Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

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105. Graça, L. (2000) - Profissões de Saúde: Especialização Técnica, Diferenciação Social   [ Health Professions: Technical and Social Division of Labour  ](a)

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1. A especialização médica

 

 

Embora a tendência para a especialização médica já se começasse a desenhar anteriormente, é nesta fase de evolução dos serviços de saúde (a que chamámos o sistema profissional liberal: desde meados do Séc. XIX até à II Guerra Mundial) que surgem as primeiras especialidades. É o caso da oftalmologia, laringologia, urologia, ginecologia, obstetrícia, pediatria, psiquiatria, cirurgia, anestesiologia, radiologia, estomatologia, etc.

Lyons e Petrucelli (1991. 538) apontam três razões principais para a divisão do trabalho em medicina, de acordo com a lógica dominante imposta à produção industrial sob o impulso do desenvolvimento do capitalismo:

  • O enorme incremento da informação e do conhecimento (v.g., caso da patologia), sob o impulso da revolução bacteriológica;

  • O aparecimento de técnicas sofisticadas que requeriam uma experiência específica (v.g., urologia, laringologia, cirurgia plástica);

  • A produtividade, traduzindo-se em menos horas de trabalho, mais honorários e mais prestígio.

Data de 1846 o início da anestesiologia, com a primeira intervenção cirúrgica em que o éter sulfúrico é publicamente usado como anestésico, por um odontólogo americano W. Morgan (1819-1868). Outros dois americanos já tinham utilizado antes outro anestésico conhecido, o óxido nitroso gasoso (o chamado gás hilariante): C. Long, em 1842, e H. Wells, em 1844.

Em 1847, o clorofórmio é introduzido pelo escocês J. Y. Simpson (1811-1870), primeiro em obstetrícia e depois em cirurgia, permitindo intervenções cirúrgicas demoradas. Na época, o parto sem dor, por ser contrário à verdade bíblica, não deixou de ser alvo da condenação das igrejas cristãs, e nomeadamente da calvinista.

Durante um século, na Grã-Bretanha, o clorofórmio tornou-se o anestésico mais utilizado, até que se descobriu o seu poder tóxico e os seus efeitos prejudiciais para o fígado. Noutros países, incluindo Portugal, o éter teve melhor aceitação (Lyons e Petrucelli, 1991). O protóxido de azoto acabaria, entretanto, por se impor na anestesia geral.

De qualquer modo, abria-se a porta para o avanço da cirurgia, até então "limitada pela dificuldade em controlar a dor operatória e pelas devastadores infecções pós-operatórias" (Lyons e Petrucelli, 1991. 528):

  • Em 1905 é fundada a American Society of Anesthesiologists, embora a anestesia vá continuar durante muito tempo sob controlo dos médicos e cirurgiões;

  • Em 1867, o inglês J. Lister (1827-1912) funda a cirurgia antisséptica, usando fenol (ácido carbólico); 

  • Dá-se assim um passo decisivo na luta contra as infecções hospitalares que durante séculos tinham tornado o hospital um verdadeiro locus infectus;

  • Desenvolve-se, por outro lado, a assepsia (esterilização pelo calor), enquanto a utilização da luva de borracha esterilizada (Halsted, 1852-1922) é outra inovação de grande alcance;

  • Em 1913, é criado o American College of Surgeons;

  • Em 1916, dão-se os primeiros passos no desenvolvimento da cirurgia plástica, na sequência do tratamento dos feridos de guerra, embora já tivesse pioneiros no Séc. XIX, como J.F. Dieffenbach (1795-1847).

  • E em 1921 é criada a microcirurgia, com a utilização do microscópio numa operação de drenagem do ouvido;

  • Já antes o alemão Th. Billroth (1829-1894) tinha feito com êxito as primeiras operações à faringe, à laringe e ao estômago; foi considerado o cirurgião mais inovador da Europa e com maior influência no ensino das técnicas cirúrgicas, nos finais do Séc. XIX (Lyons e Petrucelli, 1991.531);

  • Entre outros, o inglês V. Horsley (1857-1916) deu um importante contributo para a neurocirurgia, ao ser o primeiro a extrair, com êxito, um tumor da medula espinhal (em 1887).

Em resumo, "os órgãos menos acessíveis tornam-se agora ao alcance dos cirurgiões (..). No final do século, enquanto os médicos continuam a lamentar a pouca acção das suas terapêuticas medicamentosas, os cirurgiões pelo contrário podem orgulhar-se das suas intervenções. Nenhum limite parece poder opor-se à sua destreza. Na verdade, muitas dificuldades permanecem por resolver" (Sournia, 1995. 273-274), nomeadamente a morbimortalidade pós-operatória que continua a ser muito importante.

O desenvolvimento da neurologia e psiquiatria (ou melhor, da neuropsiquiatria) decorre, em grande parte, dos progressos realizados em disciplinas fundamentais como a anatomia, a fisiologia e a patologia:

  • As funções do cérebro e do sistema nervoso e o seu papel na saúde/doença começam a ser largamente objecto de investigação por homens como os franceses G. Duchenne (1806-1875), J.M. Charcot (1825-1893), J. Déjerine (1849-1917) e sua mulher, P. Marie (1853-1940) (por sinal, uma das primeiras mulheres a tirar no Séc. XIX o curso de medicina), J. Babinsky (1857-1922), e o inglês J. H.Jackson (1835-1911) (Rosen, 1990; Sournia, 1995);

  • A fundação da neuropsiquiatria é atribuída ao francês J. Charcot (1825-1893) que em 1873 publica Curso sobre as doenças do sistema nervoso; 

  • Posteriormente, o alemão E. Kraeppelin (1856-1926) faz a primeira sistematização e classificação das doenças mentais.

Antes de todos eles, já Ph. Pinel (1745-1826) tinha lançado as  bases da psiquiatria, ao fazer a distinção (fundamental) entre loucos e criminosos, e ao propor novos métodos de tratamento da doença mental, que até então se resumiam à repressão, à estigmatização  e à exclusão social.

É desta época a criação do precursor do moderno hospital psiquiátrico. Discípulo de Pinel, J. Esquirol (1772-1840) será o inspirador, em 1838, da lei francesa, considerada exemplar para a época, "que institui a protecção jurídica dos alienados, até aí submetidos com demasiada frequência a internamentos excessivos e tratamentos desumanos" (Sournia, 1995. 277).

Em todo o caso, a evolução da psiquiatria na Europa e nos EUA não será pacífica, estando originalmente muito marcada pela concepção organicista da doença mental e pela institucionalização do doente mental, a par da ineficácia ou controvérsia dos métodos terapêuticos.

Por exemplo, no período entre as duas grandes guerras mundiais, por volta de 1936, iria generalizar-se o uso do electrochoque em psiquiatria (Cerletti, Itália). E nove anos antes, em 1927, o português A. E. Moniz (1874-1955) executava a primeira angiografia cerebral no homem. E, em 1935, a leucotomia pré-frontal, uma técnica neurocirúrgica para o tratamento de certas psicoses (Ser-lhe-á atribuído o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949).

A evolução de conceitos no campo da saúde mental pode ser ilustrada pelo facto de, por exemplo, a actual Associação Americana de Psiquiatria, com cerca de 32 mil membros individuais, ser herdeira da Association of Medical Superintendents of American Institutions for the Insane (1844) (DeHaan, 1990).

Como diz Sournia (1995. 277), nessa época continuavam a "não se distinguir as perturbações nervosas das perturbações mentais". Neste domínio, vamos assistir à consagração os trabalhos simultâneos de Pinel, já citado, de Benjamin Rush (1745-1813), nos Estados Unidos e, em Inglaterra, de Thomas Trotter (1760-1832). Todos eles podem ser considerados "os primeiros alienistas especializados" .

A criação da psicanálise, com Freud, em 1882, vem trazer novas perspectivas de abordagem, tratamento e prevenção da doença mental e das perturbações de comportamento mas será preciso esperar algumas décadas para a sua aceitação pelo establishment médico-científico. Fundada em 1911, a American Psychoanalytic Association é, ainda hoje, claramente minoritária em relação a sua congénere psiquiátrica (cerca de 2700 membros individuais na década de 1980 (DeHaan, 1990).

Entretanto, será preciso esperar mais de meio século para que, nos EUA, a partir de 1960, se desenvolva a corrente da saúde mental comunitária, pondo em causa a total institution que até então tinha sido o hospital psiquiátrico e a própria psiquiatria.

A descoberta dos raios X em 1895 pelo alemão W.C. Roentgen (1845-1922) e da radioactividade em 1898 pelos franceses Marie (1867-1934) e Pierre Curie (1859-1906), veio permitir o rápido desenvolvimento das técnicas radiológicas, que se começam a generalizar nos anos 20.

O American College of Radiology é fundado em 1923.

Ainda antes da II Guerra Mundial, em 1931, é descoberta a electroencefalografia (Berger, Alemanha). Em 1932, E. Ruska (Prémio Nobel da Física, 1986) constrói o primeiro microscópio electrónico de transmissão (CTEM - Conventional transmission electron microscope) (em colaboração com M. Knoll). O CTEM começa a vulgarizar-se com a II Guerra Mundial.

A primeira escola de odontologia aparece em 1840, em Baltimore, nos EUA. Em 1859, em Inglaterra, são-se as primeiras licenças para exercício da profissão que, no entanto, continua sob controlo médico. A formação académica passa a ser de quatro anos, tal como a medicina (Luyons e Petrucelli, 1991).

O médico francês Pierre Fauchard (1678-1761), com o seu Tratado dos dentes (1728) é considerado o fundador da moderna odontoestomatologia (Sournia, 1995).

2. Um processo de especialização induzido pela procura: O caso norueguês

 

 

No entanto está por explicar a lógica que comanda o processo de especialização no sector da saúde, e em particular a especialização médica que se vai acentuar após a II Guerra Mundial. Tomando como exemplo a Noruega, Hofoss (1986) discute três hipóteses de explicação:

  • A especialização vista da perspectiva do sociólogo das profissões, ou seja como reflexo do selfish interest: os profissionais lutam pelo monopólio da profissão;

  • A especialização vista pela perspectiva do médico, ou seja, como resposta natural ao progresso das ciências e técnicas médicas:

  • E, finalmente, a especialização vista pela abordagem do economista, ou seja, como resultado de uma crescente procura dos serviços de saúde.

Para entender esse entender o processo de especialização no campo da saúde, podemos partir de um definição de profissão relacionando-a com ocupação e educação:

"An occupational group is a profession if its members all (or the overwhelming majority of them) have a specified formal education of considerable duration, and all (or the overwhelming majority of) those who undergo that formal training is geared towards that specific occupation" (Hofoss, 1986. 202. Itálicos meus).  

Ou seja, o conceito de profissão implica a noção de monopólio: só os médicos podem fazer medicina, só os advogados podem advogar, só os juízes presidir a um tribunal e julgar, etc. Na realidade, as coisas não são tão simples, mesmo quando médicos, advogados ou magistrados, só para citar três exemplos, têm o monopólio legal do exercício das respectivas profissões, o que teoricamente os salvaguardam da concorrência desleal.

Como se constrói uma profissão ? Hofoss (1986), como sociólogo, propõe um processo de seis etapas para o profession-building:

  • Em primeiro lugar, a função em que o grupo ocupacional pretende especializar-se é exercida a tempo inteiro;

  • Em segundo lugar, o grupo escolhe um nome distinto de todas as outras profissões, delimitando o seu campo especial de responsabilidade ou de competência (Em geral um nome cuja etimologia erudita deriva do grego ou do latim: filólogo, etnólogo, arqueólogo, sociólogo, biólogo, estomatologista, neurocirurgião, pediatra, etc.);

  • A quarta etapa é a definição de um código de deontologia;

  • A etapa seguinte centra-se na melhoria do nível educacional (v.g., a exigência da licenciatura para o exercício da enfermagem);

  • E, finalmente, a autorização para o exercício da profissão (v.g., diploma universitário, carteira profissional).

No caso da medicina e de outras profissões de saúde este tem sido o caminho seguido. Mas o modelo sociológico não é totalmente convincente, e muito menos para os próprios profissionais de saúde que tendem a explicar a sua origem como uma resposta natural ao progresso científico e tecnológico.

É bastante difícil negar, diz Hofoss (1986), que:

  • A moderna cirurgia está ligada aos avanços da anestesia e a antissepsia;

  • O desenvolvimento da fisiologia é inseparável do aperfeiçoamento do microscópio;

  • A neurofisiologia deve a sua existência como especialidade à introdução da electroencefalografia;

  • A imunologia tem uma relação directa com a cirurgia dos transplantes;

  • O especialista em doenças infecto-contagiosas tem ver com o triunfo da bacteriologia, etc.

Os técnicos de diagnóstico e terapêutica também associam o seu desenvolvimento profissional aos progressos científicos e tecnológicos da medicina. O seu ponto de vista não é meramente ideológico. De facto, eles fazem "um trabalho especializado com base em conhecimento especializado".

Mas temos que distinguir aqui dois tipos de especialização baseada no conhecimento científico: uma, que é directa (ou horizontal;  e outra, que é indirecta (ou vertical).

Há cem anos atrás não havia especialidades médicas formalmente reconhecidas na Noruega. O primeiro reconhecimento de uma especialidade médica só será feita em 1918 pela Associação Médica Norueguesa.

Durante muito tempo o João Semana, em Portugal ou na Noruega, detinha todo o conhecimento da arte de curar, na sua cabeça e na sua maleta. Entretanto, a ciência médica explodiu e fragmentou-se, na segunda metade do Séc. XIX e sobretudo depois da II Guerra Mundial. Consequentemente, deixa-se poder contar com o o generalista ou clínico geral para cuidar de todos os tipos de problemas médicos. A tendência será pois para uma divisão de competências e responsabilidades: cirurgia, medicina clínica, medicina laboratorial, etc.

Mas até estes sectores especializados eram demasiados vastos:

  • O cirurgião já não pode estar actualizados em todos os ramos da cirurgia;

  • A medicina laboratorial já não se reduz só à patologia;

  • O internista mostra-se incapaz de lidar com todos os problemas da medicina interna, etc.

Em suma, o processo de especialização médica tem, à partida, uma componente auto-defensiva. Ao definir o seu campo de competência, o especialista está também a delimitar a sua área de actuação e de responsabilidade.

Pelo contrário, no caso da Noruega, e segundo Hofoss (1986. 204), o processo de especialização assumiu claramente um carácter "ofensivo e auto-confiante". Ou seja, grupos de médicos investem todo o seu tempo e energias no sentido de passarem a controlar áreas específicas do conhecimento científico. Podemos pois falar de uma especialização directa ou horizontal,  baseada na ciência e na tecnologia.

A especialização indirecta ou vertical far-se-á numa fase posterior:

  • A gestão rotineira das inovações de ontem roubam tempo aos que querem continuar na linha da frente;

  • A solução é delegar em assistentes que passam a assumir essas funções de rotina.

Por exemplo, só o médico usava o termómetro clínico até a meados do Séc. XIX. Era um elemento básico do acto médico que depois é delegado à enfermeira, como parte das funções de rotina, à medida que se desenvolvem outros meios auxiliares de diagnóstico.

A enfermagem bem como a fisioterapia foram, durante muito tempo, dois exemplos de semiprofissões, ou actividades paramédicas, que nasceram de um processo de especialização vertical, independentemente de mais tarde terem vindo a desenvolver o seu próprio campo de competência.

Há mais de um século atrás a enfermagem não tinha a preparação académica do médico. Mas as enfermeiras de hoje não são o resultado da profissionalização das suas antecessores do Séc. XIX:

  • As enfermeiras diplomadas aparecem pela primeira vez, na Noruega, em 1860;

  • Não tinham nada em comum com o pessoal, não treinado, que prestava cuidados básicos ao doente;

  • Limitaram-se muito simplesmente a substituir esse pessoal.

Ou seja, a moderna enfermagem não foi construída a partir de dentro, através de um projecto profissional de auto-reforma. Foram formadas em escolas de enfermagem, não pelas enfermeiras tradicionais com um projecto de melhoria da qualidade da enfermagem, mas pelos médicos dos hospitais que sentiam necessidade de assistentes mais qualificadas do ponto de vista clínico.

Os programas de formação dos fisoterapeutas também seguiram a mesma via: os médicos que praticavam a medicina física, em regime liberal, precisavam de assistentes tecnicamente qualificados. A formação da enfermagem como da fisioterapia baseou-se, pois, originalmente nas ciências médicas e foi modelada pelos médicos.

Muitas das obras sobre história da medicina esforçam-se por defender este ponto de vista iatrocêntrico, segundo o qual o desenvolvimento do sector da saúde foi propulsionado pela lógica interna da medicina. Só há uma questão intrigante em relação a este ponto de vista, largamente partilhados pelos próprios profissionais, segundo o qual a especialização no sector da saúde é a resposta natural ao progresso científico e tecnológico:

  • É que, nalguns casos, a especialização é quase instantânea;

  • Noutros, há um grande período de latência entre os avanços científicos e técnicos e o aparecimento de novos grupos profissionais;

  • E, por vezes até, a especialização ocorre mesmo na ausência de progresso médico ou técnico; a psiquiatria é um bom exemplo disso.

W. G. Rothstein ("Pathology - the evolution of a speciality in American medicine". Med. Care. 17(1979) 975-988, cit. por Hofoss, 1986) demonstrou que há outros factores que explicam a evolução de uma especialidade, para além das estratégias dos profissionais ou das oportunidades teóricas e técnicas. No caso da patologia, como especialidade da medicina americana, o factor decisivo foi a criação de um mercado para este tipo de cuidados.

Os problemas e as necessidades de saúde, objectivos ou simplesmente sentidos ou percebidos pelo sector da saúde, são também um factor a ter conta na explicação do processo de especialização. Não espanta, por isso, que em 1918 na primeira lista das especialidades médicas, aprovada pela Associação Médica Norueguesa, aparecesse a tuberculose e que o número de especialistas desta doença (pneumologistas) vá rapidamente aumentar a partir de então.

Em suma, a especialização é também função de um mercado da saúde em expansão. Isto não quer dizer que haja uma correspondência directa entre pessoal especializado e necessidades objectivamente medidas. Trata-se sobretudo de um processo de transformação social, mediatizado por mecanismos (ideológicos, legais, económicos, etc.) que permitem a sua emergência e o seu reconhecimento.

O desenvolvimento do mercado não chega, contudo, para explicar totalmente a institucionalização da cirurgia plástica, que já era praticada, por exemplo, pelos índios da América do Norte, e perfeitamente ao alcance da medicina ocidental no Séc. XX.

Na Noruega, a cirurgia plástica está indissoluvelmente ligada ao progresso científico e ao interesse profissional, se bem que o desenvolvimento tenha sido induzido pela aumento da procura, em resultado da II Guerra Mundial:

  • Foi preciso que os progressos cirúrgicos tivessem chegado a um ponto de refinamento tal que permitisse a prática da cirurgia reconstrutiva em condições de segurança e qualidade;

  • A ideia de a promover a especialidade parte de um grupo de médicos que possuíam competências específicas e treino nesta área.

A psiquiatria também foi uma das primeiras especialidades a ser reconhecida na Noruega, em 1918, o que não pode ser imputado apenas à voga da psicanálise:

  • Já desde meados do Séc. XIX os psiquiatras jogavam um papel proeminente no sector da saúde;

  • Os dois primeiros directores gerais de saúde noruegueses eram psiquiatras, ainda antes da especialidade ser oficialmente reconhecida.

Aliás, em que bases científicas ou técnicas podia a psiquiatria, no Séc. XIX, reivindicar o estatuto de especialidade, pergunta Hofoss (1986) ? A explicação é outra: a criação de um mercado que permitia a um crescente número de médicos dedicarem-se exclusivamente aos problemas de saúde mental:

  • Em 1848, foi promulgada legislação que vinha coroar os esforços pioneiros daqueles (a começar por alguns médicos) que reclamavam a reforma e a modernização das instituições destinadas aos doentes mentais, a exemplo aliás do que se passava em muitos outros países europeus (incluindo Portugal) e nos EUA;

  • É então que se constroem, na Noruega, os primeiros manicómios (mais tarde, hospitais psiquiátricos), com o objectivo de prestar cuidados médicos e não apenas com objectivos de custódia ou de encarceramento.

A reabilitação, em contrapartida, só se desenvolve com a II Guerra Mundial, primeiro para dar apoio médico e psicológico ao pessoal da marinha mercante que, tendo participado na resistência ao ocupante nazi, pretendia agora reorientar a sua vida profissional em terra. Esforços similares foram feitos em prol das vítimas de guerra:

  • Em 1952, o sistema de segurança social introduziu os esquemas de pensão por invalidez para a população activa, ao mesmo que, por razões económicas, são criados serviços médicos de reabilitação, em particular nos hospitais;

  • Os novos departamentos de reabilitação ficam naturalmente nas mãos dos médicos que, ao fim de algum tempo, começam por exigir (e acabam por obter) o seu reconhecimento formal como especialistas de reabilitação.

Outros exemplos poderiam ser dados, a partir da experiência norueguesa:

  • O caso das secretárias clínicas que começaram por ser as próprias mulheres dos médicos;

  • Ou o caso dos técnicos de laboratório;

  • Mas o que se passou com a enfermagem norueguesa é talvez mais interessante (e tem alguma analogia com a situação portuguesa).

Depois da II Guerra Mundial e na sequência do acelerado desenvolvimento económico e social da Noruega, a rede hospitalar cresceu muito rapidamente:

  • Durante os anos 50, tornava-se cada vez mais difícil satisfazer a procura de enfermeiras hospitalares;

  • O problema agravou-se nos anos 60 quando as escolas de enfermagem foram integradas no ensino superior;

  • As estudantes de enfermagem passaram a estagiar menos tempo nos hospitais e a dedicar-se mais aos livros e às aulas;

  • A falta de pessoal de enfermagem nos hospitais agudizou-se, o que levou a criação de curtos programas de formação para auxiliares de enfermagem (o mesmo aconteceu, de resto, em Portugal e nos rstantes países da Europa do Sul);

  • O número de auxiliares de enfermagem, com formação profissional, em breve era superior ao das registered nurses.

A falta de pessoal e as soluções adhoc   explicam de igual modo o aparecimento dos técnicos de raios X:

  • Até então os radiologistas apoiavam-se na enfermagem;

  • Só que o número de enfermeiras em radiologia não era suficiente;

  • Daí os radiologistas terem iniciado programas de formação, abertos a estudantes fora das áreas da saúde, para resolverem o problema da falta de assistentes qualificados.

Os microbiologistas, os imuno-hematologistas e os patologistas, em guerra com os bioquímicos, também desenvolveram programas de formação para os seus próprios assistentes, os técnicos de laboratório médico, quando verificaram  que estes eram formados pelos bioquímicos com uma orientação muito acentuada para a bioquímica.

Em conclusão, o processo de especialização médica e muito em particular do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (durante muito tempo classificados como pessoal paramédico  e que constituiram o grosso da especialização no sector da saúde norueguês, a seguir à II Guerra Mundial) não pode ser visto apenas como um produto de estratégia profissional nem como um reflexo directo do desenvolvimento científico e técnico.

  • Estes factores influenciaram seguramente a especialização: digamos que o primeiro é um factor preliminar e o segundo um factor secundário;

  • O processo de especialização é primordialmente induzido pela procura e, no caso específico da Noruega, pode ser visto como uma série de soluções adhocráticas para os problemas críticos de falta de pessoal.

Referências bibliográficas / Bibliography

HOFOSS, D. (1986) -  Health professions: the origin of species. Social Science & Medecine.  22: 2 (1986) 201-209.

LYONS, A. S.;  PETRUCELLI, R.J. (1991) - Historia de la medicina. Barcelona: Ediciones Doyma. 1991  (tr. do ingl., 1978).

SOURNIA, J.C. (1995) - História da medicina. Lisboa: Instituto Piaget. 1995 (tr. do fr., 199?). 

Sitografia:

63. Florence Nightingale e Ethel Fenwick: Da Ocupação à Profissão de Enfermagem  [  Florence Nightingale and Ethel Fenwick: From Occupational to Profession in  Nursing ]   

64. Proto-história da Enfermagem em Portugal. Parte I   [  History of Portuguese Nursing. Part One ]   

65. Proto-história da Enfermagem em Portugal. Parte II   [  History of Portuguese Nursing. Part Two ]

69. A Valorização Técnica e Social da Cirurgia durante o Antigo Regime  [ Surgeons' Higher Technical and Social Status during the 'Ancien Régime' ]  

98. A Medicina Pré-Industrial: O Acto Médico Indivisível  [The Profession of Medicine ]

78. Administração hospitalar: da laicização à profissionalização  [ Hospital administration: from occupation to profession]

141. Ethel Fenwick: O combate pela profissionalização da enfermagem na Grã-Bretanha e no resto do mundo [ Ethel Fenwick:  The struggle for the Registered Nurse in Britain and Worldwide]

173. A arte da enfermagem no Séc. XVIII  [  The art of nursing in XVIII century]  

177. Portugal: Estrutura liberal da medicina hospitalar até 1971  [ Portugal: Profession of medicine and hospitals until 1971  ]

178. A vida de um médico português na Belle Époque [ Portuguese doctor's life during the Belle Époque ]

 

(a) Adapt. de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa. 1996 (Textos, T 1238 a T 1242).

 

Última actualização: 20 de Novembro   de 2007 / Last updated: November 20  20047  

© Luís Graça (1999-2007). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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