Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work |
página / page 105 |
105. Graça, L. (2000) - Profissões de Saúde: Especialização Técnica, Diferenciação Social [ Health Professions: Technical and Social Division of Labour ](a) |
||
|
|
|
|
1. A especialização médica |
|
|
|
Embora a tendência para a especialização médica já se começasse a desenhar anteriormente, é nesta fase de evolução dos serviços de saúde (a que chamámos o sistema profissional liberal: desde meados do Séc. XIX até à II Guerra Mundial) que surgem as primeiras especialidades. É o caso da oftalmologia, laringologia, urologia, ginecologia, obstetrícia, pediatria, psiquiatria, cirurgia, anestesiologia, radiologia, estomatologia, etc. Lyons e Petrucelli (1991. 538) apontam três razões principais para a divisão do trabalho em medicina, de acordo com a lógica dominante imposta à produção industrial sob o impulso do desenvolvimento do capitalismo:
Data de 1846 o início da anestesiologia, com a primeira intervenção cirúrgica em que o éter sulfúrico é publicamente usado como anestésico, por um odontólogo americano W. Morgan (1819-1868). Outros dois americanos já tinham utilizado antes outro anestésico conhecido, o óxido nitroso gasoso (o chamado gás hilariante): C. Long, em 1842, e H. Wells, em 1844. Em 1847, o clorofórmio é introduzido pelo escocês J. Y. Simpson (1811-1870), primeiro em obstetrícia e depois em cirurgia, permitindo intervenções cirúrgicas demoradas. Na época, o parto sem dor, por ser contrário à verdade bíblica, não deixou de ser alvo da condenação das igrejas cristãs, e nomeadamente da calvinista. Durante um século, na Grã-Bretanha, o clorofórmio tornou-se o anestésico mais utilizado, até que se descobriu o seu poder tóxico e os seus efeitos prejudiciais para o fígado. Noutros países, incluindo Portugal, o éter teve melhor aceitação (Lyons e Petrucelli, 1991). O protóxido de azoto acabaria, entretanto, por se impor na anestesia geral. De qualquer modo, abria-se a porta para o avanço da cirurgia, até então "limitada pela dificuldade em controlar a dor operatória e pelas devastadores infecções pós-operatórias" (Lyons e Petrucelli, 1991. 528):
Em resumo, "os órgãos menos acessíveis tornam-se agora ao alcance dos cirurgiões (..). No final do século, enquanto os médicos continuam a lamentar a pouca acção das suas terapêuticas medicamentosas, os cirurgiões pelo contrário podem orgulhar-se das suas intervenções. Nenhum limite parece poder opor-se à sua destreza. Na verdade, muitas dificuldades permanecem por resolver" (Sournia, 1995. 273-274), nomeadamente a morbimortalidade pós-operatória que continua a ser muito importante. O desenvolvimento da neurologia e psiquiatria (ou melhor, da neuropsiquiatria) decorre, em grande parte, dos progressos realizados em disciplinas fundamentais como a anatomia, a fisiologia e a patologia:
Antes de todos eles, já Ph. Pinel (1745-1826) tinha lançado as bases da psiquiatria, ao fazer a distinção (fundamental) entre loucos e criminosos, e ao propor novos métodos de tratamento da doença mental, que até então se resumiam à repressão, à estigmatização e à exclusão social. É desta época a criação do precursor do moderno hospital psiquiátrico. Discípulo de Pinel, J. Esquirol (1772-1840) será o inspirador, em 1838, da lei francesa, considerada exemplar para a época, "que institui a protecção jurídica dos alienados, até aí submetidos com demasiada frequência a internamentos excessivos e tratamentos desumanos" (Sournia, 1995. 277). Em todo o caso, a evolução da psiquiatria na Europa e nos EUA não será pacífica, estando originalmente muito marcada pela concepção organicista da doença mental e pela institucionalização do doente mental, a par da ineficácia ou controvérsia dos métodos terapêuticos. Por exemplo, no período entre as duas grandes guerras mundiais, por volta de 1936, iria generalizar-se o uso do electrochoque em psiquiatria (Cerletti, Itália). E nove anos antes, em 1927, o português A. E. Moniz (1874-1955) executava a primeira angiografia cerebral no homem. E, em 1935, a leucotomia pré-frontal, uma técnica neurocirúrgica para o tratamento de certas psicoses (Ser-lhe-á atribuído o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949). A evolução de conceitos no campo da saúde mental pode ser ilustrada pelo facto de, por exemplo, a actual Associação Americana de Psiquiatria, com cerca de 32 mil membros individuais, ser herdeira da Association of Medical Superintendents of American Institutions for the Insane (1844) (DeHaan, 1990). Como diz Sournia (1995. 277), nessa época continuavam a "não se distinguir as perturbações nervosas das perturbações mentais". Neste domínio, vamos assistir à consagração os trabalhos simultâneos de Pinel, já citado, de Benjamin Rush (1745-1813), nos Estados Unidos e, em Inglaterra, de Thomas Trotter (1760-1832). Todos eles podem ser considerados "os primeiros alienistas especializados" . A criação da psicanálise, com Freud, em 1882, vem trazer novas perspectivas de abordagem, tratamento e prevenção da doença mental e das perturbações de comportamento mas será preciso esperar algumas décadas para a sua aceitação pelo establishment médico-científico. Fundada em 1911, a American Psychoanalytic Association é, ainda hoje, claramente minoritária em relação a sua congénere psiquiátrica (cerca de 2700 membros individuais na década de 1980 (DeHaan, 1990). Entretanto, será preciso esperar mais de meio século para que, nos EUA, a partir de 1960, se desenvolva a corrente da saúde mental comunitária, pondo em causa a total institution que até então tinha sido o hospital psiquiátrico e a própria psiquiatria. A descoberta dos raios X em 1895 pelo alemão W.C. Roentgen (1845-1922) e da radioactividade em 1898 pelos franceses Marie (1867-1934) e Pierre Curie (1859-1906), veio permitir o rápido desenvolvimento das técnicas radiológicas, que se começam a generalizar nos anos 20. O American College of Radiology é fundado em 1923. Ainda antes da II Guerra Mundial, em 1931, é descoberta a electroencefalografia (Berger, Alemanha). Em 1932, E. Ruska (Prémio Nobel da Física, 1986) constrói o primeiro microscópio electrónico de transmissão (CTEM - Conventional transmission electron microscope) (em colaboração com M. Knoll). O CTEM começa a vulgarizar-se com a II Guerra Mundial. A primeira escola de odontologia aparece em 1840, em Baltimore, nos EUA. Em 1859, em Inglaterra, são-se as primeiras licenças para exercício da profissão que, no entanto, continua sob controlo médico. A formação académica passa a ser de quatro anos, tal como a medicina (Luyons e Petrucelli, 1991). O médico francês Pierre Fauchard (1678-1761), com o seu Tratado dos dentes (1728) é considerado o fundador da moderna odontoestomatologia (Sournia, 1995). |
|
2. Um processo de especialização induzido pela procura: O caso norueguês |
|
|
|
No entanto está por explicar a lógica que comanda o processo de especialização no sector da saúde, e em particular a especialização médica que se vai acentuar após a II Guerra Mundial. Tomando como exemplo a Noruega, Hofoss (1986) discute três hipóteses de explicação:
Para entender esse entender o processo de especialização no campo da saúde, podemos partir de um definição de profissão relacionando-a com ocupação e educação: "An occupational group is a profession if its members all (or the overwhelming majority of them) have a specified formal education of considerable duration, and all (or the overwhelming majority of) those who undergo that formal training is geared towards that specific occupation" (Hofoss, 1986. 202. Itálicos meus). Ou seja, o conceito de profissão implica a noção de monopólio: só os médicos podem fazer medicina, só os advogados podem advogar, só os juízes presidir a um tribunal e julgar, etc. Na realidade, as coisas não são tão simples, mesmo quando médicos, advogados ou magistrados, só para citar três exemplos, têm o monopólio legal do exercício das respectivas profissões, o que teoricamente os salvaguardam da concorrência desleal. Como se constrói uma profissão ? Hofoss (1986), como sociólogo, propõe um processo de seis etapas para o profession-building:
No caso da medicina e de outras profissões de saúde este tem sido o caminho seguido. Mas o modelo sociológico não é totalmente convincente, e muito menos para os próprios profissionais de saúde que tendem a explicar a sua origem como uma resposta natural ao progresso científico e tecnológico. É bastante difícil negar, diz Hofoss (1986), que:
Os técnicos de diagnóstico e terapêutica também associam o seu desenvolvimento profissional aos progressos científicos e tecnológicos da medicina. O seu ponto de vista não é meramente ideológico. De facto, eles fazem "um trabalho especializado com base em conhecimento especializado". Mas temos que distinguir aqui dois tipos de especialização baseada no conhecimento científico: uma, que é directa (ou horizontal; e outra, que é indirecta (ou vertical). Há cem anos atrás não havia especialidades médicas formalmente reconhecidas na Noruega. O primeiro reconhecimento de uma especialidade médica só será feita em 1918 pela Associação Médica Norueguesa. Durante muito tempo o João Semana, em Portugal ou na Noruega, detinha todo o conhecimento da arte de curar, na sua cabeça e na sua maleta. Entretanto, a ciência médica explodiu e fragmentou-se, na segunda metade do Séc. XIX e sobretudo depois da II Guerra Mundial. Consequentemente, deixa-se poder contar com o o generalista ou clínico geral para cuidar de todos os tipos de problemas médicos. A tendência será pois para uma divisão de competências e responsabilidades: cirurgia, medicina clínica, medicina laboratorial, etc. Mas até estes sectores especializados eram demasiados vastos:
Em suma, o processo de especialização médica tem, à partida, uma componente auto-defensiva. Ao definir o seu campo de competência, o especialista está também a delimitar a sua área de actuação e de responsabilidade. Pelo contrário, no caso da Noruega, e segundo Hofoss (1986. 204), o processo de especialização assumiu claramente um carácter "ofensivo e auto-confiante". Ou seja, grupos de médicos investem todo o seu tempo e energias no sentido de passarem a controlar áreas específicas do conhecimento científico. Podemos pois falar de uma especialização directa ou horizontal, baseada na ciência e na tecnologia. A especialização indirecta ou vertical far-se-á numa fase posterior:
Por exemplo, só o médico usava o termómetro clínico até a meados do Séc. XIX. Era um elemento básico do acto médico que depois é delegado à enfermeira, como parte das funções de rotina, à medida que se desenvolvem outros meios auxiliares de diagnóstico. A enfermagem bem como a fisioterapia foram, durante muito tempo, dois exemplos de semiprofissões, ou actividades paramédicas, que nasceram de um processo de especialização vertical, independentemente de mais tarde terem vindo a desenvolver o seu próprio campo de competência. Há mais de um século atrás a enfermagem não tinha a preparação académica do médico. Mas as enfermeiras de hoje não são o resultado da profissionalização das suas antecessores do Séc. XIX:
Ou seja, a moderna enfermagem não foi construída a partir de dentro, através de um projecto profissional de auto-reforma. Foram formadas em escolas de enfermagem, não pelas enfermeiras tradicionais com um projecto de melhoria da qualidade da enfermagem, mas pelos médicos dos hospitais que sentiam necessidade de assistentes mais qualificadas do ponto de vista clínico. Os programas de formação dos fisoterapeutas também seguiram a mesma via: os médicos que praticavam a medicina física, em regime liberal, precisavam de assistentes tecnicamente qualificados. A formação da enfermagem como da fisioterapia baseou-se, pois, originalmente nas ciências médicas e foi modelada pelos médicos. Muitas das obras sobre história da medicina esforçam-se por defender este ponto de vista iatrocêntrico, segundo o qual o desenvolvimento do sector da saúde foi propulsionado pela lógica interna da medicina. Só há uma questão intrigante em relação a este ponto de vista, largamente partilhados pelos próprios profissionais, segundo o qual a especialização no sector da saúde é a resposta natural ao progresso científico e tecnológico:
W. G. Rothstein ("Pathology - the evolution of a speciality in American medicine". Med. Care. 17(1979) 975-988, cit. por Hofoss, 1986) demonstrou que há outros factores que explicam a evolução de uma especialidade, para além das estratégias dos profissionais ou das oportunidades teóricas e técnicas. No caso da patologia, como especialidade da medicina americana, o factor decisivo foi a criação de um mercado para este tipo de cuidados. Os problemas e as necessidades de saúde, objectivos ou simplesmente sentidos ou percebidos pelo sector da saúde, são também um factor a ter conta na explicação do processo de especialização. Não espanta, por isso, que em 1918 na primeira lista das especialidades médicas, aprovada pela Associação Médica Norueguesa, aparecesse a tuberculose e que o número de especialistas desta doença (pneumologistas) vá rapidamente aumentar a partir de então. Em suma, a especialização é também função de um mercado da saúde em expansão. Isto não quer dizer que haja uma correspondência directa entre pessoal especializado e necessidades objectivamente medidas. Trata-se sobretudo de um processo de transformação social, mediatizado por mecanismos (ideológicos, legais, económicos, etc.) que permitem a sua emergência e o seu reconhecimento. O desenvolvimento do mercado não chega, contudo, para explicar totalmente a institucionalização da cirurgia plástica, que já era praticada, por exemplo, pelos índios da América do Norte, e perfeitamente ao alcance da medicina ocidental no Séc. XX. Na Noruega, a cirurgia plástica está indissoluvelmente ligada ao progresso científico e ao interesse profissional, se bem que o desenvolvimento tenha sido induzido pela aumento da procura, em resultado da II Guerra Mundial:
A psiquiatria também foi uma das primeiras especialidades a ser reconhecida na Noruega, em 1918, o que não pode ser imputado apenas à voga da psicanálise:
Aliás, em que bases científicas ou técnicas podia a psiquiatria, no Séc. XIX, reivindicar o estatuto de especialidade, pergunta Hofoss (1986) ? A explicação é outra: a criação de um mercado que permitia a um crescente número de médicos dedicarem-se exclusivamente aos problemas de saúde mental:
A reabilitação, em contrapartida, só se desenvolve com a II Guerra Mundial, primeiro para dar apoio médico e psicológico ao pessoal da marinha mercante que, tendo participado na resistência ao ocupante nazi, pretendia agora reorientar a sua vida profissional em terra. Esforços similares foram feitos em prol das vítimas de guerra:
Outros exemplos poderiam ser dados, a partir da experiência norueguesa:
Depois da II Guerra Mundial e na sequência do acelerado desenvolvimento económico e social da Noruega, a rede hospitalar cresceu muito rapidamente:
A falta de pessoal e as soluções adhoc explicam de igual modo o aparecimento dos técnicos de raios X:
Os microbiologistas, os imuno-hematologistas e os patologistas, em guerra com os bioquímicos, também desenvolveram programas de formação para os seus próprios assistentes, os técnicos de laboratório médico, quando verificaram que estes eram formados pelos bioquímicos com uma orientação muito acentuada para a bioquímica. Em conclusão, o processo de especialização médica e muito em particular do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (durante muito tempo classificados como pessoal paramédico e que constituiram o grosso da especialização no sector da saúde norueguês, a seguir à II Guerra Mundial) não pode ser visto apenas como um produto de estratégia profissional nem como um reflexo directo do desenvolvimento científico e técnico.
|
Referências bibliográficas / Bibliography HOFOSS, D. (1986) - Health professions: the origin of species. Social Science & Medecine. 22: 2 (1986) 201-209. LYONS, A. S.; PETRUCELLI, R.J. (1991) - Historia de la medicina. Barcelona: Ediciones Doyma. 1991 (tr. do ingl., 1978). SOURNIA, J.C. (1995) - História da medicina. Lisboa: Instituto Piaget. 1995 (tr. do fr., 199?). Sitografia: 63. Florence Nightingale e Ethel Fenwick: Da Ocupação à Profissão de Enfermagem [ Florence Nightingale and Ethel Fenwick: From Occupational to Profession in Nursing ] 64. Proto-história da Enfermagem em Portugal. Parte I [ History of Portuguese Nursing. Part One ] 65. Proto-história da Enfermagem em Portugal. Parte II [ History of Portuguese Nursing. Part Two ] 69. A Valorização Técnica e Social da Cirurgia durante o Antigo Regime [ Surgeons' Higher Technical and Social Status during the 'Ancien Régime' ] 98. A Medicina Pré-Industrial: O Acto Médico Indivisível [The Profession of Medicine ] 78. Administração hospitalar: da laicização à profissionalização [ Hospital administration: from occupation to profession] 103. Físicos, Cirurgiões, Barbeiros, Parteiras e Outros Praticantes de Artes Médicas: uma História mais de Pudor do que de Poder [ Power, Pudency and Medicine ] 141. Ethel Fenwick: O combate pela profissionalização da enfermagem na Grã-Bretanha e no resto do mundo [ Ethel Fenwick: The struggle for the Registered Nurse in Britain and Worldwide] 173. A arte da enfermagem no Séc. XVIII [ The art of nursing in XVIII century] 177. Portugal: Estrutura liberal da medicina hospitalar até 1971 [ Portugal: Profession of medicine and hospitals until 1971 ] 178. A vida de um médico português na Belle Époque [ Portuguese doctor's life during the Belle Époque ]
|
|
(a) Adapt. de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa. 1996 (Textos, T 1238 a T 1242). |
|
Última actualização: 20 de Novembro de 2007 / Last updated: November 20 20047 |
© Luís Graça (1999-2007). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
|
| index | links | forum | pst_whp | textos_papers | história_history |
|
| dados_data | legislação_laws | citações _quotations | antologia_anthology | cvitae | |