Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work |
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84. Graça, L. (2000) - O Hospital Tradicional Português: um 'Locus Religiosus et Infectus'. Parte I [ The Portuguese Traditional Hospital as a 'Locus Religiosus et Infectus' . Part One ] (a) |
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1.
Os Negócios da Caridade
2. O Alimento para o Corpo e para a Alma 3. Uma Clientela de Doentes Crónicos Pobres 4. Bibliografia |
| 1. Os Negócios da Caridade | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Até há pelo menos cento e poucos anos, o hospital português (tal como o seu congénere europeu) era um locus simultaneamente religiosus et infectus, um lugar onde se cuidava do corpo e da alma mas também um lugar de infecção e de propagação de doenças:
Não admira, por isso, que os custos de hospitalização fossem sobretudo representados pelos encargos hoteleiros, e em especial pela alimentação (mais de 50%), tal como em França ainda no princípio do Séc. XIX (Steudler, 1974; Rochaix, 1996), As receitas dos hospitais e de outros estabelecimentos assistenciais provinham de diversas fontes: foros, censos, arrendamentos, dízimas, ofertas, esmolas, doações, etc., mas também, nalguns casos, da exploração directa da terra (gado, vinho, cereais, fruta, legumes, madeira, etc.). Vinte e cinco anos depois do início do seu funcionamento, a Misericórdia do Porto ia buscar o grosso das suas receitas (cerca de 3/4) aos peditórios e esmolas (Quadro I):
Embora não se saiba o montante da esmola urbana nesse ano económico, Basto (1934: 366) considera-a a "principal receita" da irmandade:
Com o tempo, os funerais e enterros passaram a ser também um "bom negócio", já que, depois de 1593, a Misericórdia do Porto passou a ter o monopólio da posse e uso de tumbas e esquifes. Em 1536-37, esta confraria arrecadava quase 94$000 e 578 alqueires de cereais (o que, a preços do mercado na época, deveria equivaler a outro tanto ou mais em dinheiro).
Fonte: Adapt. de Basto (1934. 365-366)
Em suma, estas instituições viviam em grande parte da caridade (quase sempre ostentatória, ou seja, pública e notória) dos ricos, preocupados em conseguir a salvação eterna através das boas obras prestadas em vida aos pobres, "irmãos em Cristo", mas também empenhados em exibir os seus sinais exteriores de riqueza. Essa caridade, simultaneamente interesseira e ostentatória, é magistralmente traduzida por provérbios como:
Quinhentos anos depois da fundação da primeira misericórdia, o acto misericordioso terá outra versão, up-to-date, mais consentânea com os tempos que vão correndo: "Se não tomarmos conta dos pobres, os pobres tomarão conta de nós" eis o lema de um dos mais recentes provedores da Misericórdia do Porto (cit. por Fiel, 1994. 65). Para realizar a sua missão e expandir as suas actividades, as misericórdias contavam sobretudo com as doações da gente rica:
Como este discurso puro e duro, economicista e racionalizador, está aparentemente tão longe do espírito do compromisso original das misericórdias, ou seja, do ethos cristão medieval inspirado no Evangelho de São Mateus! De qualquer modo, não admira que, pelo menos até à extinção das Ordens Religiosas e à nacionalização dos seus bens, em 1834, a Igreja tenha dominado ideológica, política e administrativamente a instituição hospitalar (embora, no nosso caso, e a partir do Séc. XVI essa influência fosse sobretudo veiculada pelas misericórdias que, além de laicas e de composição interclassista, tinham um estatuto especial, outorgado pelo rei). O que importa sublinhar é que o hospital tradicional, tanto em Portugal como no resto da Europa, não só subsiste como funciona graças sobretudo ao espírito de caridade cristã. Este é o que nos parece ser o seu traço essencial, o ser ainda (e fundamentalmente) um !ocus religiosus e uma pia causa, para além da função assistencial que só muito lentamente se diferencia.
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| 2. O Alimento para o Corpo e para a Alma | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Não se pense, todavia, que estes estabelecimentos assistenciais tinham uma vida financeira folgada, a avaliar pelo exemplo da Misericórdia do Porto cujas contas anuais apresentavam muitas vezes saldo negativo, pelo menos durante o seu primeiro século de existência (Quadro II). E isto não obstante o progressivo aumento do seu orçamento e do enriquecimento do seu património, por via dos legados e doações:
Dos três hospitais do Porto, entregues em 1521 pelo município à administração da Misericórdia, o Rocamador era o que tinha mais rendas, provenientes sobretudo de foros de prédios urbanos (em número superior a oitenta) e prédios rústicos (vários casais e herdades, fora de portas), mas também de pesqueiras no rio Douro. Ao todo, estas rendas somavam 18$088 reais, o que chegava e sobrava para fazer face às suas despesas obrigatórias (7$230 reais, segundo o Tombo de 1498), fora outros gastos como a reparação e a conservação do edifício, o tratamento dos doentes ou o enterro dos mortos. Quanto ao Hospital de Santa Clara ficava-se pelos seis ou sete mil reais de foros enquanto o de Cima de Vila não ia além dos três mil. Em contrapartida, eram diminutas as despesas de um e devoutro, já que, ao que parece, não tinham encargos com a alimentação dos seus pobres. Conservando autonomia financeira (ou, pelo menos, mantendo uma contabilidade separada), e já sob a jurisdição da Misericórdia, estes estabelecimentos (que eram um misto de hospitais e de albergarias, de pequena dimensão) conseguiam ter saldo positivo e até dinheiro depositado, como se depreende de uma nota, datada de 24 de Julho de 1589, encontrada nos arquivos da instituição (Basto, 1934. 334):
Não se pode dizer que, passados noventa anos, com a moeda já desvalorizada, o seu rendimento anual (em réis) fosse então uma grande fortuna (Quadro 2), como comenta o autor da História da Misericórdia do Porto. Ficamos, por outro lado, a saber que as despesas com a hospitalização propriamente dita representavam 70% do total das receitas dos hospitais, sendo o remanescente gasto com os peregrinos, viandantes e outros hóspedes que pernoitavam nos seus anexos.
Não se conhece com rigor a estrutura das despesas dos nossos hospitais bem como a sua evolução, com excepção muito provavelmente do Hospital Real de Todos os Santos (abreviadamente, HRTS). Mas estamos em crer que o grosso da fatia do seu orçamento fosse sobretudo para as despesas de hotelaria (mais de 70%), seguidas dos encargos com o pessoal (entre 15 a 20%). Devido à pobreza da farmacopeia da época (mesmo assim enriquecida com as plantas medicinais trazidas da Índia e do Novo Mundo), os medicamentos eram seguramente o menor dos encargos com a assistência aos doentes (cerca de 3% a 4%):
Quanto aos encargos com pessoal, não é fácil estimá-los, devido ao peso relativamente importante que tinham na época os pagamentos em géneros, tanto directos (por ex., remuneração complementar), quer indirectos (por ex., alojamento, alimentação e até vestuário) bem como às discrepâncias de estatuto remuneratório e ainda devido à própria desvalorização da moeda que era então o real (plural, reais ou réis). Os três pequenos estabelecimentos hospitalares, acima referidos, não tinham médicos e cirurgiões privativos, contrariamente ao que se passava numa grande instituição como o Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa. Recorriam, por isso, a médicos e cirurgiões que estavam ao serviço da Misericórdia.
Conhece-se, apesar de tudo, a estrutura da despesa com a assistência prestada por misericórdias como a de Guimarães nas três primeiras décadas do Séc. XVIII:
Fonte: Adapt. de Costa (1996. 166
Dos gastos com a assistência, a maior fatia era representada pelas despesas com o funcionamento do hospital e os cuidados prestados aos doentes da vila (55%). Na estrutura das despesas de hospitalização, a alimentação, por sua vez, representava 4/5 do total (Quadro IV).
Em suma, o hospital será durante séculos um locus religiosus em que a preocupação com a salvação da alma se sobrepunha à da cura do corpo. Veja-se, aliás, a sua própria arquitectura, inspirada no modelo espacial da casa de Deus, embora no caso do Hospital Realk de Todos os Santos obedecesse já a uma tipologia funcional que as edificações, em Lisboa, até então desconheciam (Almeida, 1993; Graça, 1994). Mais tarde, já nos Séc. XVIII e XIX, serão os próprios conventos e outros edifícios religiosos, depois de confiscados pelo Estado, que muito naturalmente se adaptam a hospitais (por ex., Hospital de São José, Hospital dos Capuchos). (Continua) |
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(a) Fonte: Adapt. de GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa. Texto policopiado (Textos, T1239 a T1242). |
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Última actualização: 21 de Novembro de 2004 / Last updated: November 21, 2004. |
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© Luís Graça (1999-2004). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
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