Melhorar a monitorização do VIH em Portugal passa por reforçar a capacidade de ligar, articular e usar a informação existente, permitindo acompanhar o percurso das pessoas e identificar barreiras de acesso ao longo da resposta em saúde. Esta é uma das conclusões do HIVision – Diagnóstico sobre a monitorização do VIH em Portugal, um projeto da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA), que identifica ações e prioridades para ultrapassar os problemas de monitorização do VIH.
O projeto HIVision envolveu cerca de 30 peritos de instituições públicas de saúde, organizações de base comunitária, hospitais, associações e municípios, tendo sido desenvolvido com o apoio da Gilead Sciences, refletindo um trabalho colaborativo e multissetorial.
O relatório final, que será apresentado hoje, dia 25 de junho, mostra que o país já dispõe de dados relevantes, experiência técnica e conhecimento acumulado nesta área. O principal desafio é que essa informação continua dispersa, pouco articulada e nem sempre devolvida de forma útil a quem decide, planeia ou presta cuidados. Portugal pode dar um salto qualitativo na resposta ao VIH se criar condições para transformar dados dispersos em informação útil para cuidar melhor, planear melhor e decidir melhor.
Embora seja possível acompanhar indicadores importantes, é difícil monitorizar o percurso das pessoas ao longo da resposta ao VIH, da prevenção e testagem ao tratamento, retenção em cuidados e qualidade de vida. Para os autores, melhorar esta monitorização é essencial para compreender trajetórias, reduzir desigualdades e reforçar a eficácia da resposta em saúde.
Para Teresa Magalhães, coordenadora da equipa do projeto e docente da ENSP NOVA, “Portugal já mostrou que consegue responder de forma robusta ao VIH. O que este trabalho demonstra é que também pode monitorizar melhor essa resposta, com mais integração, mais continuidade e mais capacidade de transformar dados em ação.”
Ricardo Mestre, também coordenador do projeto e docente da ENSP NOVA, sublinha que “monitorizar melhor não é apenas contar casos. É compreender o percurso das pessoas, devolver conhecimento útil aos profissionais e apoiar decisões mais inteligentes. Quando isso acontece, ganha a saúde pública, ganham os profissionais e ganham as pessoas. Este é um trabalho que as instituições podem e querem desenvolver, se tiverem condições para o concretizar”.
Seis prioridades para melhorar a monitorização do VIH em Portugal
O relatório identifica no seu Call to Action seis prioridades estratégicas, consideradas essenciais para que Portugal se alinhe com as metas internacionais até 2030:
- Reforçar e clarificar a governação da informação em VIH
Promover liderança clara, articulação institucional e responsabilidade partilhada. - Estruturar a arquitetura de informação para o VIH
Passar de uma lógica fragmentada para uma visão coordenada, integrando todas as fontes epidemiológicas, clínicas, laboratoriais e comunitárias. - Implementar a monitorização longitudinal do percurso da pessoa
Acompanhar o trajeto da pessoa ao longo do tempo, integrando prevenção, testagem, cuidados e qualidade de vida. - Valorizar e integrar dados comunitários
Tornar visíveis necessidades e populações que permanecem fora dos circuitos formais. - Consolidar e operacionalizar a matriz de indicadores para o VIH
Garantir informação consistente, comparável e útil para a decisão e para o reporte nacional e internacional. - Disponibilizar informação estruturada para apoio à decisão
Assegurar que a informação é acessível e acionável para profissionais e decisores.
Mais do que um diagnóstico, o HIVision propõe uma agenda nacional de melhoria da monitorização do VIH, baseada num roteiro faseado e orientado para resultados. A conclusão é clara: já não basta acompanhar novos diagnósticos. É necessário acompanhar o percurso das pessoas ao longo do tempo e utilizar a informação para melhorar decisões e reduzir desigualdades. Portugal tem condições para o fazer, nomeadamente no contexto das ULS, que criam uma base privilegiada para integrar informação e aproximar a decisão da prestação de cuidados.