Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work |
página / page 85 |
85. Graça, L. (2000) - Evolução do Sistema Hospitalar: uma Perspectiva Sociológica (I Parte). Introdução: O Hospital como um Construído Social [The History of Hospitals, Part I . Introduction: the Social Construction of the Hospital ](a) |
||
|
|
|
L'hôpital publique, beaucoup plus que l'école publique, est resté jusqu'à une date très recente hors du champ social. Domaine de la maladie et de la mort, c'est à dire à la fois de la technique et du surnaturel. (...). Mais les temps ont changé. Le champ social s'est en fait considérablement agrandi. La santé publique devient object de calcul économique et d'analyse sociologique (...). On serait tenté d'expliquer d'abord cette transformation par le dévelopment spectaculaire des techniques médicales (...). Non, ce qui conduit le sociologue vers l'hôpital n'est pas l'évolution des techniques, mais les problêmes de l'organisation. Car si la médecine n'est pas l'industrie, la gestion d'un hôpital n'est pas sans rapport avec celle d'une usine ou d'une administration. Tout ne participe pas dans la vie d'un hôpital à la sacralité dont certains voudraient entourer l'acte médicale (Touraine, 1974).
|
|
Índice Evolução do Sistema Hospitalar: uma Perspectiva Sociológica 1. Introdução: A Construção Social da Medicina e do Hospital 2. O Hospital como Organização 3. O Hospital como Instituição |
|
1. Introdução: A Construção Social da Medicina e do Hospital |
|
|
|
Depois de uma incursão mais ou menos exaustivo e erudita sobre a história da medicina, desde a paleomedicina às etnomedicinas, do legado greco-romano à idade média mediterrânea, das medicinas pré-colombianas e pré-coloniais da América, da Índia e da China, ao início da medicina clínica e do seu ensino no Séc. XVIII, passando pelo triunfo da medicina laboratorial da segunda metade do Séc. XIX até à explosão do saber e das técnicas biomédicas dos nossos dias e à unificação e reconhecimento da profissão há 100 anos, Sournia (1995. 375) escreve, nas conclusões do seu livro sobre a História da Medicina, esta frase algo surpreendente: "O último meio século de história da medicina é rico em avanços consideráveis em todos os ramos da arte de curar. Não há no entanto motivo para nos orgulharmos". Primeiro, "os médicos não são os únicos artesãos deste progresso" e, depois, "os nossos sucessos são precários". Em suma, Sournia (i) recusa, implicitamente, o iatrocentrismo muito comum nos trabalhos de historiografia médica e, decididamente, (ii) não partilha do mito segundo o qual o nível de saúde atingido pelos países mais desenvolvidos seria resultado do progresso imparável das ciências e técnicas médicas. Esta visão ideológica da saúde é ainda dominante e assenta no paradigma imperialista do modelo biomédico, organicista e patogénico que herdámos do positivismo da segunda metade do Séc. XIX:
Esta postura crítica é intelectualmente estimulante e dificilmente poderá ser acusada de terrorista. E a este propósito o autor evoca um cenário que não é tão inverosímil quanto isso e que traz de imediato à memória do leitor português a realidade ficcional do célebre romance de José Saramago, o Ensaio sobre a cegueira, um livro simultaneamente perturbante e fascinante: "Basta que a mosca que transmite a cegueira dos rios ao longo do Níger assim como o pequeno verme que ela transporta se adaptem aos climas temperados para que o hemisfério norte se encontre povoado de cegos" (Sournia, 1995. 377). Não sendo propriamente um historiador nem um sociólogo, J.-Ch. Sournia (cirurgião durante vinte e cinco anos, director-geral de saúde entre 1978 e 1980, membro da Academia Francesa de Medicina, antigo presidente da Sociedade Francesa e da Sociedade Internacional de História da Medicina e co-editor, com J. Le Goff, de um número temático da revista Lhistoire - Les maladies ont une histoire, 1985; autor, juntamente com Jacques Ruffié de Les épidemies dans l'histoire de l'homme: essai de anthropologie médicale, Paris, 1995), procura enquadrar a evolução da medicina no contexto social, político e cultural de cada época. Mais importante, começa por relativizar a pretensa universalidade da medicina, pondo o acento naquilo que tem, por essência, o acto médico, da Grécia Antiga até às nossas sociedades pós-modernas: "O acto médico coloca uma pessoa que se considera doente na presença de outra à qual atribui poder e conhecimentos. Nenhuma destas circunstâncias pode escapar à história: o desejo de ser tratado é justificado por uma dor ou uma anomalia na aparência ou no funcionamento do corpo, cuja apreciação varia de acordo com as épocas, as culturas, as sociedades e as religiões" (Sournia, 1995.7. Itálicos nossos). Sem o citar, o autor retoma a tese central do sociólogo americano E. Freidson, em Profession of medicine (1970), tardiamente traduzido para o francês (La proféssion médicale, Paris, Payot, 1984). Ora, segundo Freidson (1984. 15), a medicina, em sentido lato (a arte de curar), é antes de demais um ofício, uma ocupação, que consiste em prestar um serviço, soba forma de diagnóstico e de tratamento das doenças daqueles que vêm consultar o médico: "[elle] apparaît plutôt comme un métier dont ceux qui le pratiquent s'engagent à diagnostiquer et à soigner les maladies de ceux qui viennent les consulter en vue d'obtenir un service". O que é importante, aos olhos do sociólogo, é a relação terapêutica, é a situação concreta de trabalho, e não própriamente o saber, isso vem depois: "[l'important] c' est l'homme au travail, ce qu'il sait vient après" (Itálicos meus). Nesta acepção mais propriamente sociológica, a medicina começa por saer uma ocupação, e não uma profissão: é "une activité de consultation, et cette activité est organisée; elle peut servir à découvrir, transmettre et appliquer certaines sortes de savoir mais elle n'est pas en soi un système de savoirs. Et d'autre part elle est avant tout un métier, pas toujours une profession" (Itálicos meus). Hoje o que salta à vista (ou que, pelo menos, é veiculado pelos mass-media), é a "preeminência" da medicina, e em particular da medicina hospitalar, não só pelo (i) prestígio que alcançou, como também devido à (ii) autoridade que lhe é conferida pela competência: "(...) le savoir médicale en matière de maladie et de traitement est censé faire autorité, il est définitif". De facto, e em geral, nenhuma das ocupações e profissões que estão em competição directa com a medicina tem este poder, digamos societal, de definir, através da opinião qualificada dos seus representantes, uma política de saúde (ou, pelo menos, de a inflectir ou influenciar). Daí a medicina ocupar actualmente, nos nossos países, uma posição porventura comparável à das religiões de Estado no passado, ela (a medicina, por extensão, os médicos) tem o monopólio oficialmente erconhecido de dizer o que é a saúde e o que é a doença e como esta se trata ("Elle a le monopole officiellementt reconnu de dire ce que sont la santé et la maladie, et de soigner") (Freidson, 1984.15). Em termos temporais, esta situação remonta apenas há cem anos, independentemente de a formação dos médicos ser já de nível superior desde a criação da universidade europeia no final da Idade Média (Séc. XIII): "Il faut attendre l' essor de l'Université en Europe pour que la médecine devienne premièrement une profession savante. Ce n'est que tout récemment que elle devient une véritable profession consultante et qu'elle acquiert la viguer et la stabilité qui lui assurent aujourd'hui la prééminence". Nesta "história da medicina", não está entretanto suficientemente ilustrada por Sournia a emergência da profissão médica que só na alvorada do Séc. XX é que se unifica e se impõe, com o apoio das elites dirigentes e graças à crença positivista no progresso. Tal como não é suficientemente evidenciado o papel que o hospital e as demais instituições de saúde passam a desempenhar, como palco do poder médico, sobretudo após a II Guerra Mundial, na sequência da generalização dos esquemas públicos e privados de seguro de saúde/doença. A afirmação do poder médico significa igualmente a medicalização do hospital. Veremos a seguir como o hospital moderno é simultaneamente (ou pode ser abordado como) uma instituição, uma organização e um subsistema do sistema de saúde. |
|
|
Dizer que o hospital é uma instituição, tal como a escola, os tribunais, o parlamento ou o exército, é colocarmo-nos a um nível de análise macro: é assumir que o hospital desempenha, para além de (i) funções estritamente técnicas (por ex., tratamento, cura e reabilitação da doença; formação médica e paramédica), (ii) um papel social, económico, ideológico, científico e político. Nessa medida, articula-se com diferentes sistemas de acção que o modelam e legitimam (poder legislativo, executivo e judicial, protecção social, educação, ciência e tecnologia, associações profissionais, indústria farmacêutica, outros lobbies ou stakeholders), em suma, com o sistema societal mais vasto de que faz parte (Estado e sociedade civil). A saúde e a educação são, por excelência, instituições, isto é, conjuntos de ideias, crenças, valores e normas de comportamento propostos (e muitas vezes impostos) ao indivíduo numa dada sociedade. Por exemplo, no caso da educação médica, pode ser uma dada representação mais tecnocêntrica ou mais antropocêntrica da prática clínica, um modelo mais biomédico ou mais psicossocial da saúde/doença, etc. Por outro lado, dizer que o hospital moderno é uma instituição significa que tem uma base jurídica e material que lhe é dada, em última análise, pelo Estado. Como instituição, o hospital (e as demais organizações de saúde) é legitimado pelo poder político e pelo jogo das relações sociais que, em cada época, lhe impõem determinadas missões ou finalidades, valores, regras e normas (por ex., controlo social da déviance antes da Revolução Francesa). Tal como o hospital psiquiátrico não pode ser analisado estritamente pela óptica da psiquiatria - como muito bem o demonstrou Goffman (1975) -, também o hospital geral, nas suas estruturas e processos, não pode ser reduzido à medicina e ao poder médico, enquanto resposta à doença e ao seu tratamento. Citando Touraine (1974) , nem tudo o que diz respeito à vida do hospital participa da pretensa sacralidade com que durante muito tempo se quis rodear o acto médico. Essa seria uma visão iatrocêntrica da saúde e dos serviços de saúde, muito comum, de resto, entre nós nos trabalhos de historiografia médica (por ex., Pina, 1938 e 1981; Mira, 1947; Lemos 1991; Lyons e Petrucelli, 1991). Por iatrocentrismo entende-se a uma visão não sociológica da medicina, ou seja, limitada ao acto médico, à actividade dos médicos ou simplesmente resultante do progresso das ciências e técnicas biomédicas. Para se compreender as normas, as regras, os valores e as finalidades do hospital e as transformações históricas por que tem passado, teremos pois de ter em conta o papel dos seus actores externos (Freidson, 1963; Rosen, 1963; Haroun, 1969; Steudler, 1974; Maillard, 1986; Rochaix, 1996): todos os stakeholders, todos os que são (ou foram) detentores de interesses específicos no campo da assistência e da saúde, da Igreja aos prestadores de cuidados, passando pelo Estado, pela indústria farmacêutica e pelos sistemas públicos e privados de protecção na saúde/doença. Hoje, talvez mais do que nunca, a saúde tornou-se um decisivo enjeu económico, político e social e o hospital (ou talvez melhor, o sistema de saúde como um todo) um lugar privilegiado para observar as próprias mudanças operadas nas sociedades modernas (Steudler, 1972 e 1974; Guyot, 1979; Campos, 1983). |
|
|
Quando nos referimos ao hospital enquanto organização (nível de análise micro), estamos a pensar no seu sistema de acção interno, nos seus actores internos e nas relações que estabelecem entre si (por ex., relação administração/staff profissional, relação médico/doente). Por organização deverá então entender-se (i) uma unidade social (ou agrupamento humano) "intencionalmente construída e recontruída, a fim de atingir objectivos específicos" (Etzioni, 1980. 9). É, além disso, (ii) uma unidade definida no tempo e no espaço, (iii) possuindo normas e um aparelho de autoridade/poder. A este nível, o hospital tem uma autonomia relativa, devido à sua historicidade e à sua especificidade. As características básicas das organizações são classicamente definidas pela existência de:
Esta definição clássica de organização é, no entanto, simplista e redutora por não dar conta da (i) dinâmica interna nem das (ii) variáveis externas que condicionam o desenvolvimento organizacional. Em princípio, o hospital é também uma organização como tantas outras (as empresas, os partidos políticos, as associações sindicais, os tribunais, as igrejas, etc.). E, como tal, tem sido objecto de análise sociológica (e sobretudo psicossociológica), na medida em que, antes de mais, é constituído por diferentes indivíduos e grupos, reunidos em função de um determinado objectivo e estabelecendo entre si determinado tipo de relações, de trabalho e de poder. Em todo o caso, não se pode falar de uma sociologia do hospital, com um objecto teórico próprio, mas sim de estudos da organização hospitalar, em grande parte de tipo funcionalista (Steudler, 1972). Enquanto instituição e organização, do hospital é possível, todavia, fazer uma análise comparativa em diferentes contextos históricos, e encontrar traços ou características comuns:
À partida, o que o distingue hoje o hospital duma empresa é o facto de poder ser classificada na categoria das organizações especializadas (Etzioni, 1980. 123), ou seja, aquelas que são estabelecidas com o fim específico de criar, aplicar, manter ou comunicar o conhecimento, e empregando no mínimo 50% de especialistas ou profissionais (por ex., médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, investigadores, biólogos, professores, juristas, engenheiros, assistentes sociais, informáticos). Neste conceito cabem, aliás, outras organizações, para além do hospital: a universidade, o centro de investigação, o laboratório de engenharia, o serviço de acção social, o centro de formação profissional, etc. Enquanto estrutura formal, ao hospital também pode ser aplicado o conceito weberiano de burocracia. Para Weber (1976), a burocracia representaria o tipo-ideal da racionalidade legal, caracterizada por (Graça, 1992a):
No entanto, este modelo sociológico depara com algumas dificuldades de aplicação às organizações de saúde e de ensino, e mais concretamente ao hospital:
"O funcionário obedece a ordens impessoais (isto é, à autoridade racional-legal), o médico tende a decidir muitas vezes de acordo, não com regras explícitas e escritas, mas com os imperativos do seu código de deontologia profissional, com as exigências da sua profissão, com critérios de natureza técnico-científica e sobretudo com a sua consciência, quando muito podendo ser julgado pelos seus pares e, excepcionalmente, pelo sistema judicial" (Graça, 1993). É que o conhecimento tem a particularidade de ser "em grande parte, uma propriedade individual", não podendo - ao contrário de outros recursos organizacionais - ser "transferido por decreto de uma pessoa para outra" (Etzioni, 1980. 121). O conceito de burocracia profissional (Mintzberg, 1975, cit. por Graça, 1992a) é porventura mais apropriado para entender as diferenças do hospital em relação a outros organizações, como a empresa de produção, a administração pública ou as forças armadas, que estão mais próximas do modelo weberiano. Embora estas últimas recorram (ou possam recorrer) à colaboração de especialistas, são fundamentalmente organizações não-especializadas. Freidson (1984), tomando como paradigma a medicina, faz a distinção entre uma profissão e uma simples ocupação, ofício ou métier. Seriam atributos de uma profissão (Graça, 1992a):
Contrariamente ao que se passa nas empresas, em que a autoridade do staff (por ex., engenheiro de organização e métodos, analista de sistemas, especialista de marketing) é limitada ao sistema técnico e organizacional de trabalho, no hospital a autoridade dos especialistas (por ex., médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica) sobrepõe-se à autoridade administrativa, na medida em que eles têm o controlo efectivo das actividades-fins da organização (por ex., tratar e curar os doentes). Nas organizações profissionais, os gestores encarrega-se das actividades-meios, os seja, administram os recursos (humanos, técnicos e financeiros) postos ao serviço das actividades-fins, que são realizadas pelos especialistas ou profissionais. Etzioni (1980. 129) chama atenção para um aspecto interessante, o de que as críticas feitas habitualmente "contra os especialistas, nas organizações não-especializadas, o são contra os administradores nas organizações especializadas". Ao criticar muitas vezes os administradores de serviços de saúde devido às suas "preocupações meramente economicistas", o que os médicos no fundo querem dizer é que "eles estão a perder de vista o essencial, a missão do hospital" (Graça, 1992a). Isso explicaria por é que, no entender de Etzioni (1980.130), "a direcção de uma organização especializada constitui um dilema especial, [sendo] um caso típico do conflito institucionalizado de papéis".
|
|
|
Uma característica comum aos diversos tipos de organizações que conhecemos - e que são, antes de mais, sítios onde se realiza uma actividade particular (por ex., produção de bens, administração do ensino, prestação de cuidados de saúde) é o seu maior ou menor grau de abertura em relação ao exterior.
Na esteira de Goffman (1972 e 1975), chamemos às primeiras total institutions (ou totalitárias, como prefere o seu tradutor francês). Um sinal do seu carácter total são, por exemplo, as barreiras que levantam às trocas ou transacções com o exterior, tanto ao nível das entradas (inputs) como das saídas (outputs) (Graça, 1992b): Essas barreiras podem ser:
Tais barreiras servem fundamentalmente para demarcar as fronteiras do sistema de acção interno e definir a identidade organizacional (Graça, 1992b). Ainda hoje certo tipo de hospitais como, por exemplo, o clássico hospital psiquiátrico ou o anexo hospitalar, destinado por exemplo a doentes crónicos acamados estão mais próximos do conceito de instituição totalitária (total institution), senão mesmo o próprio hospital público (Walton, 1988). Segundo Goffman (1975), uma característica fundamental das sociedades modernas seria a mobilidade, a liberdade espacial e temporal, do indivíduo. Ele dorme, come, aprende, reza, trabalha ou diverte-se, em sítios diferentes, com pessoas diferentes, sob diferentes tipos de autoridade: Em casa, o pai ou a mãe; na escola, a professora; no trabalho, o chefe; na igreja, o padre, etc. As instituições totalitárias, pelo contrário, quebram as fronteiras que separam habitualmente os três campos de actividades (casa, trabalho, lazer):
O traço essencial destas instituições é a aplicação ao indivíduo dum tratamento colectivo (e, nalguns casos, coercivo) de acordo com um sistema burocrático que cuida de todas as suas necessidades. Daí decorrem alguns consequências importantes, segundo Goffman (1975):
Em suma, e segundo Goffman (1972 e 1975), as instituições totalitárias seriam, nas nossas sociedades, lugares de coerção destinados a modificar a personalidade, as atitudes ou o comportamento do indivíduo, e a que o indivíduo responde através de dois tipos de "adaptações":
O hospital, durante séculos, foi claramente uma total institution, com maior ou menor conivência dos profissionais de saúde, e em particular dos médicos que fizeram dele apenas um lugar de passagem. Não é por acaso que ainda hoje se continua a falar tanto da humanização do hospital (Deliège e Leroy, 1978), o que não deixa de ser sintomático da persistência histórica de certos traços totalitários da sua organização e funcionamento (Grasset, 1975; Guyot, 1979; Walton, 1988). |
|
|
O hospital moderno é contemporâneo do Estado moderno. Na perspectiva da sociologia funcionalista americana, a modernização seria mais um processo de diferenciação de funções antigas do que de emergência de novas funções. De facto, a função hospitalar vamos já encontrá-la na antiguidade clássica, tal como a existência de grandes organizações com funções de produção, distribuição, educação, prestação de assistência, integração social, defesa militar, etc. (v.g., Egipto, Grécia, Roma, Bizâncio). O que é novo, é a organização hospitalar e não propriamente a função hospitalar (acolhimento de doentes, diagnóstico e tratamento da doença, prática e ensino da medicina à cabeceira do doente). Só que a função do hospital não é (nem nunca foi) estritamente técnica. Na realidade, o que caracteriza o hospital moderno é sobretudo a ruptura conceptual, isto é, a passagem do "social" (prestação de assistência) ao "sanitário" (produção de cuidados de saúde), a evolução do conceito primordial de hospitalidade e caridade para com "os pobres como irmãos em Cristo", para um outro conceito diametralmente oposto, o de prestação de serviços. Essa evolução semântica e conceptual ainda hoje escapa aos dicionaristas para quem o hospital continua a ser, em larga medida, sinónimo de indigência e de assistência (Clement, 1993). O que é novo, nas sociedades modernas, é a emergência dos sistemas integrados de saúde, e de que o hospital passa a fazer parte, enquanto subsistema de cuidados secundários (por ex., cura e tratamento) e terciários (reabilitação e reintegração), para além de lugar de ensino e de investigação biomédica. É certo que o lugar do hospital neste sistema tem vindo a deslocar-se. Em todo o caso, não se pode falar de sistemas de saúde sem a emergência dos modernos esquemas de protecção social e da correspondente modificação da natureza do Estado (até então o Estado Liberal tinha uma função meramente supletiva no campo da saúde). Enquanto subsistema (o dos cuidados secundários e terciários, ou seja, o do tratamento, cura e reabilitação da doença), o hospital é hoje objecto de análise económica, debate político e controvérsia doutrinária. Por exemplo, os modernos sistemas de saúde, nos países desenvolvidos, eram, pelo menos até aos anos 70, claramente hospitalocêntricos, além de medicocêntricos (Illich, 1975). No caso do nosso país, e até há trinta anos (1971), o hospital foi considerado "a peça central" do sistema prestador de cuidados (Campos, 1984). Hoje, e de acordo com a lei de bases da saúde (Lei nº 48/90, de 24 de Agosto de 1990), o sistema de saúde português baseia-se - teoricamente, pelo menos -, nos cuidados de saúde primários em articulação com os cuidados de saúde secundários: "1. O sistema de saúde assenta nos cuidados de saúde primários, que devem situar-se junto das comunidades. 2. Deve ser promovida a intensa articulação entre os vários níveis de cuidados de saúde, reservando a intervenção dos mais diferenciados para as situações deles carecidas e garantindo permanentemente a circulação recíproca e confidencial da informação clínica relevante sobre os utentes". (Base XIII). (Sobre a evolução do sistema de saúde português, ver página do Portal do Observatório Português dos Sistema de Saúde). |
(a) Extractos de : GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa, draft (Textos, T 1238 a T 1242). |
|
Última actualização: 10 de Março de 2005 / Last updated: March 10, 2005. |
© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt |
|
| index | links | forum | pst_whp | textos_papers | história_history |
|
| dados_data | citações _quotations | antologia_anthology | cvitae | |