Luís Graça: Textos sobre saúde e  trabalho / Papers on health and work  

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82. Graça, L. (2000) - O Hospital do Ancien Régime como Lugar de Passagem da Elite Médica  [ The Ancien Régime Hospital and the Medicai Elite ](a)

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Para certos médicos, nas principais cidades da Europa, o hospital vai permitir, a partir sobretudo do fim da Idade Média e do início do Ancien Régime, a crescente conjugação entre a posse de um saber técnico e a pertença a um grupo que, com o apoio das elites dominantes, se irá constituir como organização profissional autónoma na alvorada do Séc. XX (Mira, 1947; Steudler, 1974; Foucault, 1983; Freidson, 1984; Dodier, 1985).

Para isso, os médicos vão ter que definir um campo de autonomia técnica e conquistar o poder de auto-regulamentação da profissão. Em França isso é conseguido  com a criação da Société Royale de Médecine, em 1778, a partir de uma comissão de peritos encarregada pelo Governo, dois anos antes, de estudar uma série de fenómenos epizoóticos que se vinham a repetir no sudeste de França.

Esta comissão vai entrar em conflito com a Faculdade de Medicina, conflito de que resultará a constituição da referida sociedade médica e o alargamento progressivo do seu campo de intervenção:   "Órgão de controlo das epidemias, torna-se pouco a pouco em ponto de centralização do saber e em instância de registo e de avaliação de toda a actividade médica" (Foucault, 1983. 227).

É evidente que esta tendência para a profissionalização da medicina já tinha começado muito antes. Podemos situá-la na Baixa Idade Média:

  • Na Alta Idade Média, os médicos das ordens monásticas praticam uma medicina popular, como qualquer curandeiro, se bem que eles sejam, tal como os judeus e os árabes, os fiéis depositários do legado greco-romano;

  • Independentemente dos seus conhecimentos da arte de curar, o mais importante é que eles não formam uma corporação de ofício, organizada e distinta; o seu estatuto é outro, enquanto membros do clero regular;

  • Para Freidson (1984. 21), o momento decisivo é quando "la médecine obtient que son propre cursus universitaire soit officiellement reconnu comme la seule institution autorisée à définir les critères de qualification pour soigner".

É claro que esta medicina oficial, constituída mais por letrados do que por praticantes (a chamada medicina dogmárica 'versus' a medicina ministrante), é impotente para mudar as crenças dominantes no contexto cultural e material das sociedades medievais e, muito menos, para se substituir aos curandeiros a quem a população recorre diariamente e que escapam ao controlo da organização profissional dos médicos (representados em Portugal pela Universidade de Coimbra e pelo físico-mor). Uma população que, convém lembrá-lo, é (e continuará a sê-lo até ao Séc. XVIII), profundamente miserável, subalimentada, enfraquecida pelas doenças endémicas ou epidémicas, analfabeta e predisposta à crendice.

Não admira por isso que só no final do Séc. XIX é que a medicina se torna "une vraie profession consultante", para retormarmos a tese de Freidson (1984. 21-22):

"Ses bases scientifiques sont alors devenues suffisament solides pour que ses résultats paraissent supérieurs à ceux des guérisseurs. Elle consolide sa position au XX siècle à mesure qu’elle renforce la formation du praticien moyen et que l’élévation générale de l’instruction prédispose la population à rechercher et à accepter les offices du médecin".

De qualquer modo, assistimos já, em pleno Século das Luzes, a uma progressiva transformação da medicina e do estatuto profissional e social do médico: munido da sua ciência, ele irá progressivamente apoderar-se do carisma, do dom, da dedicação, da vocação e do sacerdócio dos antigos homens de igreja. Dois séculos depois, irá curiosamente utilizar os mesmos termos ideológicos para fazer frente ao cerco do acto médico, com as tentativas de racionalização (económica, financeira e técnica) que marcaram (e continuam a marca)   evolução do sistema hospitalar depois da II Guerra Mundial (Haroun, 1969; Chauvenet, 1978; Rochaix, 1996).

Por outro lado, com a progressiva secularização do hospital, ainda no Ancien Régime e sobretudo com a Revolução Francesa, a própria figura do administrador (ou provedor), tradicionalmente recrutado entre a nobreza e o alto clero, começa a diferenciar-se, com a entrada em cena do laico burguês, doador, benemérito ou fundador de hospitais, ou simplesmente representante dos interesses dos cidadãos e do seu município. Burguês esse que, por seu turno, também está socialmente mais próximo do médico.

Apesar dessa secularização do hospital e da sua administração, mais evidente a partir do Séc. XVIII, mesmo assim o efectivo dos médicos e cirurgiões continuará a ser muito baixo:

  • No Hôtel-Dieu de Paris, em 1626, há apenas um médico para cerca de 2 mil doentes, subindo o seu número para três em 1638 (Steudler, 1974. 38).

  • No Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, por volta da mesma altura (1620), havia dois físicos e três cirurgiões, para uma população média de 600 doentes (Lemos, 1991,  Vol. II. 138).

Tal significa que então o médico exercia sobretudo uma medicina privada para uma clientela rica. O recrutamento do pessoal médico fazia-se em função da notoriedade, sendo o título hospitalar, por sua vez, já devidamente valorizado tanto pelo médico como pela sua clientela privada.

O mesmo já não se podia dizer da presença regular do médico no hospital: o absentismo era elevadíssimo, chegando ao ponto de, no ano de 1844, em certos serviços dos hospitais da Assistance Publique de Paris, os médicos estarem cinquenta, cem e mais dias (!) sem aparecerem (Valleroux, 1855, cit. por Steudler, 1974. 38).

Na realidade o hospital estava ainda longe — contrariamente ao que se passa nos nossos dias — de constituir um local interessante para a formação do médico e sobretudo para o exercício da profissão, a não ser no caso do cirurgião cuja função começa a ser valorizada a partir da segunda metade do Séc. XVIII, embora ainda completamente à margem da universidade.

Esta última continuará, é certo, a deter o monopólio da atribuição de graus académicos, dos exames de concurso e do controlo da profissão, embora já em disputa com as próprias associações médicas que vão surgindo. Recorde-se algumas delas:

Posteriormente, mas ainda no Séc. XIX, são fundadas diversas associações médicas especializadas nos EUA, mais de uma dúzia das quais ainda existem actualmente (por ex., American Psychiatric Association, 1844; American Dental Association, 1859). Outras serão criadas nos primeiras décadas do Séc. XX (por ex., American Society of Anesthesiologists, 1905; American Thoracic Society, 1905; American College of Surgeons, 1913).

Em resumo, o hospital tende a tornar-se, a pouco e pouco, uma via paralela de ensino e sobretudo um local de trabalho insubstituível para uma elite médica, à medida que se desenvolve a medicina clínica, à cabeceira do doente internado, ao longo do Séc. XVIII, e que se começam aplicar com alguma eficácia os resultados da 1ª revolução científica e técnica, a partir das últimas décadas do Séc. XIX.

 

Referências bibliográficas / Bibliography

CHAUVENET, A. (1978) - Médecines au choix, médecine de classes. Paris: PUF. 1978.

DODIER, N. (1985) - Responsabilité et pouvoir d’une proféssion: Anatomie de la médecine. Le Monde Diplomatique. 372 (mars 1985).28.

FOUCAULT, M. (1983) - Naissance de la clinique: une archéologie du regard médicale, 5ème ed. Paris: PUF. 1983 (1ème ed., 1963).

FREIDSON, E. (1984) - La proféssion médicale. Paris: Payot. 1984  (tr. do ingl., 1970).

HAROUN, J. (1969) - Sociologie de la décision: la réforme des études médicales et des structures hospitalières. Paris: CNRS. 1969.

LEMOS, M. (1991) - História da medicina em Portugal: instituições e doutrinas, Vol. II. Lisboa: D.Quixote; Ordem dos Médicos. 1991 (1ª ed., 1899).

MIRA, M.F. (1947) - História da medicina portuguesa. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. 1947.

ROCHAIX, M. (1996) -  Les questions hospitalières: de la fin de l’Ancien Régime à nos jours. Paris: Berger-Levrault. 1996.

STEUDLER, F. (1974) - L'hôpital en observation. Paris: Armand Colin. 1974.

   (a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: Uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde.  Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa   (Textos, T 1238 a T 1242).

 

Última actualização: 21 de Abril  de 2005 / Last updated: April 21,  2005.  

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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