: 50 a 60 mil habitantes; Porto: 15 mil.

Notícias de grande pestenença, obrigando D. João III a abandonar Lisboa.

 

1529

Regressa a Portugal Amato Lusitano (1511-1568), depois de frequentar a Universidade de Salamanca onde teve como condiscípulo o grande médico espanhol André Laguna; a sua condição de cristão-novo obrigá-lo-á ao exílio em 1534.  

1531

Terramoto em Lisboa.

Pedida a Roma autorização para o estabelecimento da Inquisição (ou Santo Ofício).

 

1532

Criação da Mesa da Consciência e Ordens, com competências, entre outras, de supervisão dos estabelecimentos assistenciais.  

1533

Erasmo de Roterdão (1466-1536) é convidado por D. João III a leccionar em Portugal.  

1534

Garcia da Orta (c.1501-1568) parte para Goa como físico do capitão-mor; em 1563, publicará Colóquio dos Simples, e Drogas e Cousas Medicinais da India; cristão novo, será perseguido pela Inquisição mesmo depois de morto.  

1536

Estabelecimento da Inquisição (por bula de 23 de Maio);

Em 1547, o Santo Ofício passa ter um duplo estatuto, o de tribunal eclesiástico e tribunal da Coroa (Bula Meditatio cordis, de 16 de Julho), nos mesmos moldes que o espanhol; serão instaurados mais de 40 mil processos até ao tempo do Marquês de Pombal.

Amato Lusitano publica em Antuérpia a sua obra Index Dioscoridis.

 

1537

Reforma joanina da Universidade, já marcada pelo espírito da Contra-Reforma; sua transferência definitiva para Coimbra.  

1538

Lei contra a mendicidade.  
1539   Criação da Companhia de Jesus, que irá desempenhar um importante papel ideológico no movimento da contra-reforma e na missionação.

1540

O número de alunos do curso de medicina é de 10, num total de 642 estudantes universitários;

Primeiros autos-de-fé;

Os jesuítas estabelecem-se em Portugal.

 

1543

Fundação das primeiras misericórdias do Brasil. O belga André Vesálio (1514-1564) funda a moderna anatomia, ao sistematizar a observação minuciosa do corpo humano (De humani corporis fabrica, o primeiro grande atlas do corpo humano), na esteira de L. da Vinci (1452-1519). Copérnico publica De revolutionibus orbium coelestum.
1545   Concílio de Trento (1545-1563): início da reforma católica ou contra-reforma.

Primeiro jardim botânico, na Universidade de Pádua. Desenvolvimento da botânica, na sequência das Descobertas e do conhecimento de novas drogas vegetais

1547

Primeira lista de livros proibidos pelo Santo Ofício.  

1551

Referenciada a existência de mais de 400 praticantes de artes médicas, devidamente autorizados, na cidade de Lisboa (que tem cerca de 100 mil habitantes)  

1553

Fundação do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, pelos jesuítas.

O licenciado Jorge Fernandes é nomeado cirurgião-mor do Brasil.

A circulação pulmonar é descoberta quase em simultâneo, embora separadamente pelo espanhol M. Servet (1511-1553) e pelo italiano R. Colombo (1510-1559), discípulo de Vesálio.
1556 (ca.)   Brueghel pinta O triunfo da Morte.
1557   Regimento dos hospitais londrinos.
1560   Nasce Peter Chamberlain, o Velho (m.1631). Inventará o fórceps obstétrico. A família mantem a descoberta em segredo durante quase um século
1561   O italiano G. Fallopio (1523-1562), sucessor de Vesalio e de Colombo em Pádua, publica Observationes Anatomicae. Descobriu numerosas estruturas anatómicas (v.g., trompas de Falópio).

1562

A administração dos hospitais do reino é entregue às misericórdias, incluindo o Hospital de Todos os Santos (em 1564), em que a figura do provedor passa a ser designada por enfermeiro-mor.  
1563   Concílio de Trento. Início da contra-reforma. A inquisição persegue os cristãos-novos.
1564   Nasce o italiano Galileo Galilei (m. 1642), um dos fundadores do método experimental

1565

Mestre Afonso, cirurgião da Índia, publica o Itinerário, descrevendo o roteiro feito, por terra e mar, de Ormuz a Portugal.

Aos sangradores e às parteiras passa também a ser-lhes exigido carta ou registo de actividade.

 

1568

Sobe ao trono D. Sebatião (desaparecido em 1578, na batalha de Alcácer Quibir).  

1569

Fundada a misericórdia de Macau.

A Peste Grande (até 1570) assola o país e faz elevado número de vítimas (cerca de 60 mil em Lisboa).

 

1570

Alvará reconhece três modos de vida: viver como senhor ou amo; ter oficio ou mester; negociar o seu ou o alheio. Repressão da mendicidade.  

1572

Regimento dos Offciaes Mecanicos da Cidade de Lisboa (de Duarte Nunes de Leão).

Primeira edição dos Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

O francês A. Paré (1510-1590) funda a moderna cirurgia militar. Melhorou os métodos de amputação, ao inventar o penso e idealizar a laqueação vascular, em substituição da cauterização nas amputações.
1574   O Hôtel-Dieu Saint-Jacques, de Toulouse , é em grande parte destruído por um enorme incêndio, o que era frequente nos hospitais da época (Em 1759, 1770 e 1772, sofre grandes inundações).

1580

Novo surto de peste provocando elevada mortalidade.

Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Início da dinastia filipina.

 

1598

Novo surto de peste (até 1603), agravado pela crise agrícola e a fome (1596-1600).  
1599   O holandês Z. Janssen (1580-1628) inventa o microscópio, atribuído igualmente a Galileu que, por sua vez, inventou o telescópio (1609).

1603

A peste bubónica desaparece do território português (com excepção do Algarve, em que irá ressurgir por meados do Séc. XVII; haverá ainda o surto epidémico em 1899, no Porto; nos Açores mantém-se endémico até mais tarde.

Publicação das Ordenações Filipinas.

 

1604

Primeira associação médica em Portugal, a Arca dos Médicos, como resultado do antagonismo entre cristãos-novos e cristão-velhos;

Perdão geral aos cristão-novos.

 

1612

Reforma filipina dos estatutos da universidade. O italiano Santorio Santori (1561-1636) inventa o termómetro clínico cuja divulgação, no entanto, só se fará a partir do final do Séc.XVIII.
1619 Deliberações da Câmara de Lisboa relativas à limpeza da cidade e e aos despejos (no mar e em zonas demarcadas). Deliberações também quanto ao plantio de árvores (álamos pertos, faias, ferixos e outras) ao longo das estradas e caminhos públicos  

1620

Surto epidémico de tabardilho (tifo exantemático, com elevado número de vítimas;

Lisboa é então a maior cidade da pensínsula ibérica (cerca de 165 mil habitantes, dos quais 10 mil são escravos); apesar de tudo, menor que Londres, Paris ou Nápoles.

A mortalidade hospitalar anda à volta dos 20% (no Hospital Real de Todos os Santos).

O holandês J. Van Helmont (1577-1644) descobre o gás carbónico; identifica a diabetes e analisa a ureia sanguínea e o suco gástrico; mas é também um dos partidários da geração espontânea  

 

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Última actualização:  21 de Abril de  2005 / Last updated:  April 21,   2005. 

© Luís Graça (1999-2005).  E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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