Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

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95. Graça, L. (2000) - O Colapso Financeiro do Hospital de há 100 anos  [Financial Crisis of the Hospital 100 Years Ago](a)

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O equilíbrio financeiro em que assentava o hospital ocidental até aos finais do Séc. XIX, é brutalmente modificado por um conjunto de factores internos e externos de grande importância, nomeadamente em França (Garden, 1987; Rochaix, 1996):

  • A seguir à primeira guerra mundial assiste-se ao colapso das suas receitas e rendimentos patrimoniais (o autofinanciamento dos hospitais passa de 50% antes de 1914 para menos de 20% e depois 10%, para se resumir a 1%, na década de 1980);
  • As colectividades locais mostram-se incapazes de financiar o investimento e a modernização do sector hospitalar.

A evolução das receitas dos estabelecimentos hospitalares, no período que vai de 1853 a 1951, confirma claramente estas tendências:

  • As receitas ordinárias passam de 63% (em 1853) para 18% (em 1951), à custa fundamentalmente da redução drástica dos rendimentos provenientes dos bens imóveis e das rendas (Quadro I);

  • Por volta de 1850, os hospitais franceses possuíam ainda um vasto património fundiário, nomeadamente sob a forma de prédios rústicos que ocupavam mais de 200 mil hectares (Rochaix, 1966. 183);

  • A pressão sobre estes bens de mão morta vão-se acentuar no período republicano que se segue ao segundo império.

Por outro lado, o liberalismo burguês manifesta uma clara repulsa em relação à caridade que permitiu, até ao fim do Ancien Régime, a criação e a manutenção de uma rede de estabelecimentos assistenciais, se bem que anárquica e sem qualquer correspondência com as necessidades de saúde da população. Para compensar a diminuição das tradicionais receitas, provenientes da caridade (doações, legados, etc.), os estabelecimentos hospitalares vêem-se obrigados a alienar o seu património imobiliário, cuja gestão aliás não era fácil.

Por outro lado, a transformação do património imobiliário em títulos da dívida pública (ou rendas sobre o Estado) acabou por ser um mau negócio, devido nomeadamente à desvalorização monetária que se seguiu à I Guerra Mundial (Rochaix, 1966. 184).

A ajuda financieira das comunas aumentou até à década de 1890, ou seja até à altura em que começaram a ser promulgadas as leis de assistência, durante a III República: assistência na doença (1893), na infância (1904) e na velhice (1905) (Rochaix, 1996.157).

A partir daí irá aumentar de importância, no orçamento hospitalar, o reembolso dos custos da assistência, calculados com base no prix de journée: esta rúbrica passa de 20,8% em 1898 para 71,4%, em 1951, passando então a Segurança Social a ser o principal financiador dos hospitais.

 

Quadro I - Evolução percentual das receitas dos estabelecimentos hospitalares em França (incluindo os de Paris), por principais rubricas, de 1853 a 1951

Ano

Rúbrica

1853

1860

1872

1882

1898

1908

1922

1928

1938

1951

Receitas ordinárias

63,0

54,3

63,1

66,0

66,1

56,9

47,0

45,5

43,1

18,3

Bens imóveis

21,9

16,4

19,5

17,9

12,7

11,5

4,5

4,9

3,3

0,6

Rendas

14,6

13,3

16,3

18,0

17,7

12,5

6,2

4,0

2,2

0,05

Acessórios de dotação

2,5

2,1

2,2

4,3

3,9

4,3

5,9

6,4

3,7

0,08

Subvenções comunais

14,2

13,9

19,1

20,0

18,3

19,1

24,4

24,0

27,1

0,08

Diversos

9,8

8,6

6,0

5,8

13,5

9,5

6,0

6,2

6,8

17,5

Receitas extraordinarias

16,4

28,6

19,9

15,7

13,1

15,4

17,9

10,6

13,0

10,3

Reeembolso de custos

20,6

17,1

17,0

18,3

20,8

27,7

35,1

43,9

43,9

71,4

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: Adapt. de Rochaix (1996. 450-451)

 

Imbert (1958. 88) põe em evidência o crescente peso que a Sécurité Sociale passa a ter, no imediato pós-guerra, no financiamento do orçamento hospitalar, por comparação com a Aide Sociale (ou Assistance médicale gratuit, AMG., a cargo do Estado, dos departamentos e das comunas):

  • Em 1947, a Sécurité Sociale (SS) pagava 54% dos custos de hospitalização, enquanto à Aide Sociale (AS) competia 45%;
  • Cinco anos depois, em 1951, a SS reembolsa 68%, e a AS reduz a sua quota-parte para os 31%.

Quanto aos honorários médicos hospitalares, a AS não paga um tostão; as caixas da SS, por sua vez, desembolsam mais de 3,6 mil milhões de francos em 1952 e mais de 4 mil milhões em 1953 (cerca de 7,7% e 8,5%, respectivamente do total de despesas de hospitalização a seu cargo).

     

Quadro II - Evolução percentual das despesas de hospitalização  em França (desde 1853 e 1951)

Ano

Rúbrica

1853

1860

1872

1878

1888

1898

1911

1928

1938

1951

Pessoal

14,4

14,0

14,8

15,2

18,2

17,3

24,9

39,8

48,2

53,8

Material

26,8

33,7

26,9

25,1

25,1

29,3

26,2

19,9

18,6

13,3

Alimentação

43,0

43,0

53,1

54,5

50,1

43,5

40,4

30,2

24,9

20,7

Géneros

11,9

5,3

-

-

-

4,9

3,9

4,1

2,3

0,9

Farmácia

3,9

4,0

5,2

5,2

6,6

5,0

4,6

6,0

6,0

11,3

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

% do Total geral

65,7

65,7

64,0

60,6

60,4

74.0

80,4

81,5

79,3

83,3

Fonte: Adapt. de Rochaix (1996. 452-453)

 

A profissionalização do pessoal hospitalar e o crescente número de efectivos fazem aumentar, em termos exponenciais, os custos com o pessoal (Quadro II).

  • As despesas com a hospitalização representavam menos de dois terços do total das despesas dos estabelecimentos hospitalares (incluindo os de Paris), no período que vai de 1853 a 1888;
  • O restante diz respeito à administração de bens, prestação de socorros ao domicílio e despesas diversas (incluindo a assistência à infância);
  • Na primeira metade do Séc. XX, atingem os quatro quintos do total das despesas.

No período em análise, as despesas com o pessoal tendem a crescer lentamente até ao final do Séc. XIX, para começarem a disparar depois: 14% em 1853, 17% em 1898 e 54% em 1951. O mesmo se passa com os medicamentos: em cem anos, o seu peso no orçamento do hospital triplica, mas esse crescimento é mais notório entre 1938 (6%) e 1951 (11%).

Inversamente, a parte da alimentação nos custos de hospitalização passa para menos de metade, ou seja, de 43% em 1853 e para 21% em 1951, depois ter atingido a proporção mais alta em 1878 (55%). Também as despesas com material sofreram um redução para metade, em termos relativos. Quanto às despesas em géneros (representando 12% dos custos de hospitalização no início da segunda metade do Séc. XIX), irão praticamente desaparecer cem anos depois.

  

Quadro III - Evolução do número de pessoal hospitalar em França, entre 1847 e 1939

Ano

Pessoal

1847

1861

878

1888

1898

1908

1928

1939

Dif.

(%)

Médicos

2167

2501

2787

2906

3368

3826

4789

6107

+282

Religiosas

7622

10035

11286

11199

12047

12362

14690

13719

+180

Empregados

1052

2728

3050

2979

3173

3292

6008

8055

+766

Enfermeiras/Auxiliares

6845

10245

11553

13416

16789

13967

20878

28818

+421

Total

17686

25509

28676

30500

35377

34077

46365

56699

+321

Fonte: Adapt. de Rochaix (1996. 210)

 

 Entre 1847 e 1938, o pessoal hospital triplica, passando de mais de 17 mil para mais de 56 mil. Por categorias, esse crescimento foi mais notório entre o pessoal administrativo (mais de 700%) e as enfermeiras e auxiliares (mais de 400%) do que entre os médicos e as religiosas (Quadro III).

Ao longo deste período o número de médicos andou em média nos 10% do total de pessoal, enquanto as enfermeiras e o pessoal de acção auxiliar passaram a ultrapassar os 50% em 1938. Em contrapartida, o peso relativo das religiosas tende claramente a diminuir: 43% do total em 1847, contra 24% em 1938.

A diminuição do pessoal religioso não foi, ao que parece, compensado pelo aumento de pessoal de enfermagem qualificado, mau grado o esforço das escolas de enfermagem e as iniciativas privadas: "Le nombre d’écoles d’infirmières (...) est notoirement insuffisant et l’initiative privée ne suffit pas à assurer le recrutement nécessaire" (Rochaix, 1996. 203).

A clientela do hospital deixa de ser progressivamente o doente pobre para passar a ser um consumidor, obrigando a administração hospitalar a facturar os seus serviços em custos reais (salários, hotelaria, medicamentos e outros bens consumíveis, amortizações de instalações e equipamentos, etc.), e não já segundo um cálculo teórico como acontecia no Séc. XIX para certas categorias da população total ou parcialmente a cargo do Estado (militares, inválidos, alienados, etc.) ou das associações de socorros mútuos (trabalhadores assalariados ou independentes, artesãos, pequenos comerciantes, etc.);

O hospital torna-se cada vez uma empresa de serviços em que, pelo menos, dois terços das suas despesas são encargos salariais, e a quase totalidade das receitas são representadas pelo reembolso dos custos de internamento.

É neste contexto que se começa a desenhar a tendência para o controlo estatal das despesas de saúde e para o economicismo que irá marcar a 3ª fase da evolução do sistema hospitalar.

Em suma, "a evolução económica do hospital é inseparável da progressão dos sistemas de previdência (associações de socorros mútuos, seguros) e, mais tarde, da segurança social, que transformam radicalmente o recurso ao hospital" (Garden, 1987. 442).

 

Referências bibliográficas / Bibliography

  (a) Extractos de: GRAÇA, L. (1996) - Evolução do sistema hospitalar: uma perspectiva sociológica. Lisboa: Disciplina de Sociologia da Saúde / Disciplina de Psicossociologia do Trabalho e das Organizações de Saúde. Grupo de Disciplinas de Ciências Sociais em Saúde.  Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa   (Textos, T 1238 a T 1242).

 

 

Última actualização: 2 de Fevereiro  de 2005 / Last updated: February 2,   2005

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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