Antologia > Representações Sociais do Trabalho e da Saúde / Anthology > Work and Health, a Social Construction

 

 

As mondas (...ou o trabalho de sol a sol, ao ar livre!)

"Lembram-se ? Ranchos de raparigas alegres, muito amigas de cantar, andam no meio das searas, debruçadas sobre a terra, a arrancar as ervas ruins, para o trigo poder crescer à vontade. É o trabalho da monda.

"A labuta não as cansa. Saem de casa logo de manhã cedo, a rir, como se fossem para uma festa. Levam o dia a cantar ao desafio com os melros e as cotovias; e, ao largarem o trabalho, à hora do pôr do sol-pôr, voltam para casa ainda a rir e a cantar.

"Todo o trabalho é assim: dá saúde e alegria, mormente o que se faz ao ar livre".

Fonte / Source: Livro de Leitura da 3ª Classe. Lisboa: Ministério da Educação Nacional, s/d, p.  (Itálicos meus)

 

 

  Gaspacho (...ou quem não trabuca não manduca!) (a)

"Trabalhei a ceifar, trabalhei à monda, trabalhei na azeitona. Trabalhei em muitos sítios. Mas os patrões só davam comida na acefa. A comida era pão cozido de quinze dias, um capacho todos os dias ao jantar, que era às cinco e meia da tarde. Depois, à noite, já não comíamos nada.

"Durante o dia eram os grões com morcela rançosa. Carne esfoladia, isso não apanhávamos nada. Era a morcela rançosa, era aquela farinheira que era só farinha, era o toucinho rançoso e azeitonas. Eram o que davam à gente durante aqueles trinta dias. Fiz uma acefa por conta do pai do Neves. Andei lá trinta dias. Comemos trinta capachos.

"(...) A gente cefava até às dez e meia da noite. Depois íamos dormir lá num palheiro.

"Então, dia sim, dia não, comíamos pão com azeitonas, para não andarmos todos os dias a comer sempre a mesma coisa (...)

Antónia Maria Carmelo (Antónia Grila), 70 anos, casada, analfabeta, operária agrícola reformada, natural de S. Bento do Ameixial, Estremoz.

In: ALVES, A. Falcato (1994): Os comeres dos ganhões. Memória de outros sabores. Porto: Campo das Letras. 1994. 47-48 (Edição especial com o patrocínio da Associação de Municípios do Distrito de Évora) (Itálicos meus).

(a) "No tempo da fome, que foi o tempo do fascismo no Alentejo, a açorda era o alimento quase exclusivo dos trabalhadores alentejanos durante os meses de Inverno. No Verão, a açorda era substituída pelo gaspacho" (Alves, 1994. 17).

 

O mito de Sísifo (... ou o trabalho inútil e sem esperança!)

 

"Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível de que o trabalho inútil e sem esperança.

"(...) Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse ? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida (...)".

Fonte / Source: CAMUS, Albert (1943) - O mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil. s/d. 113-115 (LBL Enciclopédia, 18) (tr. do fr., Le mythe de Sisyphe, Paris, Gallimard, 1943) (Itálicos meus).

 

Direito ao Trabalho ou Direito.... à Preguiça ?

 

"Tal como Cristo, a dolente personificação da escravatura antiga, os homens, as mulheres e as crianças do Proletariado suportam penosamente, há um século, o duro calvário da dor: há um século que o trabalho forçado lhes parte os ossos, lhes mortifica a carne, lhes atazana os nervos: há um século que a fome lhes contorce as entranhas e lhes alucina os cérebros!... Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!"

 

Fonte / Source: LAFARGUE, Paul (1880) - O direito à preguiça. Lisboa: Dom Quixote, 1971 (Diálogo, 15) (tr. do fr.,  Le Droit à la Paresse, Paris, Maspero, s/d. 92. (Edição original, como planfleto, 1880)

 

Does Smoking Kill Workers or Working Kill Smokers ? Or The Mutual Relationship Between Smoking, Occupation,  and   Respiratory Disease.

Th. D. Sterlinhg (1978)

Int.J. Health Serv. 8: 3 (1978) 437-452

 

 

Última actualização / Last updated: 2  de Abril  de 2005 / April 2,   2005. 

© Luís Graça (1999-2005). E-mail: luis.graca@ensp.unl.pt

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